«Não detectado» não é zero, e a diferença importa
Quando um boletim escreve «0,00%» ou «não detectado», não está a dizer que a substância não existe. Está a dizer que, se existe, está abaixo do que aquele método consegue ver.
A diferença entre as duas frases é a diferença entre uma afirmação sobre o produto e uma afirmação sobre o instrumento. Esta página explica como se distinguem, e porque é que um boletim que declara os seus próprios limites é mais fiável do que um que apresenta zeros redondos.
Os três números que definem uma medição
LOD — limite de detecção
A concentração mais baixa a que o método consegue distinguir a substância do ruído de fundo. Abaixo disto, o instrumento não sabe se está a ver alguma coisa ou a ver-se a si próprio.
O LOD responde a uma pergunta binária: está lá ou não está?
LOQ — limite de quantificação
A concentração mais baixa a que o método consegue atribuir um valor com fiabilidade aceitável. É sempre superior ao LOD, tipicamente por um factor de duas a três vezes.
O LOQ responde a uma pergunta diferente: quanto é que lá está?
A incerteza de medição
Todo o resultado analítico tem margem. Um boletim rigoroso escreve algo como 0,24% ± 0,03%, e essa
margem não é uma fraqueza — é a declaração honesta do que o método consegue garantir.
A relação entre os três
Entre o LOD e o LOQ existe uma zona cinzenta: a substância foi detectada mas não se consegue dizer
quanto. É aí que aparecem notações como traços ou <LOQ.
Como isto aparece nos boletins
As notações que vais encontrar
NDou «não detectado» — abaixo do LOD<LOQou «< limite de quantificação» — detectado, mas não quantificável<0,01%— o mesmo, com o valor do limite explícito0,00— ambíguo, e é o pior dos formatos
Porque é que 0,00 é o pior
Porque não distingue «não existe» de «não conseguimos medir». Duas amostras, uma com zero absoluto e outra com metade do LOQ, aparecem exactamente iguais no papel.
O que um bom boletim faz
Declara o LOD e o LOQ do método, tipicamente numa nota de rodapé ou numa coluna própria. Isso permite ao leitor saber onde acaba a certeza.
O caso do THC, onde isto tem consequências
O limite legal
A Portaria n.º 64/2023 fixou em 0,3% o limite aplicável ao cânhamo industrial em Portugal.
O problema dos «0% THC»
Um produto anunciado como «sem THC» pode conter THC abaixo do LOQ do método usado. Se o LOQ for 0,05%, tudo o que estiver entre zero e 0,05% aparece como zero.
Isso é honesto do ponto de vista analítico e enganador do ponto de vista comercial, se a loja apresentar o resultado como prova de ausência absoluta.
Porque é que isso importa em contextos concretos
Um método com LOQ alto e um método com LOQ baixo dão respostas diferentes sobre a mesma amostra. Comparar dois produtos por essa linha, quando os laboratórios usam métodos diferentes, é comparar instrumentos e não produtos.
A pergunta útil
Não é «tem THC?». É «qual é o LOQ do método, e o resultado ficou abaixo dele?»
O mesmo problema nos contaminantes
Pesticidas
Um painel que testa vinte substâncias e devolve tudo «não detectado» diz menos do que um que testa sessenta. A ausência de resultado positivo depende de o que foi procurado.
Metais pesados
Chumbo, cádmio, mercúrio e arsénio têm limites regulamentares em várias matrizes. Um resultado abaixo do limite regulamentar é conformidade; um resultado abaixo do LOQ é outra coisa, e vale a pena saber qual das duas o boletim está a declarar.
Solventes residuais
É o painel onde a distinção mais interessa, porque a pergunta relevante é precisamente sobre vestígios. Um extracto obtido com hidrocarbonetos analisado por um método com LOQ alto pode passar sem que isso signifique muito.
Micotoxinas
As aflatoxinas têm limites na ordem dos microgramas por quilo. A sensibilidade do método é aqui determinante, e um boletim que não declara o LOQ deixa a pergunta em aberto.
