O factor 0,877, e porque é que a soma directa está errada
A planta de cânhamo não produz canabidiol. Produz ácido canabidiólico — CBDA — e é o calor, o tempo ou o processamento que o converte em CBD.
Esta distinção parece académica e não é: decide o número que aparece no rótulo, decide se um produto está dentro ou fora do limite legal de THC, e é a origem do erro de cálculo mais comum em descrições de loja — um erro que é sempre a favor de quem vende.
O que a planta faz mesmo
A via biossintética, em três passos
A planta começa pelo ácido olivetólico e pelo pirofosfato de geranilo. Da junção dos dois resulta o CBGA — ácido canabigerólico, a molécula-mãe de que tudo o resto deriva.
Depois, três enzimas competem pelo mesmo CBGA:
- a CBDA sintase converte-o em CBDA
- a THCA sintase converte-o em THCA
- a CBCA sintase converte-o em CBCA
Qual delas domina é uma questão de genética. É por isso que existem variedades de cânhamo com muito CBDA e pouco THCA, e variedades de canábis com o inverso: não é o mesmo composto em quantidades diferentes, são enzimas diferentes a competir pelo mesmo substrato.
O que sobra de CBGA
Numa planta madura, quase nada. O CBGA é consumido pelas sintases à medida que é produzido, e por isso o CBG aparece nos boletins em quantidades pequenas — tipicamente abaixo de 1%.
A descarboxilação, em linguagem simples
O que acontece à molécula
O CBDA tem um grupo carboxilo — um átomo de carbono ligado a dois oxigénios — pendurado no anel. Com energia suficiente, esse grupo desprende-se e sai como dióxido de carbono.
O que fica é CBD.
CBDA → CBD + CO₂
O que fornece a energia
Calor, sobretudo. Também acontece lentamente à temperatura ambiente, ao longo de meses, e mais depressa com luz.
As temperaturas envolvidas
A conversão começa a ser mensurável bem abaixo dos 100 °C e acelera com a temperatura. Na prática industrial usam-se patamares na ordem dos 100 °C a 140 °C durante períodos que vão de minutos a horas — e o compromisso é sempre o mesmo: mais calor converte mais depressa e destrói mais terpenos.
Porque é que isso importa a quem compra
Porque um extracto feito com descarboxilação agressiva tem mais CBD e menos aroma. Um feito com descarboxilação suave, ou nenhuma, tem mais CBDA e mais perfil.
Nenhum dos dois é melhor em abstracto. São produtos diferentes, e o boletim mostra-o.
O factor 0,877
De onde vem o número
Da razão entre as massas moleculares. O CBDA tem massa molar de aproximadamente 358,5 g/mol; o CBD, 314,5 g/mol. A diferença, cerca de 44 g/mol, é exactamente a massa de uma molécula de CBD que se perde como dióxido de carbono.
314,5 ÷ 358,5 ≈ 0,877
O que isso significa na prática
Um miligrama de CBDA não dá um miligrama de CBD. Dá 0,877 miligramas. Os restantes 12,3% saem como gás.
A fórmula do CBD total
CBD total = CBD + (CBDA × 0,877)
E a do THC total
Exactamente a mesma lógica, com as mesmas massas relativas:
THC total = delta-9-THC + (THCA × 0,877)
O erro que se encontra em quase todas as lojas
A soma directa
Muitas descrições de produto somam CBD e CBDA sem aplicar o factor. Um extracto com 7% de CBD e 3% de CBDA é anunciado como «10%».
Quanto é que isso sobrestima
A conta correcta dá 7 + (3 × 0,877) = 9,63%. A diferença é de 0,37 pontos percentuais, ou cerca de 3,7% do valor anunciado — e cresce à medida que a fracção ácida aumenta.
Num produto pouco descarboxilado, com 2% de CBD e 8% de CBDA, a soma directa dá 10% e a conta certa dá 9,02%. Aí o desvio já é de 10%.
