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O que a DGAV autoriza cultivar, e o que fica de fora

Redação cbdlovers 14 min

Portugal autoriza o cultivo de cânhamo industrial, e a autorização tem um perímetro exacto: fibra e semente. A inflorescência — a parte da planta onde estão os tricomas e, portanto, os canabinóides — não está lá.

Essa frase de uma linha explica quase tudo o que se passa no mercado português: porque é que os rótulos dizem «objeto de decoração», porque é que a ASAE apreende, e porque é que praticamente todo o CBD vendido em Portugal é importado.

O quadro, por camadas

A camada europeia

O cânhamo é uma cultura agrícola reconhecida. O Regulamento (UE) 2021/2115, que enquadra os planos estratégicos da Política Agrícola Comum, prevê apoio a variedades de cânhamo cujo teor de THC não exceda o limite fixado.

As variedades elegíveis constam do catálogo comum das variedades de espécies agrícolas, publicado pela Comissão Europeia.

A camada portuguesa

A Portaria n.º 64/2023 uniformizou o limite de THC em 0,3% e organizou as competências: o cânhamo industrial fica com a DGAV, e as preparações à base de canábis com o INFARMED.

A camada dos estupefacientes

O Decreto-Lei n.º 15/93 estabelece o regime jurídico do tráfico e consumo. É o quadro que se aplica quando um produto sai do perímetro agrícola.

E o ponto onde as camadas se encontram

A autorização de cultura descreve para que se cultiva. Sair desse âmbito não é uma tecnicalidade administrativa — é mudar de regime jurídico.

O que a autorização cobre

Fibra

O uso histórico e industrial da planta. Cordoaria, têxtil, materiais de construção, papel. É a razão pela qual o cânhamo foi cultivado em Portugal durante séculos.

Semente

Óleo alimentar, farinha, proteína, semente para alimentação animal. Um sector com mercado real e crescente, e completamente separado do CBD.

O que a semente não contém

Canabinóides. As sementes não têm tricomas, e por isso o óleo de sementes de cânhamo não contém canabidiol.

É a distinção que sustenta metade das confusões do mercado — e que resolve, do lado da cosmética, a diferença entre Cannabis Sativa Seed Oil e um extracto.

O que fica de fora

A inflorescência

A parte florida. É onde os tricomas se concentram e, portanto, onde estão os canabinóides e os terpenos.

Porque é que isso importa a toda a cadeia

Sem via de cultura autorizada para a inflorescência, não há origem doméstica legal para a matéria que sustenta o mercado de flor e de resina.

O material tem de vir de outro lado — e daí o padrão que se encontra em qualquer análise das lojas portuguesas: Itália, Espanha, França, Suíça.

E os extractos

Ficam abrangidos por outro problema, independente deste: na União Europeia os extractos de canabinóides são enquadrados como novo alimento, sem autorizações concedidas.

São duas restrições distintas que se somam — uma na origem, outra no destino.

O contraste que ninguém escreve

Portugal tem, segundo as listas publicadas pelo próprio INFARMED, dezenas de empresas licenciadas para actividades com canábis, várias com certificação EU-GMP.

É um dos maiores produtores licenciados da Europa, e exporta.

Porque é que isso não resolve o mercado interno

Porque essas licenças pertencem ao circuito medicinal — Lei 33/2018 e Portaria n.º 83/2021, sob tutela do INFARMED. É um carril diferente do cânhamo industrial, com requisitos, finalidades e destinos diferentes.

O que isso deixa

Um país que produz canábis com certificação farmacêutica para exportação, e cujas lojas de CBD compram a armazéns noutros países.

⚠️ A ressalva honesta: a ponte regulatória entre os dois carris não está estabelecida. Não é correcto concluir daqui que um produtor licenciado pelo INFARMED possa abastecer uma loja de CBD. É a pergunta certa a colocar a um advogado, não uma conclusão a tirar de uma página.

