O CBG é a molécula de onde saem todas as outras
Todos os canabinóides principais da planta descendem da mesma molécula. O ácido canabigerólico — CBGA — é o ponto de partida, e é a partir dele que três enzimas diferentes constroem o CBDA, o THCA e o CBCA.
Isso explica uma coisa que confunde muita gente ao ler boletins: porque é que o CBG aparece quase sempre em quantidades pequenas. Não é raro por acidente. É raro porque foi consumido.
A via biossintética, do princípio
O que a planta junta
Dois compostos: o ácido olivetólico, derivado do metabolismo dos ácidos gordos, e o pirofosfato de geranilo, um precursor terpénico.
Uma enzima — a geranilpirofosfato:olivetolato geraniltransferase — junta os dois. O resultado é CBGA.
A bifurcação
A partir daí, três enzimas competem pelo mesmo substrato:
- CBDA sintase → CBDA
- THCA sintase → THCA
- CBCA sintase → CBCA
O que decide qual delas ganha
Genética. Uma planta com CBDA sintase activa e THCA sintase inactiva acumula CBDA. Uma com o inverso acumula THCA.
Não são compostos diferentes em quantidades diferentes — são enzimas diferentes a competir pelo mesmo material de partida.
Porque é que sobra pouco CBGA
Porque as sintases consomem-no à medida que é produzido. Numa planta madura, a maior parte do CBGA já foi convertido, e por isso o CBG aparece nos boletins tipicamente abaixo de 1%.
Como o CBG aparece no boletim
A forma ácida e a neutra
Tal como acontece com o canabidiol, a planta produz CBGA e o calor converte-o em CBG. A mesma lógica de conversão aplica-se:
CBG total = CBG + (CBGA × 0,877)
Os valores típicos
Em extractos de cânhamo comuns, entre 0,1% e 1%. Em variedades seleccionadas para CBG, muito mais — mas essas são genéticas específicas, não o material corrente.
Porque é que a presença importa
Porque é um dos indicadores de que um extracto é mesmo um extracto. Um isolado tem CBG abaixo do limite de quantificação; um extracto de espectro completo tem-no com valor mensurável.
É uma das linhas a que se olha para confirmar o espectro sem confiar no rótulo.
As variedades ricas em CBG
Como se obtêm
Por selecção de plantas em que as sintases de CBDA e THCA têm actividade reduzida. Sem elas a consumir o CBGA, o precursor acumula-se.
O que isso implica na prática
Uma planta rica em CBG é, tipicamente, também pobre em CBD e em THC. Não é uma questão de acrescentar CBG: é uma questão de não converter o CBGA.
O ângulo legal
O limite português de 0,3% aplica-se ao THC. Uma variedade rica em CBG tende a ter THC muito baixo, precisamente porque a via que o produz está travada — mas a conta faz-se na mesma, com o factor.
O que se pode e não se pode dizer sobre o CBG
O que está estabelecido
Que é um canabinóide, que é o precursor dos outros, e que existe investigação pré-clínica sobre ele.
O que não está
Praticamente tudo o resto, em termos de efeitos em humanos. A base de evidência é muito menor do que a do canabidiol, que já é limitada.
O que a lei permite afirmar
Não existe na União Europeia uma única alegação de saúde autorizada para canabinóides. Isso inclui o CBG, e inclui as formulações que o combinam com outros compostos.
Esta página descreve uma molécula e a sua origem biossintética. O que ela faz é uma pergunta em aberto, e um site que a respondesse estaria a afirmar mais do que a evidência permite.
Os outros canabinóides menores
CBC — canabicromeno
O terceiro ramo da bifurcação. Aparece em quantidades pequenas na maior parte do material.
CBDV — canabidivarina
Análogo do canabidiol com uma cadeia lateral mais curta. Deriva de uma via paralela que começa no ácido divarínico em vez do olivetólico.
THCV — tetra-hidrocanabivarina
O análogo correspondente do lado do THC. Mesma lógica de cadeia curta.
