Dois produtos com a mesma percentagem são diferentes
Dois frascos dizem 10%. Um custa 25 €, o outro 60 €. A pergunta óbvia é se a diferença é margem ou é produto — e a resposta honesta é que, quase sempre, é as duas coisas em proporções que o rótulo não deixa ver.
A percentagem mede uma coisa: quanto canabidiol há na embalagem. Não mede o resto, e o resto é a maior parte do frasco.
Esta página explica as quatro variáveis que separam dois produtos nominalmente iguais, e como se verifica cada uma antes de comprar.
A percentagem só responde a metade da pergunta
O que ela diz
Um óleo a 10% num frasco de 10 ml contém cerca de 1000 mg de canabidiol. Isso é aritmética simples, e é verificável no boletim de análise.
O que ela não diz
Não diz que forma de canabidiol. Não diz o que mais lá está dentro. Não diz em que está dissolvido. Não diz como foi extraído. E não diz há quanto tempo.
O erro de comparação mais comum
Comparar dois frascos pela percentagem é como comparar dois vinhos pelo teor alcoólico. O número está certo e não descreve o produto.
Variável 1: o espectro
É a diferença de maior peso, e é a que mais lojas escondem atrás de palavras vagas.
Isolado
Canabidiol purificado, tipicamente acima de 98%. Nada mais da planta. É um pó branco cristalino dissolvido num óleo qualquer. É o mais barato de produzir e o mais fácil de dosear com precisão.
Espectro largo
Contém os outros canabinóides e terpenos da planta, mas com o THC removido num passo adicional. Esse passo custa dinheiro e remove também parte do resto.
Espectro completo
Contém o perfil da planta como saiu da extracção, incluindo THC dentro do limite legal. Em Portugal esse limite está fixado em 0,3% pela Portaria n.º 64/2023.
Como distinguir sem confiar no rótulo
Olha para a tabela de canabinóides do boletim. Um isolado tem uma linha com valor e todas as outras a zero. Um espectro completo tem CBG, CBN, CBC e THC com valores mensuráveis. Se o rótulo diz «full spectrum» e o boletim mostra uma única linha, o rótulo e o documento discordam.
Variável 2: os terpenos
O que são
Os compostos voláteis responsáveis pelo aroma. Não são exclusivos da canábis — o limoneno está nos citrinos, o pineno nas coníferas, o linalol na lavanda.
Porque é que dois extractos têm perfis diferentes
Genética da planta, momento da colheita, método de secagem e método de extracção. Cada um destes passos pode preservar ou destruir a fracção volátil, e as diferenças acumulam-se.
O que aparece no boletim
Poucos boletins portugueses incluem perfil de terpenos, porque é uma análise separada e cara. Quando aparece, é sinal de que o produtor investiu em caracterizar o produto e não apenas em cumprir o mínimo.
O que isso significa na comparação
Dois óleos com o mesmo CBD total e perfis de terpenos diferentes são produtos diferentes em tudo menos no número da frente do rótulo.
Variável 3: o óleo portador
O canabidiol é lipossolúvel. Tem de estar dissolvido em gordura, e a gordura escolhida não é neutra.
MCT de coco
Triglicéridos de cadeia média. Fluido, praticamente sem sabor, e o mais usado. Estável e barato.
Azeite
Sabor pronunciado, mais viscoso. Contém os seus próprios compostos, incluindo polifenóis.
Óleo de sementes de cânhamo
Escolhido sobretudo por coerência de marca. Tem um perfil de ácidos gordos próprio e é mais sensível à oxidação — o que encurta a validade.
O que muda na prática
O portador afecta sabor, viscosidade, estabilidade e prazo de validade. Um rótulo que não o declara está a omitir um dos dois ingredientes principais.
Variável 4: o método de extracção
CO₂ supercrítico
Usa dióxido de carbono acima do seu ponto crítico — 31,1 °C e 73,8 bar — como solvente. É caro em equipamento e não deixa resíduo problemático, porque o CO₂ evapora.
Etanol
Eficiente e mais acessível. Feito a frio, arrasta menos clorofila e ceras.