O que muda para quem compra

A origem raramente é portuguesa

E isso não é, em si, um problema de qualidade. É um facto de cadeia, e vale a pena saber ao perguntar «de onde vem?».

A rastreabilidade fica mais longa

Mais intermediários entre o campo e o frasco significa mais pontos onde a informação se perde. É uma das razões pelas quais o boletim de lote é tão frequentemente genérico.

E a disponibilidade é instável

Um produto pode desaparecer do mercado por decisão de fiscalização, e a garantia pós-venda depende de a loja continuar aberta.

A história, que explica porque é que a lei está assim

O cânhamo em Portugal antes do século XX

Foi cultura corrente durante séculos, e por uma razão naval: a cordoaria. Um navio de vela consumia toneladas de fibra em cabos, cordame e velame, e o cânhamo era a fibra disponível.

A Real Fábrica de Cordoaria, em Lisboa, existiu precisamente para transformar essa matéria-prima.

O que aconteceu depois

A substituição por fibras sintéticas ao longo do século XX retirou o mercado. E o enquadramento internacional dos estupefacientes, a partir da Convenção Única de 1961, tornou a distinção entre cânhamo e canábis uma questão regulatória complexa.

O regresso

O cânhamo industrial voltou ao enquadramento agrícola europeu como cultura elegível, com limite de THC e catálogo de variedades. É esse o quadro que a Portaria n.º 64/2023 aplica em Portugal.

E o que ficou por resolver

A inflorescência. É a parte da planta que o mercado moderno quer e que o enquadramento agrícola, por razões históricas, nunca precisou de cobrir — porque quem cultivava para cordas não tinha uso para as flores.

A lei está desenhada para a planta que se usava, não para a que se vende.

Os números do sector

O cânhamo alimentar

A semente e o óleo têm mercado real, crescente e sem controvérsia jurídica. É a parte da cultura que funciona sem qualquer zona cinzenta.

O cânhamo para fibra

Materiais de construção, isolamento, compósitos. Um sector com procura crescente por razões ambientais.

E o CBD

Fora do perímetro doméstico, e por isso importado.

A assimetria que daí resulta

Um agricultor português pode cultivar cânhamo legalmente e não pode vender a parte da planta que tem mais valor de mercado. A cultura é viável para fibra e semente; para canabinóides, não.

Como isto se compara com o resto da Europa

Suíça

Fora da União Europeia, com limite de THC de 1% — muito superior ao europeu. É uma das razões pelas quais o mercado suíço se desenvolveu de forma diferente.

Chéquia

Também com limite mais permissivo do que o europeu comum, e um mercado de retalho consolidado.

Itália

A Lei 242/2016 abriu o sector; o artigo 18.º do Decreto-Lei 48/2025, convertido na Lei 80/2025, proibiu as inflorescências. Um caso de abertura seguida de fecho.

França

O Conselho de Estado anulou a proibição de venda de flores em Dezembro de 2022; o plano de fiscalização alimentar aplicado em Maio de 2026 apertou pelo lado dos ingeríveis.

O que o mapa mostra

Que não há posição europeia comum sobre inflorescência, e que cada país resolveu de maneira diferente — alguns por lei, outros por decisão judicial, e Portugal por omissão do perímetro da autorização de cultura.

Um glossário curto, para não voltar atrás

DGAV — Direcção-Geral de Alimentação e Veterinária. Autoriza a cultura de cânhamo industrial.

INFARMED — a autoridade do medicamento. Tutela as preparações à base de canábis.

Inflorescência — a parte florida da planta, onde se concentram os tricomas.

Catálogo comum de variedades — a lista europeia das variedades elegíveis.

Novo alimento — categoria do Regulamento (UE) 2015/2283, onde os extractos de canabinóides estão enquadrados sem autorizações concedidas.

Factor 0,877 — a razão de massas que converte a forma ácida na neutra, necessária para calcular o THC total.

