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O factor 0,877, e porque é que a soma directa está errada

Redação cbdlovers 15 min

A planta de cânhamo não produz canabidiol. Produz ácido canabidiólico — CBDA — e é o calor, o tempo ou o processamento que o converte em CBD.

Esta distinção parece académica e não é: decide o número que aparece no rótulo, decide se um produto está dentro ou fora do limite legal de THC, e é a origem do erro de cálculo mais comum em descrições de loja — um erro que é sempre a favor de quem vende.

O que a planta faz mesmo

A via biossintética, em três passos

A planta começa pelo ácido olivetólico e pelo pirofosfato de geranilo. Da junção dos dois resulta o CBGA — ácido canabigerólico, a molécula-mãe de que tudo o resto deriva.

Depois, três enzimas competem pelo mesmo CBGA:

Qual delas domina é uma questão de genética. É por isso que existem variedades de cânhamo com muito CBDA e pouco THCA, e variedades de canábis com o inverso: não é o mesmo composto em quantidades diferentes, são enzimas diferentes a competir pelo mesmo substrato.

O que sobra de CBGA

Numa planta madura, quase nada. O CBGA é consumido pelas sintases à medida que é produzido, e por isso o CBG aparece nos boletins em quantidades pequenas — tipicamente abaixo de 1%.

A descarboxilação, em linguagem simples

O que acontece à molécula

O CBDA tem um grupo carboxilo — um átomo de carbono ligado a dois oxigénios — pendurado no anel. Com energia suficiente, esse grupo desprende-se e sai como dióxido de carbono.

O que fica é CBD.

CBDA → CBD + CO₂

O que fornece a energia

Calor, sobretudo. Também acontece lentamente à temperatura ambiente, ao longo de meses, e mais depressa com luz.

As temperaturas envolvidas

A conversão começa a ser mensurável bem abaixo dos 100 °C e acelera com a temperatura. Na prática industrial usam-se patamares na ordem dos 100 °C a 140 °C durante períodos que vão de minutos a horas — e o compromisso é sempre o mesmo: mais calor converte mais depressa e destrói mais terpenos.

Porque é que isso importa a quem compra

Porque um extracto feito com descarboxilação agressiva tem mais CBD e menos aroma. Um feito com descarboxilação suave, ou nenhuma, tem mais CBDA e mais perfil.

Nenhum dos dois é melhor em abstracto. São produtos diferentes, e o boletim mostra-o.

O factor 0,877

De onde vem o número

Da razão entre as massas moleculares. O CBDA tem massa molar de aproximadamente 358,5 g/mol; o CBD, 314,5 g/mol. A diferença, cerca de 44 g/mol, é exactamente a massa de uma molécula de CBD que se perde como dióxido de carbono.

314,5 ÷ 358,5 ≈ 0,877

O que isso significa na prática

Um miligrama de CBDA não dá um miligrama de CBD. Dá 0,877 miligramas. Os restantes 12,3% saem como gás.

A fórmula do CBD total

CBD total = CBD + (CBDA × 0,877)

E a do THC total

Exactamente a mesma lógica, com as mesmas massas relativas:

THC total = delta-9-THC + (THCA × 0,877)

O erro que se encontra em quase todas as lojas

A soma directa

Muitas descrições de produto somam CBD e CBDA sem aplicar o factor. Um extracto com 7% de CBD e 3% de CBDA é anunciado como «10%».

Quanto é que isso sobrestima

A conta correcta dá 7 + (3 × 0,877) = 9,63%. A diferença é de 0,37 pontos percentuais, ou cerca de 3,7% do valor anunciado — e cresce à medida que a fracção ácida aumenta.

Num produto pouco descarboxilado, com 2% de CBD e 8% de CBDA, a soma directa dá 10% e a conta certa dá 9,02%. Aí o desvio já é de 10%.

Porque é que é sempre para cima

Porque o factor é menor do que um. Somar sem o aplicar produz sempre um número maior do que o real. Não implica má-fé — implica que a conta não foi feita —, mas o erro nunca prejudica quem vende.