Hidrocarbonetos
Butano ou propano. Muito eficiente na extracção da fracção aromática, e é o método que mais exige painel de solventes residuais no boletim.
Prensagem mecânica
Sem solvente nenhum. Rendimento menor, e por isso preço maior por miligrama.
Como isto se vê no produto
Cor, viscosidade e sabor. Um extracto de espectro completo obtido a etanol tende a ser mais escuro e mais amargo do que um obtido por CO₂ e depois filtrado.
A quinta variável que ninguém conta: o tempo
Os canabinóides degradam-se
O CBD converte-se lentamente noutros compostos. O THC oxida em CBN. Luz, calor e oxigénio aceleram todos estes processos.
O que isso faz a uma comparação
Um frasco analisado há dois meses e um analisado há dois anos podem ter a mesma percentagem escrita e conteúdos reais diferentes. A data do boletim é parte da especificação, não um detalhe administrativo.
Como comparar dois produtos a sério
Passo 1: converte tudo a €/mg
Preço a dividir pelo total de miligramas de CBD. É a única comparação que não é opinião.
Um frasco de 30 ml a 10% por 90 € custa 0,030 €/mg. Um de 10 ml a 5% por 30 € custa 0,060 €/mg — o dobro, e parece mais barato na prateleira.
Passo 2: confirma o espectro no boletim
Não no rótulo. Na tabela de canabinóides.
Passo 3: identifica o portador
Se não estiver declarado, é uma pergunta a fazer antes de comprar.
Passo 4: procura o painel de solventes
Sobretudo se o produto é um extracto e não um prensado.
Passo 5: verifica a data
Do boletim e do lote.
O que justifica legitimamente uma diferença de preço
Nem toda a diferença é margem. Estas coisas custam mesmo dinheiro:
- Análise completa por lote num laboratório acreditado, com os quatro painéis
- Espectro completo bem preservado, que exige processo mais cuidadoso
- Perfil de terpenos analisado e declarado
- Matéria-prima rastreável, com origem identificada
- Volumes pequenos, que não diluem custos fixos
E estas não:
- Embalagem elaborada
- Um rótulo com mais adjectivos
- A palavra «premium» sem nada por trás dela
Um exercício com números reais
Imagina dois óleos anunciados como «10%», ambos de 10 ml, ambos a 40 €.
Produto A
Boletim mostra CBD 8,2%, CBDA 2,1%, tudo o resto abaixo do limite de quantificação. Portador declarado: MCT. Sem painel de terpenos. Três painéis de contaminantes.
CBD total: 8,2 + (2,1 × 0,877) = 10,04%, ou seja ~1004 mg. O rótulo está correcto. Espectro: com tudo o resto a zero, é um isolado, apesar do que a embalagem possa sugerir. €/mg: 0,0398.
Produto B
Boletim mostra CBD 7,4%, CBDA 1,9%, CBG 0,31%, CBC 0,12%, CBN 0,04%, THC total 0,18%. Portador: azeite. Painel de terpenos presente. Cinco painéis de contaminantes, incluindo solventes.
CBD total: 7,4 + (1,9 × 0,877) = 9,07%, ou seja ~907 mg. O rótulo arredonda para cima. Espectro: com canabinóides menores e THC mensurável, é espectro completo. €/mg: 0,0441.
A leitura
O produto A tem mais canabidiol e é mais barato por miligrama. O produto B tem menos canabidiol, custa 11% mais por miligrama, e traz o perfil da planta, análise de terpenos e dois painéis adicionais.
Não há resposta certa. Há duas coisas diferentes ao mesmo preço de etiqueta, e a escolha depende do que se procura. O que não se deve fazer é escolher às cegas achando que são o mesmo produto.
O que a embalagem tem obrigação de dizer
Varia com a categoria em que o produto é enquadrado, e essa é uma das razões pelas quais o mesmo tipo de frasco pode ter rótulos muito diferentes.
Num cosmético
O Regulamento (CE) n.º 1223/2009 exige lista de ingredientes em nomenclatura INCI, identificação do responsável, lote e prazo. É o quadro mais exigente dos que se aplicam na prática.