As cinco verificações que servem para tudo

  1. Há lote na embalagem, e o boletim é desse lote?
  2. O laboratório é independente e acreditado?
  3. O CBD total e o THC total estão calculados com o factor 0,877?
  4. Quantos painéis de contaminantes tem o boletim, e quais?
  5. Qual é o preço por miligrama, depois de feita a conta?

Como isto se cruza com o resto do site

«Objeto de decoração» analisa a fórmula que o mercado usa perante esta restrição. A cosmética com cânhamo explica o lado dos cremes, onde a distinção semente/extracto decide tudo. E a autorização da DGAV cobre fibra e semente desenvolve o enquadramento da flor em particular.

O que fazer com isto na prática

Se estás a comprar

Pergunta a origem da matéria-prima. Não é uma pergunta capciosa — é a que separa quem conhece a cadeia de quem revende sem ter perguntado.

Se estás a avaliar um projecto no sector

Esta é a primeira restrição a resolver, antes de qualquer outra. Determina o que é possível fazer com origem doméstica e o que obriga a importar.

Se estás só a tentar perceber

Guarda a frase: fibra e semente sim, inflorescência não. Explica os rótulos, as apreensões, e a razão pela qual o CBD português vem de fora.

O que este site publica, e porquê

A matriz de mercado deste site classifica flores e resinas como banidas em Portugal, e é por esta razão exacta. A classificação vive num ficheiro de dados e o gate de build impede que um produto dessas categorias apareça listado para o mercado português.

O que seria preciso mudar

Alargar o perímetro da autorização de cultura

É a alteração mais directa: incluir a inflorescência no âmbito da autorização da DGAV, com as condições que se entendessem adequadas — rastreabilidade, limite de THC verificado por lote, registo de operadores.

Não exigiria lei nova; exigiria uma decisão sobre o âmbito de uma portaria.

Resolver o estatuto de novo alimento

Este não depende de Portugal. Há pedidos submetidos à Comissão Europeia, e enquanto não houver decisão os extractos ficam onde estão.

Ou uma clarificação judicial

Foi o caminho francês. Em Portugal não há decisão conhecida de tribunal superior sobre a venda de inflorescência de cânhamo industrial.

O que acontece entretanto

O mercado funciona com rótulos que declaram destino decorativo, fiscalização episódica, e uma diferença permanente entre o que se vende e o que a autorização cobre.

Um resumo em cinco linhas

  1. O boletim tem de ser do lote que vais receber. Sem isso, é um documento sobre outra produção.
  2. O CBD e o THC totais calculam-se com o factor 0,877 sobre a fracção ácida. A soma directa sobrestima sempre, e sempre a favor de quem vende.
  3. Os quatro painéis de contaminantes contam-se: metais, pesticidas, micotoxinas e solventes.
  4. O preço por miligrama é a única comparação que é aritmética e não opinião.
  5. Em Portugal o limite é 0,3% de THC total para o cânhamo industrial, nos termos da Portaria n.º 64/2023, e a autorização de cultura cobre fibra e semente — não a inflorescência.

O que a licença cobre e o que não cobre

O que autoriza

A sementeira e a cultura de variedades inscritas, para os fins declarados no pedido.

O que não autoriza automaticamente

A transformação, que tem enquadramento próprio conforme o produto que se pretende obter.

O que muitas vezes se assume

Que licença de cultivo basta para tudo o resto. Não basta, e é a confusão mais frequente.

Onde isso se resolve

Verificando o enquadramento do produto final, e não apenas o da planta.

As variedades autorizadas

O catálogo comum

Lista as variedades que podem ser semeadas para fins industriais, com teor documentado do composto restrito.

A semente

Comprada certificada, com documento que acompanha o lote e que tem de ser conservado.

O que não é permitido

Semear material de origem desconhecida, ainda que a planta pareça idêntica.

Porque isso é fiscalizado

Porque é o ponto de partida de toda a cadeia e o único que se controla de forma simples.

A comunicação prévia e o registo

O que se comunica

A intenção de semear, a área, a variedade e a localização das parcelas.

A quem

Às entidades competentes, dentro dos prazos definidos.

