12/12: como a luz decide quando a planta floresce
O nome «fotoperíodo» engana: o que a planta mede é o escuro, não a luz. Um período de obscuridade suficientemente longo e ininterrupto é o sinal que desencadeia a floração, e uma interrupção de segundos pode reiniciar a contagem.
É por isso que as estufas se selam, que os interiores se testam ao escuro, e que uma luz de aviso num extractor consegue estragar uma cultura. Esta página explica o mecanismo e as suas consequências práticas.
⚠️ Nota de enquadramento. A autorização de cultura da DGAV cobre fibra e semente; a inflorescência não está lá. Esta página descreve fisiologia vegetal e destina-se a compreensão.
O mecanismo
O pigmento que mede
A planta possui um pigmento sensível à luz vermelha que existe em duas formas interconvertíveis. A luz converte-o numa forma; o escuro permite a reversão lenta à outra.
O que é contado
O tempo que a forma activa demora a reverter durante a obscuridade. Se o escuro for suficientemente longo, a reversão completa-se e o sinal de floração é dado.
Porque é que a interrupção reinicia
Porque um flash de luz reconverte o pigmento instantaneamente. A contagem volta ao início, e a planta lê a noite como duas noites curtas em vez de uma longa.
E porque é que se diz «planta de dia curto»
É a designação clássica em fisiologia, e é imprecisa pela mesma razão. Rigorosamente, é uma planta de noite longa.
Os regimes de luz
18/6 ou 20/4
Fase vegetativa. Noite curta demais para desencadear floração, e a planta cresce em estrutura.
12/12
O regime que desencadeia e mantém a floração em interior. Doze horas de escuro ininterrupto são suficientes com margem para a maioria das variedades.
O ciclo natural exterior
A noite alonga-se progressivamente a partir do solstício de Verão. A floração inicia-se quando a duração da noite ultrapassa o limiar da variedade.
E as variações
Regimes com noites mais longas na fase final são usados por alguns produtores. O efeito é debatido, e o custo em tempo de luz produtiva é certo.
A tabela dos regimes
| Regime | Fase | O que provoca |
|---|---|---|
| 24/0 | vegetativa | crescimento contínuo, sem repouso |
| 20/4 | vegetativa | crescimento rápido |
| 18/6 | vegetativa | o padrão mais comum |
| 14/10 | transição | limiar de algumas variedades |
| 12/12 | floração | o padrão de interior |
| 11/13 ou menos | floração tardia | usado por alguns produtores no fim |
A fuga de luz
O que é
Qualquer luz que entre no espaço durante o período de escuro. Uma fresta na porta, o indicador de um aparelho, um telemóvel.
O que provoca
Interrupção da contagem. A planta lê duas noites curtas em vez de uma longa e o sinal de floração enfraquece ou não é dado.
As consequências visíveis
Floração atrasada, retorno parcial ao crescimento vegetativo, e — no cenário mais custoso — desenvolvimento de estruturas reprodutoras masculinas numa planta feminina.
E como se testa
Entrar no espaço durante o período escuro, esperar alguns minutos para a vista adaptar, e procurar qualquer ponto de luz. Se se vê, a planta também «vê».
A excepção: as variedades automáticas
O que as distingue
Florescem em função da idade e não da duração da noite. O gatilho é interno.
De onde vem essa característica
De uma subespécie adaptada a latitudes altas, onde o Verão tem noites muito curtas e a estação é demasiado curta para esperar pelo sinal de escuro.
O que isso permite
Cultivo sob luz contínua ou com regimes longos durante todo o ciclo, e várias colheitas por época em exterior.
E o que isso custa
Menor controlo. Não se pode prolongar a fase vegetativa nem ajustar o momento da floração — a planta decide, e as técnicas de gestão de dossel com stress deixam de ser praticáveis.
O que muda entre interior e exterior
Em interior
O produtor decide a data. A transição faz-se num dia, mudando o temporizador.
Em exterior
Decide a latitude e a estação. A floração inicia-se quando a noite atinge o limiar, e a colheita segue-se algumas semanas depois.
O que a latitude implica
Em latitudes mais a norte, a noite alonga-se mais cedo e a floração começa mais cedo. Em latitudes a sul, mais tarde — e a estação de crescimento é mais longa.
E em estufa
Um híbrido. É possível forçar a floração cobrindo a estrutura para criar escuro artificial, e é uma prática comercial estabelecida em horticultura.
O que isto tem a ver com o produto final
O tempo de floração
Determina quando a planta atinge maturação, e é a informação que os catálogos de variedades publicam.
A previsibilidade
Um ciclo controlado em interior repete-se; um ciclo exterior varia com o ano. É uma das razões da diferença de consistência entre os dois.
O número de colheitas
Em interior, várias por ano. Em exterior, uma — ou mais, com variedades automáticas.
