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Dois produtos com a mesma percentagem são diferentes

Redação cbdlovers 15 min

Dois frascos dizem 10%. Um custa 25 €, o outro 60 €. A pergunta óbvia é se a diferença é margem ou é produto — e a resposta honesta é que, quase sempre, é as duas coisas em proporções que o rótulo não deixa ver.

A percentagem mede uma coisa: quanto canabidiol há na embalagem. Não mede o resto, e o resto é a maior parte do frasco.

Esta página explica as quatro variáveis que separam dois produtos nominalmente iguais, e como se verifica cada uma antes de comprar.

A percentagem só responde a metade da pergunta

O que ela diz

Um óleo a 10% num frasco de 10 ml contém cerca de 1000 mg de canabidiol. Isso é aritmética simples, e é verificável no boletim de análise.

O que ela não diz

Não diz que forma de canabidiol. Não diz o que mais lá está dentro. Não diz em que está dissolvido. Não diz como foi extraído. E não diz há quanto tempo.

O erro de comparação mais comum

Comparar dois frascos pela percentagem é como comparar dois vinhos pelo teor alcoólico. O número está certo e não descreve o produto.

Variável 1: o espectro

É a diferença de maior peso, e é a que mais lojas escondem atrás de palavras vagas.

Isolado

Canabidiol purificado, tipicamente acima de 98%. Nada mais da planta. É um pó branco cristalino dissolvido num óleo qualquer. É o mais barato de produzir e o mais fácil de dosear com precisão.

Espectro largo

Contém os outros canabinóides e terpenos da planta, mas com o THC removido num passo adicional. Esse passo custa dinheiro e remove também parte do resto.

Espectro completo

Contém o perfil da planta como saiu da extracção, incluindo THC dentro do limite legal. Em Portugal esse limite está fixado em 0,3% pela Portaria n.º 64/2023.

Como distinguir sem confiar no rótulo

Olha para a tabela de canabinóides do boletim. Um isolado tem uma linha com valor e todas as outras a zero. Um espectro completo tem CBG, CBN, CBC e THC com valores mensuráveis. Se o rótulo diz «full spectrum» e o boletim mostra uma única linha, o rótulo e o documento discordam.

Variável 2: os terpenos

O que são

Os compostos voláteis responsáveis pelo aroma. Não são exclusivos da canábis — o limoneno está nos citrinos, o pineno nas coníferas, o linalol na lavanda.

Porque é que dois extractos têm perfis diferentes

Genética da planta, momento da colheita, método de secagem e método de extracção. Cada um destes passos pode preservar ou destruir a fracção volátil, e as diferenças acumulam-se.

O que aparece no boletim

Poucos boletins portugueses incluem perfil de terpenos, porque é uma análise separada e cara. Quando aparece, é sinal de que o produtor investiu em caracterizar o produto e não apenas em cumprir o mínimo.

O que isso significa na comparação

Dois óleos com o mesmo CBD total e perfis de terpenos diferentes são produtos diferentes em tudo menos no número da frente do rótulo.

Variável 3: o óleo portador

O canabidiol é lipossolúvel. Tem de estar dissolvido em gordura, e a gordura escolhida não é neutra.

MCT de coco

Triglicéridos de cadeia média. Fluido, praticamente sem sabor, e o mais usado. Estável e barato.

Azeite

Sabor pronunciado, mais viscoso. Contém os seus próprios compostos, incluindo polifenóis.

Óleo de sementes de cânhamo

Escolhido sobretudo por coerência de marca. Tem um perfil de ácidos gordos próprio e é mais sensível à oxidação — o que encurta a validade.

O que muda na prática

O portador afecta sabor, viscosidade, estabilidade e prazo de validade. Um rótulo que não o declara está a omitir um dos dois ingredientes principais.

Variável 4: o método de extracção

CO₂ supercrítico

Usa dióxido de carbono acima do seu ponto crítico — 31,1 °C e 73,8 bar — como solvente. É caro em equipamento e não deixa resíduo problemático, porque o CO₂ evapora.