Como avaliar a sensibilidade de um boletim
Procura a nota de método
Boletins de laboratórios acreditados indicam o método usado — cromatografia líquida ou gasosa, com que detector. Métodos diferentes têm sensibilidades muito diferentes.
Compara LOQ entre boletins
Se estiveres a comparar dois produtos, verifica se os laboratórios usaram métodos com sensibilidade semelhante. Se um tem LOQ dez vezes menor, os resultados não são directamente comparáveis.
Desconfia da precisão excessiva
Um resultado apresentado como 0,2837% sem margem de erro sugere que alguém copiou um número do
instrumento sem perceber quantos algarismos são significativos.
Valoriza quem declara incerteza
Um laboratório que escreve 9,1% ± 0,4% está a dizer-te exactamente o que sabe e o que não sabe. É
mais informativo, e mais defensável, do que 9,1%.
Um exemplo completo
Imagina duas linhas de dois boletins diferentes sobre o mesmo tipo de produto:
Boletim A: Delta-9-THC: 0,00%
Boletim B: Delta-9-THC: <LOQ (LOQ = 0,010%; LOD = 0,003%)
O boletim B parece pior — tem um símbolo de «menor que» em vez de um zero limpo. Na realidade diz muito mais: o método consegue detectar até 0,003%, quantificar a partir de 0,010%, e a amostra ficou algures abaixo desse valor.
O boletim A pode ter sido produzido por um método dez vezes menos sensível, e o zero não distingue.
O que isto significa para a escolha
Não é motivo para desconfiar de tudo
A esmagadora maioria dos boletins com zeros é honesta. O ponto não é suspeitar — é saber o que a frase significa antes de a usar para decidir.
É motivo para preferir quem declara
Entre dois produtos equivalentes, aquele cujo boletim declara LOD, LOQ e incerteza vem de um processo mais rigoroso. Não porque o produto seja melhor, mas porque sabes mais sobre ele.
E é motivo para não repetir a frase errada
«Zero THC» é uma afirmação que um boletim raramente suporta. «Abaixo do limite de quantificação do método» suporta-se sempre, e é o que se deve dizer.
Como isto se cruza com o resto do site
O boletim de análise explica o documento inteiro, linha a linha. O factor 0,877 explica porque é que o THC total não é o delta-9 sozinho — e as duas coisas juntas são o que decide se um produto está dentro do limite legal português.
Como um laboratório determina os seus limites
A validação de método
Antes de um método poder ser usado em rotina, é validado: analisam-se amostras com concentrações conhecidas, repetidamente, e mede-se a dispersão dos resultados.
Dessa dispersão saem o LOD e o LOQ. Não são valores escolhidos — são calculados a partir do comportamento real do método naquela matriz.
Porquê «naquela matriz»
Porque a sensibilidade depende do que rodeia a substância. Detectar um pesticida num óleo gordo é mais difícil do que detectá-lo em água, porque a matriz interfere.
É por isso que a acreditação de um laboratório é por método e por matriz, e não em geral. Um laboratório acreditado para canabinóides em óleo pode não estar acreditado para canabinóides em creme.
O que a ISO/IEC 17025 exige
A norma fixa os requisitos de competência de laboratórios de ensaio e calibração. Um laboratório acreditado segundo ela tem de demonstrar validação de métodos, rastreabilidade de padrões, qualificação de pessoal e participação em ensaios interlaboratoriais.
Nenhuma dessas coisas garante que um resultado individual esteja certo. Garantem que existe um sistema para o tornar provável, e para detectar quando não está.
O que fazer com esta informação, como comprador
Não é preciso ser químico
A pergunta prática é uma só: o boletim diz onde acaba a certeza dele?
Um que diz, permite-te avaliar. Um que não diz, obriga-te a assumir.
Quando é que a diferença muda uma decisão
Sobretudo em duas situações. A primeira é quando o produto se aproxima de um limite legal — aí a sensibilidade do método e a incerteza de medição podem decidir se está dentro ou fora.
A segunda é quando se compara dois produtos pela mesma linha. Se os métodos tiverem sensibilidades diferentes, a comparação não é entre produtos.