CBN — canabinol
O único da lista que não é produzido pela planta: forma-se por oxidação do THC ao longo do tempo. É por isso que serve como marcador de idade.
Como isto muda a leitura de um boletim
As linhas contam uma história coerente
Num extracto genuíno de espectro completo, espera-se ver CBD dominante, CBDA residual conforme o grau de descarboxilação, CBG em décimas de ponto, CBC mais baixo ainda, e THC abaixo do limite.
Quando os números não fazem sentido
Um boletim com CBD alto, CBG a zero e um perfil de terpenos rico está a descrever um isolado com terpenos adicionados. A biossíntese não produz esse padrão.
O que perguntar
Se um produto se anuncia como espectro completo e o boletim mostra os canabinóides menores todos abaixo do limite de quantificação, vale a pena pedir esclarecimento antes de comprar.
Como isto se cruza com o resto do site
O factor 0,877 explica a conversão das formas ácidas — e a via biossintética descrita aqui é o passo anterior. As três definições de espectro explicam como se usa esta informação para confirmar o que um produto é. O CBN e o tempo cobre o único canabinóide que não vem daqui.
O que fazer com isto na prática
Se estás a comparar dois produtos
Olha para as linhas dos canabinóides menores, não só para a do CBD. É aí que se vê se um extracto é mesmo um extracto, e é aí que dois produtos com a mesma percentagem se separam.
Se estás a avaliar uma loja
Pergunta se o painel inclui canabinóides menores. Um painel que mede só CBD e THC está a cumprir o mínimo; um que mede seis ou sete está a caracterizar o produto.
Se estás só a tentar perceber
Guarda a ideia central: uma molécula-mãe, três enzimas, e a genética decide qual ganha. Com isso percebe-se porque é que cânhamo e canábis são a mesma espécie com químicas diferentes, e porque é que o CBG aparece sempre em quantidades pequenas.
O que este site publica, e porquê
Declaramos o espectro confirmado pelo boletim, não o que o rótulo afirma. Quando os dois discordam, manda o boletim, e a discrepância fica registada. É uma diferença pequena de implementação e uma diferença grande de resultado.
Onde o CBG aparece no mercado português
Nos produtos correntes
Como linha de boletim, com valores entre 0,1% e 1%. Não é um argumento de venda — é uma confirmação de que o extracto é extracto.
Nos produtos dedicados
Existem óleos e flores comercializados como «CBG» ou «CBD+CBG». São genéticas seleccionadas, com rendimento inferior e preço superior.
O que verificar num produto de CBG
Exactamente o mesmo que em qualquer outro: lote na embalagem, boletim correspondente, THC total calculado com o factor, e painéis de contaminantes. A molécula muda; o método de verificação não.
O que não verificar
Alegações. Um produto de CBG que promete efeitos está a fazer o que a lei não permite, e a novidade da molécula não é excepção nenhuma — pelo contrário, quanto mais recente o composto, menos evidência existe.
Uma nota sobre a nomenclatura
Porque é que os nomes são todos parecidos
Canabigerol, canabidiol, canabicromeno, canabinol. Partilham a raiz porque partilham a estrutura base — um anel aromático com uma cadeia lateral e um grupo terpénico.
O sufixo -A
Indica a forma ácida: CBGA, CBDA, THCA, CBCA. É a forma que a planta produz.
O prefixo -V
Indica a variante com cadeia lateral curta: CBDV, THCV. Vêm de uma via biossintética paralela que começa noutro ácido.
Porque é que isto ajuda a ler um boletim
Porque permite reconhecer um nome novo sem o procurar. Um CBCA numa tabela é o ácido do
canabicromeno, e portanto o terceiro ramo da bifurcação. A nomenclatura conta a química.
Um glossário curto, para não voltar atrás
Boletim de análise (COA) — o documento que um laboratório emite depois de medir uma amostra. Só serve se for do lote que estás a comprar.
Lote — o conjunto de unidades feitas nas mesmas condições, a partir da mesma matéria-prima. É a unidade mais pequena sobre a qual faz sentido afirmar alguma coisa.