Onde isto deixa de ser aritmética e passa a ser lei

O limite português

A Portaria n.º 64/2023 fixou em 0,3% o limite aplicável ao cânhamo industrial em Portugal, alinhando com o limite europeu para as variedades elegíveis.

O que o limite mede

Aqui está a parte que muitas lojas ignoram: o valor relevante é o THC total, não apenas o delta-9. Um produto pode declarar delta-9 baixo e THCA alto e, depois de aplicado o factor, estar acima do limite.

Um exemplo

Um extracto com delta-9 a 0,08% e THCA a 0,30%:

THC total = 0,08 + (0,30 × 0,877) = 0,08 + 0,263 = 0,343%

Está acima de 0,3%, apesar de o delta-9 parecer confortavelmente baixo.

O que perguntar

Se um boletim só declara delta-9 e não separa o THCA, não permite fazer a conta. É uma pergunta legítima a fazer à loja antes de comprar.

Como ler isto num boletim real

As linhas que interessam

Um boletim decente tem linhas separadas para CBD, CBDA, delta-9-THC e THCA. Alguns já fazem a conta por ti e apresentam uma linha «Total CBD» e «Total THC» — mas vale a pena confirmar que usaram o factor.

Como confirmar

Pega nos valores individuais e faz a conta. Se o total apresentado for a soma directa, o boletim está a somar mal — o que é raro em laboratórios acreditados segundo a ISO/IEC 17025, e comum em documentos montados por quem vende.

As unidades

Os boletins alternam entre percentagem em massa e miligramas por grama. 1% = 10 mg/g. Converter antes de comparar evita erros de uma ordem de grandeza.

O que muda entre formatos

Óleos e extractos

Quase sempre descarboxilados, porque o processo de extracção envolve calor. A fracção de CBDA que resta varia com o método.

Flor

Não descarboxilada. Uma flor analisada em fresco mostra sobretudo CBDA, com pouco CBD. É por isso que os boletins de flor têm números que parecem estranhos a quem só viu boletins de óleo.

Produtos prensados a frio

Retêm mais fracção ácida, porque nunca passaram por calor significativo.

Isolados

Só CBD, tipicamente acima de 98%. Não há fracção ácida para converter, e o factor é irrelevante.

Uma nota sobre o CBDA em si

O ácido canabidiólico é uma molécula distinta do CBD, com propriedades químicas próprias — é mais polar, menos estável ao calor, e comporta-se de forma diferente em solução.

O que isso significa para quem compra é simples: um produto rico em CBDA não é «CBD por converter». É outro produto, com outro perfil analítico, e o boletim descreve-o como tal.

Uma tabela de conversão rápida

CBDA declaradoContribui para o CBD total
1%0,877%
2%1,754%
3%2,631%
5%4,385%
8%7,016%
10%8,770%

E para o THC, exactamente a mesma coluna — o factor não muda com a molécula, porque a massa que se perde é sempre a mesma.

Como isto se cruza com o resto do site

O boletim de análise explica o documento onde estes números vivem. Porque é que dois produtos iguais diferem explica o que mais separa duas embalagens com a mesma percentagem. E o preço por miligrama só funciona se o total de miligramas estiver calculado correctamente — que é exactamente o que esta página resolve.

Como se mede isto, na prática de laboratório

O problema do calor no próprio método

Há uma ironia técnica no meio disto: alguns métodos analíticos usam calor, e o calor descarboxila. Uma análise por cromatografia gasosa injecta a amostra a temperaturas altas, e nessa injecção parte do CBDA converte-se em CBD dentro do próprio instrumento.

O resultado é que uma amostra rica em fracção ácida analisada por cromatografia gasosa aparece com mais CBD e menos CBDA do que realmente tem.

Porque é que a cromatografia líquida resolve

A cromatografia líquida de alta eficiência trabalha a temperaturas próximas da ambiente. Separa CBDA e CBD como compostos distintos, sem os converter durante a medição.