Num produto enquadrado como alimento
Aplicam-se as regras de informação ao consumidor, com lista de ingredientes, alergénios e identificação do operador. Note-se que, na União Europeia, os extractos de canabinóides são tratados como novo alimento ao abrigo do Regulamento (UE) 2015/2283, e não há autorizações concedidas.
O que resulta disto
Muitos produtos são vendidos com rotulagem mínima e enquadramento ambíguo. Nesses casos, o boletim é a única fonte de informação sobre a composição.
O que fazer com esta informação
A conclusão prática não é «compra o mais caro» nem «compra o mais barato». É saber o que estás a comparar antes de comparar.
Dois produtos com a mesma percentagem podem diferir no espectro, no perfil de terpenos, no óleo portador, no método de extracção e na idade. Cinco variáveis, e o rótulo declara no máximo duas.
O boletim declara três ou quatro. A loja, se lhe perguntares, declara o resto.
Onde isto se cruza com o resto do site
Esta página faz parte de um conjunto que se lê melhor em conjunto do que isolado. O boletim de análise explica o documento; o número de lote explica o que o liga ao teu frasco; porque é que dois produtos iguais diferem explica o que separa duas embalagens com a mesma percentagem; e o que o preço mede explica para onde vai o dinheiro.
Nenhuma delas fala de efeitos, e a omissão é deliberada. Não existe na União Europeia uma única alegação de saúde autorizada para o canabidiol, e um site que quer ser útil a longo prazo não constrói a sua credibilidade sobre afirmações que a lei não permite. O que se pode publicar com segurança — e o que quase ninguém publica — é o como se verifica.
O que a mistura de lotes provoca
Uniformiza
Aproximando lotes sucessivos entre si.
Esconde
A variação que existia entre as origens.
Complica a rastreabilidade
Porque o resultado deixa de ter uma origem única.
O que devia constar
Que houve mistura, e de quantas origens. Nunca consta.
Onde a diferença entre lotes se nota primeiro
No aroma
Que é o mais sensível e o menos medido.
Na cor
Que varia com a origem e com a idade.
No teor
Que se mede, e é onde a diferença se confirma.
No que não se nota
Contaminantes, que exigem painel para aparecer.
O que faz dois produtos idênticos diferirem
A origem do material
Variedade, região e ano.
O processamento
Método, temperatura e número de passos.
A idade
Que actua sobre tudo o que é volátil.
A conservação
Que pode desfazer em semanas o que a produção fez bem.
Porque o rótulo não explica nada disto
Não é obrigado
Nenhuma norma exige declarar origem, processo ou data de produção.
Não interessa comercialmente
Porque a variação é o que o vendedor prefere não discutir.
O comprador não pergunta
E enquanto não perguntar, não muda.
O que resolve
O boletim por lote, guardado e comparado.
O que muda entre lotes que parecem iguais
A origem do material
Variedade, região e ano de colheita.
O processamento
Método, temperatura e número de passos.
A idade
Que actua sobre tudo o que é volátil.
A conservação
Que pode desfazer em semanas o que a produção fez bem.
Porque o rótulo não distingue
Não é obrigado
Nenhuma norma exige declarar origem, processo ou data de produção.
Não interessa comercialmente
Porque a variação é o que o vendedor prefere não discutir.
O comprador não pergunta
E enquanto não perguntar, não muda.
O que resolve
O boletim por lote, guardado e comparado.
O que a mistura de origens provoca
Uniformiza
Aproximando lotes sucessivos entre si.
Esconde a variação
Que existia entre as origens.
Complica a rastreabilidade
Porque o resultado deixa de ter origem única.
O que devia constar
Que houve mistura. Nunca consta.
Onde a diferença se nota primeiro
No aroma
Que é o mais sensível e o menos medido.
Na cor
Que varia com origem e idade.
No teor
Que se mede e confirma.
No que não se nota
Contaminantes, que exigem painel.
O papel da sazonalidade
Uma colheita por ano em exterior
Que fixa a origem de todo o material desse período.
Várias em interior
Que permitem lotes mais frequentes.