LOD — limite de detecção. A concentração mais baixa a que o método distingue a substância do ruído.
LOQ — limite de quantificação. A concentração mais baixa a que o método atribui um valor fiável. É sempre superior ao LOD.
Descarboxilação — a perda do grupo carboxilo por acção do calor. Converte CBDA em CBD e THCA em THC, com perda de dióxido de carbono.
Factor 0,877 — a razão entre as massas moleculares que converte a forma ácida na neutra. É o que torna a soma directa errada, sempre para cima.
Espectro completo — o perfil da planta como saiu da extracção, incluindo THC dentro do limite.
Espectro largo — o mesmo, com o THC removido num passo adicional.
Isolado — canabidiol purificado acima de 98%, sem mais nada da planta.
Winterização — dissolver o extracto em etanol, arrefecer e filtrar as ceras que precipitam.
Purga — remover o solvente de um concentrado sob vácuo e calor controlado. A textura final — wax, crumble, shatter — depende em grande medida deste passo.
Terpenos — os compostos voláteis responsáveis pelo aroma. Produzidos nos mesmos tricomas que os canabinóides, e os primeiros a perder-se.
Tricomas — as glândulas onde a planta produz resina. Ao microscópio são esferas com pé, e é essa forma que os distingue de uma hifa de fungo.
Preço por miligrama — preço a dividir pelo total de miligramas de canabidiol. A única comparação entre produtos que é aritmética e não opinião.
As cinco verificações que servem para tudo
Independentemente do produto, do formato e da loja, são sempre as mesmas:
- Há lote na embalagem, e o boletim é desse lote?
- O laboratório é independente e acreditado?
- O CBD total e o THC total estão calculados com o factor 0,877?
- Quantos painéis de contaminantes tem o boletim, e quais?
- Qual é o preço por miligrama, depois de feita a conta?
Quem responder às cinco antes de pagar sabe mais sobre aquele produto do que a maior parte das pessoas que o vendem.
Porque se lhe chama a molécula de partida
A ordem biossintética
Na planta, a via que produz os principais compostos passa por uma forma precursora comum.
O que isso significa
Que os compostos mais conhecidos derivam dela por transformações enzimáticas sucessivas.
O que resta no fim
Pouco, porque a maior parte foi convertida. É a razão de estar presente em quantidades baixas.
O que isso explica
O preço, e a dificuldade de obter material com teor apreciável.
Porque o teor é tão baixo
A conversão é eficiente
A planta transforma quase tudo, e o que sobra é resíduo do processo.
O momento da colheita
Colher mais cedo deixa mais forma precursora por converter, com custo em tudo o resto.
A genética
Existem linhas seleccionadas para acumular a forma precursora, com trabalho de melhoramento por trás.
O resultado
Material especializado, com produção limitada e preço proporcional.
O que a extracção acrescenta ao problema
A concentração
Necessária, porque o teor de partida é baixo.
A separação
Exigente, porque as moléculas da mesma família têm propriedades próximas.
A pureza atingível
Depende do investimento em cromatografia ou métodos equivalentes.
O que isso faz ao preço
Multiplica-o, e é a explicação técnica de uma diferença que muitas vezes se atribui a marketing.
Como se verifica um teor declarado
Pelo boletim do lote
Com o valor medido, o método e o limite de quantificação.
Pelo limite de quantificação
Especialmente relevante aqui, porque os valores são baixos e ficam perto dele.
Pelo perfil completo
Que mostra o que mais está presente, e é onde as surpresas aparecem.
Porque isto é mais importante nesta molécula
Porque o teor baixo e o preço alto criam o incentivo mais forte para declarações optimistas.
O que costuma estar presente além dela
Outros compostos da mesma família
Em proporções que variam com o material e com o processo.
A forma ácida correspondente
Se o material não foi aquecido.
Solventes residuais
Conforme o processo, e é painel obrigatório quando foram usados.