Porque é que é sempre para cima
Porque o factor é menor do que um. Somar sem o aplicar produz sempre um número maior do que o real. Não implica má-fé — implica que a conta não foi feita —, mas o erro nunca prejudica quem vende.
Onde isto deixa de ser aritmética e passa a ser lei
O limite português
A Portaria n.º 64/2023 fixou em 0,3% o limite aplicável ao cânhamo industrial em Portugal, alinhando com o limite europeu para as variedades elegíveis.
O que o limite mede
Aqui está a parte que muitas lojas ignoram: o valor relevante é o THC total, não apenas o delta-9. Um produto pode declarar delta-9 baixo e THCA alto e, depois de aplicado o factor, estar acima do limite.
Um exemplo
Um extracto com delta-9 a 0,08% e THCA a 0,30%:
THC total = 0,08 + (0,30 × 0,877) = 0,08 + 0,263 = 0,343%
Está acima de 0,3%, apesar de o delta-9 parecer confortavelmente baixo.
O que perguntar
Se um boletim só declara delta-9 e não separa o THCA, não permite fazer a conta. É uma pergunta legítima a fazer à loja antes de comprar.
Como ler isto num boletim real
As linhas que interessam
Um boletim decente tem linhas separadas para CBD, CBDA, delta-9-THC e THCA. Alguns já fazem a conta por ti e apresentam uma linha «Total CBD» e «Total THC» — mas vale a pena confirmar que usaram o factor.
Como confirmar
Pega nos valores individuais e faz a conta. Se o total apresentado for a soma directa, o boletim está a somar mal — o que é raro em laboratórios acreditados segundo a ISO/IEC 17025, e comum em documentos montados por quem vende.
As unidades
Os boletins alternam entre percentagem em massa e miligramas por grama. 1% = 10 mg/g. Converter antes de comparar evita erros de uma ordem de grandeza.
O que muda entre formatos
Óleos e extractos
Quase sempre descarboxilados, porque o processo de extracção envolve calor. A fracção de CBDA que resta varia com o método.
Flor
Não descarboxilada. Uma flor analisada em fresco mostra sobretudo CBDA, com pouco CBD. É por isso que os boletins de flor têm números que parecem estranhos a quem só viu boletins de óleo.
Produtos prensados a frio
Retêm mais fracção ácida, porque nunca passaram por calor significativo.
Isolados
Só CBD, tipicamente acima de 98%. Não há fracção ácida para converter, e o factor é irrelevante.
Uma nota sobre o CBDA em si
O ácido canabidiólico é uma molécula distinta do CBD, com propriedades químicas próprias — é mais polar, menos estável ao calor, e comporta-se de forma diferente em solução.
O que isso significa para quem compra é simples: um produto rico em CBDA não é «CBD por converter». É outro produto, com outro perfil analítico, e o boletim descreve-o como tal.
Uma tabela de conversão rápida
| CBDA declarado | Contribui para o CBD total |
|---|---|
| 1% | 0,877% |
| 2% | 1,754% |
| 3% | 2,631% |
| 5% | 4,385% |
| 8% | 7,016% |
| 10% | 8,770% |
E para o THC, exactamente a mesma coluna — o factor não muda com a molécula, porque a massa que se perde é sempre a mesma.
Como isto se cruza com o resto do site
O boletim de análise explica o documento onde estes números vivem. Porque é que dois produtos iguais diferem explica o que mais separa duas embalagens com a mesma percentagem. E o preço por miligrama só funciona se o total de miligramas estiver calculado correctamente — que é exactamente o que esta página resolve.
Como se mede isto, na prática de laboratório
O problema do calor no próprio método
Há uma ironia técnica no meio disto: alguns métodos analíticos usam calor, e o calor descarboxila. Uma análise por cromatografia gasosa injecta a amostra a temperaturas altas, e nessa injecção parte do CBDA converte-se em CBD dentro do próprio instrumento.
O resultado é que uma amostra rica em fracção ácida analisada por cromatografia gasosa aparece com mais CBD e menos CBDA do que realmente tem.