O que não vale a pena fazer
Rejeitar todos os boletins que escrevem zeros. A maior parte é honesta e a maior parte dos produtos está bem. O ponto é saber ler, não desconfiar de tudo.
Uma nota sobre arredondamentos
Algarismos significativos
Um resultado de 0,3% e um de 0,30% não dizem a mesma coisa. O segundo afirma precisão até à
segunda casa; o primeiro não.
Boletins que apresentam muitos algarismos sem declarar incerteza estão a sugerir uma precisão que o método provavelmente não tem.
O caso limite
Um produto medido como 0,30% ± 0,03% de THC total pode, dentro da incerteza declarada, estar entre
0,27% e 0,33%. O limite português é 0,3%.
Isto não é um problema teórico: é a razão pela qual produtores prudentes trabalham com margem, e não com o valor exactamente no limite.
O que fazer com isto na prática
Se estás a comparar dois produtos
Faz a conta a partir das linhas individuais do boletim, nunca a partir do total apresentado por quem vende. Leva menos de um minuto e é onde aparecem quase todas as discrepâncias.
Se estás a avaliar uma loja
A pergunta que separa quem sabe de quem não sabe é sempre a mesma: o boletim é do lote que vou receber? Uma loja que responde a isso em minutos, com o documento certo em anexo, já respondeu na prática a metade das outras perguntas.
Se estás só a tentar perceber
Guarda três números. O 0,877, que converte a fracção ácida. Os 0,3%, que é o limite português de THC total. E o preço por miligrama, que é a única comparação entre produtos que é aritmética e não opinião.
Com esses três, lê-se qualquer boletim e compara-se qualquer par de produtos sem depender do que a embalagem afirma.
O que este site publica, e porquê
Calculamos os totais a partir das linhas do boletim, mostramos o preço por miligrama, e ordenamos por esse valor — do mais barato para o mais caro. Nunca por «mais popular» nem por «recomendado», que são ordenações que servem quem vende e não quem compra.
E não listamos um produto num país onde a categoria dele não tem enquadramento legal, mesmo quando seria possível vendê-lo. Essa regra vive num ficheiro de dados, não no código, precisamente para que mudar de opinião sobre um mercado seja uma linha editada e não um pedido a um programador.
O que o limite de quantificação é
O valor mais baixo mensurável com fiabilidade
Abaixo dele, o método já não distingue sinal de ruído.
Distinto do limite de detecção
Que é ainda mais baixo e apenas indica presença, sem quantificar.
Definido por método
E não pelo laboratório à sua vontade.
O que isso implica
Que dois laboratórios com métodos diferentes têm limites diferentes.
Porque isto é decisivo
Um resultado abaixo dele
Não significa ausência. Significa que não se conseguiu medir.
Como aparece no boletim
Como nota, ou como coluna própria com o valor.
O que se lê frequentemente
Uma menção de não detectado, sem o valor do limite.
O que isso deixa
Uma afirmação que não se pode interpretar.
O que muda com o limite
Um limite alto
Torna fácil reportar não detectado.
Um limite baixo
Torna difícil, e é sinal de método mais sensível.
O que isso permite
Comparar laboratórios pela exigência do método, e não apenas pelo resultado.
O que a maioria não publica
O próprio limite, que é a informação que tornaria a comparação possível.
Onde isto importa mais
No composto restrito
Onde a diferença entre não detectado e um valor baixo pode ser decisiva.
Nos contaminantes
Onde os limites regulamentares são baixos e o método tem de os acompanhar.
Nos solventes
Pela mesma razão.
Onde importa menos
No composto principal, cujos valores estão muito acima de qualquer limite.
Como se escolhe o método
Pela sensibilidade necessária
Que decorre do limite regulamentar aplicável.
Pela matriz
Porque medir num óleo não é o mesmo que medir em material vegetal.
Pela norma
Quando existe uma aplicável, que fixa procedimento.
O que isso implica
Que um método inadequado dá resultados válidos que não servem para o efeito.
A incerteza da medição
O que é
A margem dentro da qual o valor verdadeiro se situa.