É por isso que os boletins sérios de matéria-prima e de extractos pouco descarboxilados usam cromatografia líquida, e é uma das coisas que vale a pena procurar na nota de método.

Como isso aparece no boletim

Procura a menção ao método. HPLC ou UHPLC indicam cromatografia líquida; GC indica gasosa. Ambos são legítimos e servem para coisas diferentes.

O que perguntar quando os números não batem

Se dois boletins do mesmo produto dão fracções ácidas muito diferentes, a explicação mais provável não é fraude — é método diferente.

Um erro comum na leitura de boletins de flor

Os números parecem estranhos

Um boletim de flor fresca pode mostrar CBD a 0,4% e CBDA a 12%. À primeira vista parece um produto fraco.

A conta correcta

CBD total = 0,4 + (12 × 0,877) = 0,4 + 10,52 = 10,92%

Não é um produto fraco. É um produto não descarboxilado, que é o estado natural da flor.

A mesma armadilha no THC

Uma flor com delta-9 a 0,05% e THCA a 0,28% parece confortavelmente abaixo do limite se se olhar só para a primeira linha. A conta certa dá:

0,05 + (0,28 × 0,877) = 0,296%

Está dentro dos 0,3% por uma margem muito estreita, e qualquer variação de lote pode empurrá-la para fora.

Porque é que esta conta é a base de tudo o resto

O preço por miligrama depende do total de canabidiol. O enquadramento legal depende do total de THC. A comparação entre dois produtos depende de ambos.

Se a conta estiver errada — e a soma directa está sempre errada, sempre para cima —, tudo o que se construir por cima fica errado na mesma direcção.

É a razão pela qual este site calcula sempre o total a partir das linhas individuais do boletim, e nunca aceita um valor de «CBD total» apresentado por quem vende sem o verificar.

O que a reacção faz

Remove um grupo carboxilo

A molécula perde uma parte da sua estrutura e liberta dióxido de carbono.

O que resta

A forma neutra, com propriedades diferentes da forma ácida de partida.

O que a desencadeia

Calor, sobretudo. Também tempo, luz e certas condições de armazenamento.

Porque isto importa na medição

Porque a análise mede uma forma, a outra, ou a soma com um factor de conversão, e os três números são diferentes.

As duas formas na planta

A forma ácida

É a que a planta produz e a que predomina em material fresco.

A forma neutra

Aparece com a secagem, com o armazenamento e com qualquer aquecimento.

A proporção

Desloca-se ao longo do tempo, sem que nada se faça de propósito.

O que isso significa

Que o material muda de composição enquanto está guardado, e não apenas de aroma.

O que a temperatura decide

Baixa

A conversão é lenta e o material mantém a proporção inicial durante mais tempo.

Moderada

A conversão progride, e é a faixa em que os processos controlados trabalham.

Alta

A conversão é rápida e começa a haver degradação da própria molécula formada.

O que isso obriga

A escolher entre conversão completa e preservação, porque as duas não coexistem no mesmo ponto.

O tempo, que é a outra variável

A relação com a temperatura

Menos calor durante mais tempo dá resultado semelhante a mais calor durante menos tempo, até certo ponto.

Onde a equivalência falha

Nas fracções voláteis, que se perdem com o tempo em qualquer temperatura.

O que isso implica

Que um processo lento preserva menos aroma do que se supõe, apesar de usar menos calor.

O que ninguém publica

Curvas comparáveis entre condições, que permitiriam escolher com dados.

Como isto aparece no boletim

Valores separados

O melhor caso: a forma ácida e a neutra medidas em separado, com o método indicado.

Um valor total

Com um factor de conversão aplicado. É legítimo se estiver declarado.

Um valor só

Sem dizer qual. É o caso mais frequente e o menos útil.

Porque isto é decisivo

Porque a mesma amostra dá números muito diferentes conforme o que se conta.