Etanol

Eficiente e mais acessível. Feito a frio, arrasta menos clorofila e ceras.

Hidrocarbonetos

Butano ou propano. Muito eficiente na extracção da fracção aromática, e é o método que mais exige painel de solventes residuais no boletim.

Prensagem mecânica

Sem solvente nenhum. Rendimento menor, e por isso preço maior por miligrama.

Como isto se vê no produto

Cor, viscosidade e sabor. Um extracto de espectro completo obtido a etanol tende a ser mais escuro e mais amargo do que um obtido por CO₂ e depois filtrado.

A quinta variável que ninguém conta: o tempo

Os canabinóides degradam-se

O CBD converte-se lentamente noutros compostos. O THC oxida em CBN. Luz, calor e oxigénio aceleram todos estes processos.

O que isso faz a uma comparação

Um frasco analisado há dois meses e um analisado há dois anos podem ter a mesma percentagem escrita e conteúdos reais diferentes. A data do boletim é parte da especificação, não um detalhe administrativo.

Como comparar dois produtos a sério

Passo 1: converte tudo a €/mg

Preço a dividir pelo total de miligramas de CBD. É a única comparação que não é opinião.

Um frasco de 30 ml a 10% por 90 € custa 0,030 €/mg. Um de 10 ml a 5% por 30 € custa 0,060 €/mg — o dobro, e parece mais barato na prateleira.

Passo 2: confirma o espectro no boletim

Não no rótulo. Na tabela de canabinóides.

Passo 3: identifica o portador

Se não estiver declarado, é uma pergunta a fazer antes de comprar.

Passo 4: procura o painel de solventes

Sobretudo se o produto é um extracto e não um prensado.

Passo 5: verifica a data

Do boletim e do lote.

O que justifica legitimamente uma diferença de preço

Nem toda a diferença é margem. Estas coisas custam mesmo dinheiro:

E estas não:

Um exercício com números reais

Imagina dois óleos anunciados como «10%», ambos de 10 ml, ambos a 40 €.

Produto A

Boletim mostra CBD 8,2%, CBDA 2,1%, tudo o resto abaixo do limite de quantificação. Portador declarado: MCT. Sem painel de terpenos. Três painéis de contaminantes.

CBD total: 8,2 + (2,1 × 0,877) = 10,04%, ou seja ~1004 mg. O rótulo está correcto. Espectro: com tudo o resto a zero, é um isolado, apesar do que a embalagem possa sugerir. €/mg: 0,0398.

Produto B

Boletim mostra CBD 7,4%, CBDA 1,9%, CBG 0,31%, CBC 0,12%, CBN 0,04%, THC total 0,18%. Portador: azeite. Painel de terpenos presente. Cinco painéis de contaminantes, incluindo solventes.

CBD total: 7,4 + (1,9 × 0,877) = 9,07%, ou seja ~907 mg. O rótulo arredonda para cima. Espectro: com canabinóides menores e THC mensurável, é espectro completo. €/mg: 0,0441.

A leitura

O produto A tem mais canabidiol e é mais barato por miligrama. O produto B tem menos canabidiol, custa 11% mais por miligrama, e traz o perfil da planta, análise de terpenos e dois painéis adicionais.

Não há resposta certa. Há duas coisas diferentes ao mesmo preço de etiqueta, e a escolha depende do que se procura. O que não se deve fazer é escolher às cegas achando que são o mesmo produto.

O que a embalagem tem obrigação de dizer

Varia com a categoria em que o produto é enquadrado, e essa é uma das razões pelas quais o mesmo tipo de frasco pode ter rótulos muito diferentes.

Num cosmético

O Regulamento (CE) n.º 1223/2009 exige lista de ingredientes em nomenclatura INCI, identificação do responsável, lote e prazo. É o quadro mais exigente dos que se aplicam na prática.

Num produto enquadrado como alimento

Aplicam-se as regras de informação ao consumidor, com lista de ingredientes, alergénios e identificação do operador. Note-se que, na União Europeia, os extractos de canabinóides são tratados como novo alimento ao abrigo do Regulamento (UE) 2015/2283, e não há autorizações concedidas.