E o que nada disto altera
O boletim. O regime de luz não é uma característica analítica, e o limite de 0,3% de THC total aplicável ao cânhamo industrial nos termos da Portaria n.º 64/2023 mede-se da mesma forma:
THC total = delta-9-THC + (THCA × 0,877)
Como se prepara a transição
Verificar a estanquidade
Antes de mais nada. Entrar no espaço com tudo desligado, esperar que a vista adapte, e procurar pontos de luz.
Confirmar o temporizador
Um temporizador que falha durante a noite é uma fuga de luz com horário. Vale a pena verificar o funcionamento antes de depender dele.
Terminar as intervenções
Corte, dobragem e desfolha significativa fazem-se antes. A partir da transição, a planta não tem margem para recuperar.
E ajustar o espaço
A planta continua a crescer nas primeiras semanas de floração, tipicamente duplicando de tamanho. O espaço tem de contar com isso.
O que acontece nas semanas de floração
As primeiras duas semanas
Crescimento acelerado em altura e formação dos primeiros pontos florais. A planta continua a comportar-se como se estivesse em fase vegetativa.
Da terceira à quinta
Formação da estrutura floral. As brácteas multiplicam-se e a densidade de tricomas começa a subir.
Da sexta em diante
Enchimento. A estrutura já existe e o que muda é a massa e a acumulação de resina.
E a fase final
Maturação. A acumulação abranda e as cabeças de tricoma começam a mudar de cor — é aí que a observação decide a data.
O que a luz artificial mudou
O espectro ajustável
Fontes modernas permitem alterar a proporção entre comprimentos de onda ao longo do ciclo. É uma variável que a luz solar não oferece.
A intensidade controlada
Medida em fluxo de fotões úteis à fotossíntese por unidade de área e de tempo. É o número que descreve o que a planta recebe.
O custo energético
A variável económica dominante de qualquer produção de interior, e a razão pela qual a eficiência das fontes de luz mudou o sector.
E o que continua igual
O mecanismo. Por muito que a tecnologia de iluminação mude, a planta continua a medir a duração ininterrupta do escuro.
As variedades automáticas, em detalhe
O ciclo completo
Tipicamente muito mais curto do que o de uma variedade dependente do fotoperíodo, contado desde a germinação e não desde a transição.
O que isso implica no cultivo
Não há fase vegetativa ajustável. O que a planta construir no tempo que tem é o que terá.
As técnicas compatíveis
Dobragem de baixo stress, sim. Corte e desfolha significativa, mal — não há tempo de recuperação.
E onde compensam
Em exterior, em latitudes onde a estação permite duas ou três colheitas. E em espaços onde o controlo absoluto do escuro é difícil de garantir.
Um glossário curto, para não voltar atrás
Fotoperíodo — a duração relativa de luz e escuro num ciclo de 24 horas.
Planta de noite longa — a designação rigorosa para o que a fisiologia clássica chama planta de dia curto.
Fuga de luz — qualquer luz que entre no espaço durante o período de escuro.
Variedade automática — a que floresce em função da idade e não do fotoperíodo.
Factor 0,877 — a razão de massas que converte a forma ácida na neutra.
As cinco verificações que servem para tudo
- Há lote na embalagem, e o boletim é desse lote?
- O laboratório é independente e acreditado?
- O CBD total e o THC total estão calculados com o factor 0,877?
- Quantos painéis de contaminantes tem o boletim, e quais?
- Qual é o preço por miligrama, depois de feita a conta?
Como isto se cruza com o resto do site
A gestão do dossel descreve a técnica que termina nesta transição. O indoor e o exterior compara os ambientes. A cor do tricoma explica como se decide o fim deste ciclo. E o catálogo europeu de variedades explica o que se pode semear legalmente.
O que fazer com isto na prática
Se estás a comparar dois produtos
Não vais ver isto no produto. O que se lê é consistência entre lotes, e essa é consequência indirecta do controlo do ciclo.
Se estás a avaliar um vendedor
Pergunta se é produção de interior, de estufa ou de campo. É informação que o produtor tem e que explica a variabilidade entre lotes.
Se estás só a tentar perceber
Guarda a correcção do nome: o que a planta mede é o escuro. Tudo o resto — a fuga de luz, o regime 12/12, as variedades automáticas — decorre daí.
O que este site publica, e porquê
Registamos o ambiente de cultivo quando declarado. É informação descritiva, e não entra na ordenação por preço por miligrama.
Um resumo em cinco linhas
- A planta mede o escuro, não a luz. É uma planta de noite longa.
- Uma interrupção reinicia a contagem — um flash de segundos chega.
- 12/12 é o regime de interior, com margem confortável face ao limiar.
- As variedades automáticas florescem por idade, e dispensam o sinal.
- Em exterior decide a latitude e a estação, e por isso há uma colheita por ano.
O que a duração do dia decide
O sinal
A planta mede a duração da noite, não a do dia. É a interrupção da escuridão que conta.
A consequência
Noites acima de um certo comprimento desencadeiam a passagem para a fase reprodutiva.