O que isso produz
Variação anual em material de exterior e mensal em material de interior.
O que verificar
A data de colheita, que situa o lote no ciclo.
O papel do fornecedor
Muda
Com frequência, sobretudo em casas que não produzem.
Não se declara
Quase nunca.
Nota-se
Nos painéis e no perfil, se houver histórico para comparar.
O que isso implica
Que a marca não garante continuidade do material.
Como construir um histórico
Guardar boletins
Por lote, com a data de compra.
Comparar
Teor, painéis e datas entre compras sucessivas.
Anotar impressões
Aroma, aspecto e comportamento.
O que isso permite
Detectar mudanças que nenhum rótulo declara.
O que uma casa constante faz
Mede cada lote
E publica.
Mistura para uniformizar
E regista o que misturou.
Mantém fornecedores
Ou declara quando muda.
O que isso produz
Boletins que se parecem entre si ao longo do tempo, que é o sinal mais forte que existe.
O que perguntar quando um lote parece diferente
Se mudou a origem
Pergunta directa.
Se mudou o processo
Idem.
Qual a data de colheita
Que pode explicar sozinha a diferença.
O que a resposta revela
Se a casa sabe o que vende ou se apenas revende.
O que fica por dizer
Se a variação é evitável
Em parte. Custa trabalho e ninguém a exige.
Se um lote diferente é pior
Não necessariamente. É diferente, e a diferença devia ser declarada.
O que o produto faz
Não existe alegação autorizada na União que o permita descrever.
O que recomendamos
Guardar boletins e comparar. É a única auditoria disponível a quem compra.
O que a comparação entre lotes revela ao fim de um ano
Se a casa mudou de fornecedor
Nota-se nos painéis antes de se notar no aroma.
Se o processo mudou
Nota-se no perfil de compostos e na textura.
Se a qualidade desceu
Nota-se no teor e na cobertura dos painéis.
O que isso vale
Mais do que qualquer classificação, porque é medido e é sobre o que se comprou.
O que se aprende ao comparar lotes ao longo de um ano
A amplitude normal
Quanto o teor varia entre lotes de uma casa que trabalha bem.
O que é ruído e o que é sinal
Uma variação pequena é normal; uma descida sistemática não é.
Quando o fornecedor mudou
Nota-se nos painéis, que passam a ter substâncias diferentes ou coberturas diferentes.
Porque isto vale mais do que qualquer classificação
Porque é medido, é sobre o que se comprou, e ninguém o faz por quem compra.
O que se guarda para construir histórico
O boletim de cada lote
Descarregado, com o nome do lote no ficheiro.
A prova de compra
Que liga produto, data e vendedor.
Uma nota curta
Aroma, aspecto e qualquer coisa que tenha chamado a atenção.
Quanto tempo leva
Dois minutos por compra, e é o único registo que alguém fará sobre este assunto.
Perguntas frequentes
Espectro completo é melhor do que isolado?
São coisas diferentes com finalidades diferentes. O isolado permite dosear com precisão e não contém THC; o espectro completo mantém o perfil da planta. Qual serve depende do que se procura — e num mercado onde o THC tem limite legal, a escolha tem também uma componente jurídica.
Porque é que o mesmo produto sabe diferente entre lotes?
Porque a matéria-prima varia. Duas colheitas da mesma variedade não são idênticas, e o perfil de terpenos é a parte que mais varia.
Um óleo mais escuro é melhor?
Não. A cor depende do método e da filtragem, não da qualidade. Um extracto muito escuro pode significar mais clorofila arrastada, o que é o contrário de uma virtude.
Se o boletim não tem terpenos, o produto não os tem?
Não se pode concluir isso. Significa que não foram medidos. A ausência de uma análise não é a ausência da substância — é a ausência de informação.
Vale a pena pagar o dobro?
Vale a pena pagar o que corresponder a algo verificável. Se as duas embalagens tiverem o mesmo espectro, o mesmo portador, painéis completos e o mesmo €/mg, a diferença é marca. Se uma delas tiver análise de terpenos, quatro painéis e origem declarada e a outra não, estás a comparar duas coisas diferentes.