O que verificar
Se o boletim mostra o perfil ou apenas o valor da molécula anunciada.
O que a literatura disponível cobre
Estudos laboratoriais
Sobre propriedades químicas e sobre interacção com sistemas biológicos in vitro.
Estudos em animais
Alguns, com desenhos variados.
Estudos em pessoas
Muito poucos, e é a lacuna determinante.
O que isso permite afirmar
Nada sobre efeitos. É o estado da documentação, e não uma opinião.
Porque a escassez de dados é usada nos dois sentidos
Pelos que vendem
Como espaço para sugerir, já que nada está estabelecido.
Pelos que criticam
Como prova de ausência de efeito, o que também não se segue.
O que a ausência de dados significa
Que não se sabe. É uma resposta legítima e a única sustentável.
O que isso exige de quem escreve
Dizer que não se sabe, sem preencher o vazio em nenhuma das direcções.
O quadro legal aplicável
O registo europeu de alegações
Não contém alegação autorizada para esta molécula.
O regulamento dos novos alimentos
Aplica-se, e a colocação no mercado alimentar depende de autorização.
O que se observa
Venda com finalidades declaradas que procuram ficar fora desse quadro.
O que verificar
O enquadramento no Estado onde se compra, que é o único que se aplica.
O que perguntar antes de comprar
O teor medido
Com limite de quantificação, e não apenas declarado.
O perfil completo
Para saber o que mais está presente.
Os painéis
Solventes conforme o processo, mais os que dependem da origem.
O preço por miligrama
Que aqui é especialmente revelador, pelo teor baixo.
O que fica por saber
Praticamente tudo sobre efeitos
Em pessoas, com quantidades e formatos de mercado.
A estabilidade
Como se comporta em armazenamento prolongado, mal documentado.
As interacções
Sem caracterização útil.
O que o produto faz
Não existe alegação autorizada na União que o permita descrever.
Como se obtém material com teor apreciável
Por selecção genética
Linhas trabalhadas para acumular a forma precursora, com anos de melhoramento por trás.
Por colheita antecipada
Que deixa mais por converter, com custo em rendimento e no resto do perfil.
Por isolamento
A partir de material comum, com separação exigente e rendimento baixo.
O que as três têm em comum
Custam mais do que produzir os compostos habituais, e é por isso que o preço difere tanto.
O que distingue as ofertas no mercado
Isolados
Uma só molécula, com pureza declarada e verificável no boletim.
Extractos enriquecidos
Onde a molécula predomina mas não está sozinha.
Misturas
Onde entra em proporção pequena e serve sobretudo o nome no rótulo.
Como se distinguem
Pelo perfil no boletim. Sem ele, os três parecem o mesmo produto.
Porque o perfil importa mais aqui
O teor é baixo por natureza
Uma diferença pequena em valor absoluto é grande em proporção.
O preço é alto
O que aumenta o incentivo a declarações optimistas.
O limite de quantificação está perto
E um valor próximo dele exige leitura cuidada.
O que se deve exigir
Valor medido, limite de quantificação e método. Os três, e não apenas o primeiro.
Perguntas frequentes
O CBG é melhor do que o CBD?
Não há base para afirmar isso. São canabinóides diferentes, com bases de evidência de tamanhos muito diferentes — e a do CBD, que é maior, continua limitada.
Porque é que os produtos de CBG são mais caros?
Porque exigem genéticas específicas com rendimento menor, e porque o mercado é pequeno. É uma questão de custo de produção, não de valor demonstrado.
Um extracto sem CBG é de má qualidade?
Não necessariamente — pode ser um isolado, e um isolado bem feito é um bom produto para quem procura precisão de dose. O que não é, é espectro completo.
O CBGA converte-se em CBG com o calor?
Sim, pela mesma reacção de descarboxilação que converte CBDA em CBD, com o mesmo factor aproximado.
Onde é que o CBG entra no limite legal?
Não entra. O limite de 0,3% da Portaria n.º 64/2023 aplica-se ao THC. O CBG não é uma substância controlada.