O factor de conversão

O que é

Um coeficiente que ajusta a massa da forma ácida à massa que daria após conversão completa.

De onde vem

Da relação entre as massas moleculares das duas formas.

Quando se aplica

Ao calcular um total a partir das duas medições separadas.

O que se deve exigir

Que o boletim diga se o total já inclui essa conversão. Sem isso, o número não se interpreta.

O que a preparação da amostra faz ao resultado

Se houver aquecimento

A proporção medida deixa de ser a do material e passa a ser a do material aquecido.

Se não houver

Mede-se o estado em que o material estava.

Ambas são legítimas

Desde que o método esteja identificado.

O que não é legítimo

Comparar dois resultados obtidos com preparações diferentes como se fossem equivalentes.

Porque isto explica discrepâncias

Entre boletins

Dois laboratórios com métodos diferentes dão números diferentes para a mesma amostra.

Entre lotes

Material mais antigo tem proporção diferente, mesmo vindo do mesmo campo.

Entre declarado e medido

Se o rótulo usa um critério e a análise usa outro.

O que resolve

Ler o método no boletim. É a informação que transforma dois números incomparáveis em dois números comparáveis.

O que verificar num boletim

Se as duas formas aparecem

Separadamente, com valores próprios.

Se há total

E se o factor de conversão foi aplicado, declaradamente.

O método

Identificado, com referência à norma quando aplicável.

O lote e a data

Como sempre, porque ligam o documento ao objecto.

O que fica por resolver

A ausência de uniformidade

Laboratórios diferentes reportam de formas diferentes, sem obrigação de harmonizar.

A ausência de declaração do critério

Que impede comparar rótulos entre si.

A ausência de curvas publicadas

Que permitiriam escolher condições de processo com base em dados.

O que o produto faz

Não existe alegação autorizada na União que o permita descrever.

O limite refere-se a quê

Ao composto restrito, e a forma como o total é calculado consta do procedimento aplicável.

Porque isso é decisivo

Porque contar ou não a forma ácida, e com que factor, altera o valor face ao limite.

O que o procedimento oficial fixa

O método e a forma de cálculo, de modo a que resultados de laboratórios diferentes sejam comparáveis.

O que se deve verificar

Que o boletim indica o método usado, e não apenas o número final.

O que muda entre material fresco e seco

Fresco

Predomina a forma ácida, e o total calculado depende inteiramente do factor aplicado.

Seco

Já houve conversão parcial, em proporção que depende do modo de secagem.

Depois de meses

A conversão continuou, e a proporção voltou a mudar.

O que isso obriga

A ler a data do boletim, porque descreve um estado que já não é necessariamente o actual.

Perguntas frequentes

O factor 0,877 aplica-se a todos os canabinóides ácidos?

Aplica-se com boa aproximação a CBDA, THCA e CBGA, porque a massa perdida é sempre a de uma molécula de dióxido de carbono e as massas moleculares são próximas. Os valores exactos diferem na terceira casa decimal.

Um produto com muito CBDA está mal feito?

Não. Está pouco descarboxilado, o que pode ser uma escolha deliberada de processo. O que importa é que o rótulo e o boletim contem a mesma história.

Porque é que alguns rótulos dizem «CBD+CBDA»?

É a forma honesta de apresentar um produto com fracção ácida significativa, desde que o total esteja calculado com o factor. É preferível a apresentar só «CBD» quando metade é CBDA.

Se eu aquecer um óleo, aumento o CBD?

Converterás parte do CBDA que ainda lá esteja, e destruirás terpenos no processo. Não é uma operação que faça sentido em casa, e o resultado não é mensurável sem análise.

Onde é que o limite de 0,3% se aplica exactamente?

Ao material vegetal e aos produtos dele derivados, nos termos da Portaria n.º 64/2023. O enquadramento concreto varia com a categoria do produto, e é uma das razões pelas quais a mesma percentagem pode ter consequências diferentes consoante o formato.