Porque isso importa em cultivo
Porque permite decidir quando a planta muda de fase, alterando o calendário de luz em vez de esperar pela estação.
O que acontece se o sinal for interrompido
Uma luz breve a meio da noite pode reverter ou atrasar a transição. É a falha mais comum em espaços mal vedados.
As variedades que não dependem do dia
Como funcionam
Passam de fase pela idade, não pelo sinal de luz. O calendário está na planta.
A vantagem
Ciclos curtos e previsíveis, e possibilidade de várias colheitas por época em exterior.
O custo
Menor porte e menor rendimento por planta, na maioria dos casos.
O que isto muda no produto
Nada que se meça. Muda o calendário de produção, não a composição do que se colhe.
A luz em exterior
O que decide
A latitude e a época. A duração da noite muda ao longo do ano e a planta reage a isso.
O calendário
Fixo pela estação. Sementeira na Primavera, colheita no fim do Verão ou no Outono, conforme a variedade e o local.
O que não se controla
Nuvens, ondas de calor e chuva na altura errada. A variação entre anos é grande.
O que isto explica
Porque há uma colheita por ano e porque a data dela é a informação mais relevante para quem compra.
A luz em interior
O que se controla
Duração, intensidade e espectro, todos independentes uns dos outros.
O que isso permite
Colheitas ao longo do ano e lotes mais parecidos entre si.
O que custa
Energia, e é a maior parcela do custo de produzir em interior.
O que não substitui
O sol tem um espectro que nenhuma lâmpada reproduz por inteiro. Há quem lhe atribua efeito no perfil, e falta medição publicada.
A intensidade, que é outra variável
Pouca
Plantas alongadas, flores pouco densas, rendimento baixo.
Muita
Maior densidade, e a partir de certo ponto danos por excesso.
Onde está o ponto
Depende da variedade e das restantes condições. Não há valor universal.
O que isto explica
Diferenças de densidade entre material de interior e de exterior, que se vêem à vista e não dizem nada sobre teor.
O que a maturação faz ao perfil
O aroma desloca-se
Ao longo das últimas semanas, de forma contínua. Antecipar ou atrasar a colheita muda o que se cheira.
O teor sobe e estabiliza
Com um patamar, e depois começa a descer se a colheita se atrasar de mais.
A proporção entre compostos
Também se desloca. É por isso que a data da colheita é decisão técnica e não conveniência.
Como se decide
Observando as glândulas com ampliação e acompanhando por análise, quando existe.
O que a lei acrescenta ao calendário
A amostragem oficial
Faz-se em período definido, ligado à floração, e segundo procedimento estabelecido.
O que isso obriga
A declarar a parcela e a manter o calendário compatível com a inspecção.
O que acontece se o valor exceder
O porte não pode ser usado para o fim declarado. É uma perda total da campanha nessa parcela.
Porque isto se relaciona com esta página
Porque a data da colheita é ao mesmo tempo decisão agronómica e obrigação legal, e as duas nem sempre apontam no mesmo sentido.
O que chega ao consumidor
A data de colheita
Uma por ano em exterior, várias em interior. Explica idade e explica aroma.
O boletim do lote
Que mede o que a decisão de calendário produziu.
O que não chega
O calendário em si. Nenhum rótulo europeu indica a duração do ciclo nem o regime de luz.
O que seria útil
A data. É um dado que existe sempre e falta quase sempre.
O que perguntar
A data de colheita
Não a de embalamento, que é outra coisa e costuma ser a única indicada.
O ambiente de cultivo
Porque explica a densidade e o perfil de contaminantes esperável.
O boletim com o lote
Como em qualquer produto desta categoria.
O teor em miligramas
Para comparar com qualquer outra oferta.
O que fica por resolver
O efeito do espectro no perfil
Afirmação repetida, medição ausente. Seria comparação simples de fazer.
A ausência de data na maioria das embalagens
Que impede interpretar tudo o resto.
A confusão entre densidade e qualidade
Densidade é consequência da luz. Qualidade mede-se no boletim.
O que o produto faz
Não existe alegação autorizada na União que o permita descrever.
Perguntas frequentes
Porque é que 12/12 e não outro valor?
Porque doze horas de escuro ultrapassam com margem o limiar da generalidade das variedades, e porque divide o dia em duas metades iguais, o que simplifica a operação.
Uma luz verde não conta?
A sensibilidade do pigmento é menor no verde do que no vermelho, e por isso a luz verde é usada como compromisso. Menor sensibilidade não é ausência de sensibilidade.
O que acontece se houver fuga de luz?
Floração atrasada ou incompleta, e em casos mais graves o aparecimento de estruturas reprodutoras masculinas numa planta feminina.
As automáticas são piores?
São diferentes. Menos controlo e ciclo mais curto, em troca de independência do fotoperíodo e de várias colheitas por época.
Isto aplica-se ao cânhamo de campo?
A fisiologia é a mesma. A cultura extensiva para fibra e semente é semeada e colhida em função da estação, sem controlo do ciclo.