Porque é que a cromatografia líquida resolve
A cromatografia líquida de alta eficiência trabalha a temperaturas próximas da ambiente. Separa CBDA e CBD como compostos distintos, sem os converter durante a medição.
É por isso que os boletins sérios de matéria-prima e de extractos pouco descarboxilados usam cromatografia líquida, e é uma das coisas que vale a pena procurar na nota de método.
Como isso aparece no boletim
Procura a menção ao método. HPLC ou UHPLC indicam cromatografia líquida; GC indica gasosa.
Ambos são legítimos e servem para coisas diferentes.
O que perguntar quando os números não batem
Se dois boletins do mesmo produto dão fracções ácidas muito diferentes, a explicação mais provável não é fraude — é método diferente.
Um erro comum na leitura de boletins de flor
Os números parecem estranhos
Um boletim de flor fresca pode mostrar CBD a 0,4% e CBDA a 12%. À primeira vista parece um produto fraco.
A conta correcta
CBD total = 0,4 + (12 × 0,877) = 0,4 + 10,52 = 10,92%
Não é um produto fraco. É um produto não descarboxilado, que é o estado natural da flor.
A mesma armadilha no THC
Uma flor com delta-9 a 0,05% e THCA a 0,28% parece confortavelmente abaixo do limite se se olhar só para a primeira linha. A conta certa dá:
0,05 + (0,28 × 0,877) = 0,296%
Está dentro dos 0,3% por uma margem muito estreita, e qualquer variação de lote pode empurrá-la para fora.
Porque é que esta conta é a base de tudo o resto
O preço por miligrama depende do total de canabidiol. O enquadramento legal depende do total de THC. A comparação entre dois produtos depende de ambos.
Se a conta estiver errada — e a soma directa está sempre errada, sempre para cima —, tudo o que se construir por cima fica errado na mesma direcção.
É a razão pela qual este site calcula sempre o total a partir das linhas individuais do boletim, e nunca aceita um valor de «CBD total» apresentado por quem vende sem o verificar.
O que a reacção faz
Remove um grupo carboxilo
A molécula perde uma parte da sua estrutura e liberta dióxido de carbono.
O que resta
A forma neutra, com propriedades diferentes da forma ácida de partida.
O que a desencadeia
Calor, sobretudo. Também tempo, luz e certas condições de armazenamento.
Porque isto importa na medição
Porque a análise mede uma forma, a outra, ou a soma com um factor de conversão, e os três números são diferentes.
As duas formas na planta
A forma ácida
É a que a planta produz e a que predomina em material fresco.
A forma neutra
Aparece com a secagem, com o armazenamento e com qualquer aquecimento.
A proporção
Desloca-se ao longo do tempo, sem que nada se faça de propósito.
O que isso significa
Que o material muda de composição enquanto está guardado, e não apenas de aroma.
O que a temperatura decide
Baixa
A conversão é lenta e o material mantém a proporção inicial durante mais tempo.
Moderada
A conversão progride, e é a faixa em que os processos controlados trabalham.
Alta
A conversão é rápida e começa a haver degradação da própria molécula formada.
O que isso obriga
A escolher entre conversão completa e preservação, porque as duas não coexistem no mesmo ponto.
O tempo, que é a outra variável
A relação com a temperatura
Menos calor durante mais tempo dá resultado semelhante a mais calor durante menos tempo, até certo ponto.
Onde a equivalência falha
Nas fracções voláteis, que se perdem com o tempo em qualquer temperatura.
O que isso implica
Que um processo lento preserva menos aroma do que se supõe, apesar de usar menos calor.
O que ninguém publica
Curvas comparáveis entre condições, que permitiriam escolher com dados.
Como isto aparece no boletim
Valores separados
O melhor caso: a forma ácida e a neutra medidas em separado, com o método indicado.
Um valor total
Com um factor de conversão aplicado. É legítimo se estiver declarado.
Um valor só
Sem dizer qual. É o caso mais frequente e o menos útil.
Porque isto é decisivo
Porque a mesma amostra dá números muito diferentes conforme o que se conta.