O que resulta disto

Muitos produtos são vendidos com rotulagem mínima e enquadramento ambíguo. Nesses casos, o boletim é a única fonte de informação sobre a composição.

O que fazer com esta informação

A conclusão prática não é «compra o mais caro» nem «compra o mais barato». É saber o que estás a comparar antes de comparar.

Dois produtos com a mesma percentagem podem diferir no espectro, no perfil de terpenos, no óleo portador, no método de extracção e na idade. Cinco variáveis, e o rótulo declara no máximo duas.

O boletim declara três ou quatro. A loja, se lhe perguntares, declara o resto.

Onde isto se cruza com o resto do site

Esta página faz parte de um conjunto que se lê melhor em conjunto do que isolado. O boletim de análise explica o documento; o número de lote explica o que o liga ao teu frasco; porque é que dois produtos iguais diferem explica o que separa duas embalagens com a mesma percentagem; e o que o preço mede explica para onde vai o dinheiro.

Nenhuma delas fala de efeitos, e a omissão é deliberada. Não existe na União Europeia uma única alegação de saúde autorizada para o canabidiol, e um site que quer ser útil a longo prazo não constrói a sua credibilidade sobre afirmações que a lei não permite. O que se pode publicar com segurança — e o que quase ninguém publica — é o como se verifica.

O que a mistura de lotes provoca

Uniformiza

Aproximando lotes sucessivos entre si.

Esconde

A variação que existia entre as origens.

Complica a rastreabilidade

Porque o resultado deixa de ter uma origem única.

O que devia constar

Que houve mistura, e de quantas origens. Nunca consta.

Onde a diferença entre lotes se nota primeiro

No aroma

Que é o mais sensível e o menos medido.

Na cor

Que varia com a origem e com a idade.

No teor

Que se mede, e é onde a diferença se confirma.

No que não se nota

Contaminantes, que exigem painel para aparecer.

O que faz dois produtos idênticos diferirem

A origem do material

Variedade, região e ano.

O processamento

Método, temperatura e número de passos.

A idade

Que actua sobre tudo o que é volátil.

A conservação

Que pode desfazer em semanas o que a produção fez bem.

Porque o rótulo não explica nada disto

Não é obrigado

Nenhuma norma exige declarar origem, processo ou data de produção.

Não interessa comercialmente

Porque a variação é o que o vendedor prefere não discutir.

O comprador não pergunta

E enquanto não perguntar, não muda.

O que resolve

O boletim por lote, guardado e comparado.

O que muda entre lotes que parecem iguais

A origem do material

Variedade, região e ano de colheita.

O processamento

Método, temperatura e número de passos.

A idade

Que actua sobre tudo o que é volátil.

A conservação

Que pode desfazer em semanas o que a produção fez bem.

Porque o rótulo não distingue

Não é obrigado

Nenhuma norma exige declarar origem, processo ou data de produção.

Não interessa comercialmente

Porque a variação é o que o vendedor prefere não discutir.

O comprador não pergunta

E enquanto não perguntar, não muda.

O que resolve

O boletim por lote, guardado e comparado.

O que a mistura de origens provoca

Uniformiza

Aproximando lotes sucessivos entre si.

Esconde a variação

Que existia entre as origens.

Complica a rastreabilidade

Porque o resultado deixa de ter origem única.

O que devia constar

Que houve mistura. Nunca consta.

Onde a diferença se nota primeiro

No aroma

Que é o mais sensível e o menos medido.

Na cor

Que varia com origem e idade.

No teor

Que se mede e confirma.

No que não se nota

Contaminantes, que exigem painel.

O papel da sazonalidade

Uma colheita por ano em exterior

Que fixa a origem de todo o material desse período.

Várias em interior

Que permitem lotes mais frequentes.

O que isso produz

Variação anual em material de exterior e mensal em material de interior.

O que verificar

A data de colheita, que situa o lote no ciclo.