Porque existe sempre
Nenhuma medição é exacta, e declarar a incerteza é boa prática.
Como aparece
Como um intervalo junto ao valor.
O que permite
Saber se um resultado está seguramente abaixo de um limite ou apenas aparentemente.
O caso do valor junto ao limite
Um valor ligeiramente abaixo
Com incerteza suficiente, pode estar acima.
O que a boa prática exige
Declarar a incerteza e considerá-la na decisão.
O que costuma acontecer
O valor é lido sozinho, como se fosse exacto.
O que isso pode produzir
Decisões de conformidade que a própria medição não sustenta.
Como isto se lê num boletim
Procurar o limite
Junto a cada parâmetro ou numa secção própria.
Procurar a incerteza
Que raramente aparece e devia.
Procurar o método
Que determina os dois anteriores.
Se nada disto constar
O boletim reporta números sem contexto, e os números sozinhos não decidem.
O que perguntar ao laboratório ou ao vendedor
Qual o limite
Para o parâmetro em causa.
Qual o método
E se está acreditado.
Qual a incerteza
Se for relevante para a decisão.
O que a resposta revela
Se do outro lado há competência analítica ou apenas um ficheiro.
O que fica por dizer
Se um limite baixo é sempre melhor
É mais exigente. Melhor depende do que se precisa demonstrar.
Porque tantos boletins o omitem
Porque não é exigido e porque complica a leitura.
O que o produto faz
Não existe alegação autorizada na União que o permita descrever.
O que recomendamos
Nunca ler um não detectado sem procurar o limite que lhe corresponde.
O que a incerteza faz à conformidade
Um valor sozinho não decide
Porque tem margem, e a margem pode atravessar o limite.
O que a boa prática exige
Declarar a incerteza e considerá-la ao concluir sobre conformidade.
O que costuma acontecer
O valor é lido como exacto e a conclusão sai sem margem.
Onde isso pesa mais
Em produtos com valores próximos do limite, que são precisamente os mais comuns.
Como se pede um boletim completo
Indicando os parâmetros
Que interessam ao caso, e não um painel genérico.
Pedindo limites e método
Explicitamente, porque nem sempre vêm.
Pedindo a incerteza
Quando o valor está perto de um limite.
O que isso custa
Nada a quem pergunta, e é a razão pela qual vale sempre a pena.
O que se pergunta quando o valor está perto do limite
O limite de quantificação
Que diz o que o valor significa.
A incerteza
Que diz se a margem atravessa o limite.
O método
Que determina os dois anteriores.
O que fazer com a resposta
Se nenhuma destas informações existir, o valor não sustenta a conclusão que dele se tira.
Quando o limite decide
Em valores próximos de um limite regulamentar
Onde a diferença entre conforme e não conforme se joga na sensibilidade do método.
Em declarações de ausência
Onde não detectado só significa alguma coisa se o limite for conhecido.
Em comparações entre laboratórios
Onde métodos com limites diferentes produzem conclusões diferentes.
O que isso exige
Que o limite seja publicado junto do valor, sempre.
Perguntas frequentes
Um LOQ mais baixo é sempre melhor?
Para efeitos de verificação, sim: vê mais. Custa mais e nem sempre é necessário — para confirmar que um produto está abaixo de 0,3%, um LOQ de 0,05% chega perfeitamente.
Porque é que dois laboratórios dão valores diferentes?
Métodos diferentes, preparação de amostra diferente, e incerteza de medição. Diferenças pequenas são normais e esperadas; diferenças grandes merecem uma pergunta.
O que é uma «matriz» num boletim?
O material em que a substância está — óleo, matéria vegetal, creme. Um método validado para uma matriz pode não estar validado para outra, e a acreditação é por matriz e método, não em geral.
Se o boletim não declara o LOQ, é mau?
É menos informativo. Não invalida o resultado, mas impede-te de saber onde acaba a certeza dele.
Isto aplica-se também aos terpenos?
Aplica-se a qualquer análise quantitativa. Nos terpenos a questão é ainda mais visível, porque muitos aparecem em concentrações baixas e perto dos limites do método.