Para que serve

Para permitir a amostragem oficial no período adequado.

O que acontece se não se comunicar

A cultura fica fora do quadro, independentemente de a variedade ser autorizada.

A amostragem oficial

Quando

Em período definido em relação à floração, e não à conveniência do produtor.

Como

Por procedimento estabelecido, que fixa o número de plantas e a parte a recolher.

O que mede

O teor do composto restrito, com o método previsto.

O que acontece se exceder

A parcela não pode ser usada para o fim declarado. É a perda de uma campanha inteira.

O que se pode fazer com a colheita

Fibra e cânhamo agrícola

Usos industriais com fileiras próprias, com enquadramento distinto do alimentar.

Semente

Autorizada como género alimentício, com o quadro geral que se aplica a qualquer alimento.

Extractos e flores

É aqui que o quadro se complica, e onde a diferença entre Estados é maior.

O que isso significa

Que a mesma colheita pode ter destinos com estatutos muito diferentes.

Onde está a incerteza

A flor

O seu estatuto como produto acabado não é uniforme entre Estados, e a interpretação evolui.

Os extractos

Cruzam-se com o quadro dos novos alimentos, que exige autorização própria.

A cosmética

Tem regime próprio, com lista de substâncias e requisitos distintos.

O que daqui resulta

Que o produtor precisa de saber o destino antes de decidir o que semeia.

O que um produtor deve documentar

A semente

Factura e documento de certificação, com a variedade identificada.

A comunicação

Comprovativo do registo das parcelas.

A amostragem

Resultado oficial, se houve.

A colheita

Datas, quantidades e destino. É a base de qualquer rastreabilidade posterior.

O que um comprador deve poder ver

O boletim do lote

Com teor, contaminantes, data e laboratório.

A origem

Nacional ou não, e com que documentação.

A variedade

Se o material é europeu, consta de um catálogo e é verificável.

O que raramente vê

Qualquer coisa da lista anterior, porque nada obriga a publicá-la.

Os erros que se repetem

Confundir licença com autorização de produto

São coisas diferentes e a primeira não implica a segunda.

Assumir uniformidade europeia

O quadro do cultivo é comum; o dos produtos não é.

Semear sem destino definido

Que é a forma mais rápida de acabar com uma colheita sem escoamento legal.

Confiar em informação desactualizada

O quadro muda, e o que era verdade há dois anos pode já não ser.

Onde confirmar

Fontes oficiais

Das entidades competentes, que publicam os procedimentos e os prazos.

O catálogo comum

Publicado e acessível, para verificar a variedade.

O regulamento dos novos alimentos

Para perceber o estatuto de extractos.

O que não serve

Informação de lojas, incluindo a nossa, como substituto de fonte oficial.

O que fica por resolver

O estatuto da flor

Que continua a variar entre Estados e a ser objecto de decisões judiciais.

O dos extractos

Dependente de processos de autorização que se arrastam.

A ausência de fileira de transformação

Que obriga a exportar matéria-prima e a importar produto acabado.

O que o produto faz

Não existe alegação autorizada na União que o permita descrever.

Perguntas frequentes

Então é ilegal cultivar cânhamo em Portugal?

Não. É legal cultivar para fibra e semente, com autorização. O que não está coberto é a inflorescência.

E o óleo de sementes de cânhamo?

Legal, corrente, e sem canabidiol. É um produto alimentar e cosmético com mercado próprio.

Porque é que há lojas abertas a vender flores?

Porque a fiscalização é episódica e o enquadramento é contestado pelos operadores. Não é o mesmo que estar resolvido, como as apreensões de Janeiro de 2026 mostraram.

O limite é 0,2% ou 0,3%?

0,3%, desde a Portaria n.º 64/2023. Alguns rótulos ainda declaram 0,2%, que era o valor anterior.

As empresas licenciadas pelo INFARMED podem vender CBD?

São licenciadas para o circuito medicinal, que é outro carril. A ponte entre os dois não está estabelecida, e não é matéria para conclusões apressadas.