O papel do fornecedor

Muda

Com frequência, sobretudo em casas que não produzem.

Não se declara

Quase nunca.

Nota-se

Nos painéis e no perfil, se houver histórico para comparar.

O que isso implica

Que a marca não garante continuidade do material.

Como construir um histórico

Guardar boletins

Por lote, com a data de compra.

Comparar

Teor, painéis e datas entre compras sucessivas.

Anotar impressões

Aroma, aspecto e comportamento.

O que isso permite

Detectar mudanças que nenhum rótulo declara.

O que uma casa constante faz

Mede cada lote

E publica.

Mistura para uniformizar

E regista o que misturou.

Mantém fornecedores

Ou declara quando muda.

O que isso produz

Boletins que se parecem entre si ao longo do tempo, que é o sinal mais forte que existe.

O que perguntar quando um lote parece diferente

Se mudou a origem

Pergunta directa.

Se mudou o processo

Idem.

Qual a data de colheita

Que pode explicar sozinha a diferença.

O que a resposta revela

Se a casa sabe o que vende ou se apenas revende.

O que fica por dizer

Se a variação é evitável

Em parte. Custa trabalho e ninguém a exige.

Se um lote diferente é pior

Não necessariamente. É diferente, e a diferença devia ser declarada.

O que o produto faz

Não existe alegação autorizada na União que o permita descrever.

O que recomendamos

Guardar boletins e comparar. É a única auditoria disponível a quem compra.

O que a comparação entre lotes revela ao fim de um ano

Se a casa mudou de fornecedor

Nota-se nos painéis antes de se notar no aroma.

Se o processo mudou

Nota-se no perfil de compostos e na textura.

Se a qualidade desceu

Nota-se no teor e na cobertura dos painéis.

O que isso vale

Mais do que qualquer classificação, porque é medido e é sobre o que se comprou.

O que se aprende ao comparar lotes ao longo de um ano

A amplitude normal

Quanto o teor varia entre lotes de uma casa que trabalha bem.

O que é ruído e o que é sinal

Uma variação pequena é normal; uma descida sistemática não é.

Quando o fornecedor mudou

Nota-se nos painéis, que passam a ter substâncias diferentes ou coberturas diferentes.

Porque isto vale mais do que qualquer classificação

Porque é medido, é sobre o que se comprou, e ninguém o faz por quem compra.

O que se guarda para construir histórico

O boletim de cada lote

Descarregado, com o nome do lote no ficheiro.

A prova de compra

Que liga produto, data e vendedor.

Uma nota curta

Aroma, aspecto e qualquer coisa que tenha chamado a atenção.

Quanto tempo leva

Dois minutos por compra, e é o único registo que alguém fará sobre este assunto.

Perguntas frequentes

Espectro completo é melhor do que isolado?

São coisas diferentes com finalidades diferentes. O isolado permite dosear com precisão e não contém THC; o espectro completo mantém o perfil da planta. Qual serve depende do que se procura — e num mercado onde o THC tem limite legal, a escolha tem também uma componente jurídica.

Porque é que o mesmo produto sabe diferente entre lotes?

Porque a matéria-prima varia. Duas colheitas da mesma variedade não são idênticas, e o perfil de terpenos é a parte que mais varia.

Um óleo mais escuro é melhor?

Não. A cor depende do método e da filtragem, não da qualidade. Um extracto muito escuro pode significar mais clorofila arrastada, o que é o contrário de uma virtude.

Se o boletim não tem terpenos, o produto não os tem?

Não se pode concluir isso. Significa que não foram medidos. A ausência de uma análise não é a ausência da substância — é a ausência de informação.

Vale a pena pagar o dobro?

Vale a pena pagar o que corresponder a algo verificável. Se as duas embalagens tiverem o mesmo espectro, o mesmo portador, painéis completos e o mesmo €/mg, a diferença é marca. Se uma delas tiver análise de terpenos, quatro painéis e origem declarada e a outra não, estás a comparar duas coisas diferentes.