O factor de conversão
O que é
Um coeficiente que ajusta a massa da forma ácida à massa que daria após conversão completa.
De onde vem
Da relação entre as massas moleculares das duas formas.
Quando se aplica
Ao calcular um total a partir das duas medições separadas.
O que se deve exigir
Que o boletim diga se o total já inclui essa conversão. Sem isso, o número não se interpreta.
O que a preparação da amostra faz ao resultado
Se houver aquecimento
A proporção medida deixa de ser a do material e passa a ser a do material aquecido.
Se não houver
Mede-se o estado em que o material estava.
Ambas são legítimas
Desde que o método esteja identificado.
O que não é legítimo
Comparar dois resultados obtidos com preparações diferentes como se fossem equivalentes.
Porque isto explica discrepâncias
Entre boletins
Dois laboratórios com métodos diferentes dão números diferentes para a mesma amostra.
Entre lotes
Material mais antigo tem proporção diferente, mesmo vindo do mesmo campo.
Entre declarado e medido
Se o rótulo usa um critério e a análise usa outro.
O que resolve
Ler o método no boletim. É a informação que transforma dois números incomparáveis em dois números comparáveis.
O que verificar num boletim
Se as duas formas aparecem
Separadamente, com valores próprios.
Se há total
E se o factor de conversão foi aplicado, declaradamente.
O método
Identificado, com referência à norma quando aplicável.
O lote e a data
Como sempre, porque ligam o documento ao objecto.
O que fica por resolver
A ausência de uniformidade
Laboratórios diferentes reportam de formas diferentes, sem obrigação de harmonizar.
A ausência de declaração do critério
Que impede comparar rótulos entre si.
A ausência de curvas publicadas
Que permitiriam escolher condições de processo com base em dados.
O que o produto faz
Não existe alegação autorizada na União que o permita descrever.
Como isto se cruza com o limite legal
O limite refere-se a quê
Ao composto restrito, e a forma como o total é calculado consta do procedimento aplicável.
Porque isso é decisivo
Porque contar ou não a forma ácida, e com que factor, altera o valor face ao limite.
O que o procedimento oficial fixa
O método e a forma de cálculo, de modo a que resultados de laboratórios diferentes sejam comparáveis.
O que se deve verificar
Que o boletim indica o método usado, e não apenas o número final.
O que muda entre material fresco e seco
Fresco
Predomina a forma ácida, e o total calculado depende inteiramente do factor aplicado.
Seco
Já houve conversão parcial, em proporção que depende do modo de secagem.
Depois de meses
A conversão continuou, e a proporção voltou a mudar.
O que isso obriga
A ler a data do boletim, porque descreve um estado que já não é necessariamente o actual.
Perguntas frequentes
O factor 0,877 aplica-se a todos os canabinóides ácidos?
Aplica-se com boa aproximação a CBDA, THCA e CBGA, porque a massa perdida é sempre a de uma molécula de dióxido de carbono e as massas moleculares são próximas. Os valores exactos diferem na terceira casa decimal.
Um produto com muito CBDA está mal feito?
Não. Está pouco descarboxilado, o que pode ser uma escolha deliberada de processo. O que importa é que o rótulo e o boletim contem a mesma história.
Porque é que alguns rótulos dizem «CBD+CBDA»?
É a forma honesta de apresentar um produto com fracção ácida significativa, desde que o total esteja calculado com o factor. É preferível a apresentar só «CBD» quando metade é CBDA.
Se eu aquecer um óleo, aumento o CBD?
Converterás parte do CBDA que ainda lá esteja, e destruirás terpenos no processo. Não é uma operação que faça sentido em casa, e o resultado não é mensurável sem análise.
Onde é que o limite de 0,3% se aplica exactamente?
Ao material vegetal e aos produtos dele derivados, nos termos da Portaria n.º 64/2023. O enquadramento concreto varia com a categoria do produto, e é uma das razões pelas quais a mesma percentagem pode ter consequências diferentes consoante o formato.