MCT, azeite ou cânhamo: o portador não é neutro
Num frasco de óleo a 10%, noventa por cento do conteúdo é o portador. É o ingrediente maioritário e é o que menos rótulos declaram — o que é notável, porque decide sabor, viscosidade, prazo de validade e estabilidade.
Esta página descreve os três portadores correntes, o que cada um traz consigo, e como se verifica o que está mesmo no frasco.
Porque é que tem de haver portador
O canabidiol é lipossolúvel
Não se dissolve em água. Para existir como líquido doseável, tem de estar dissolvido numa gordura.
E porque não se vende puro
Porque o isolado é um pó cristalino e o destilado é uma pasta viscosa. Nenhum dos dois se dosea com um conta-gotas.
O que isso implica na leitura do rótulo
Que a percentagem descreve a proporção de canabidiol na mistura, não a pureza de nada. Um óleo a 10% é 10% de canabidiol e 90% de outra coisa — e essa outra coisa merece nome.
Os três portadores correntes
MCT de coco
O que é: triglicéridos de cadeia média, fraccionados a partir do óleo de coco. Tipicamente uma mistura de ácido caprílico (C8) e cáprico (C10).
Características: líquido à temperatura ambiente, muito fluido, praticamente incolor e quase sem sabor.
Estabilidade: boa. Os triglicéridos de cadeia média são saturados, e portanto pouco sujeitos a oxidação.
Porque é o mais usado: é neutro, é estável, é barato, e a fluidez facilita a dosagem com conta-gotas.
O que deve estar no rótulo: «triglicéridos de cadeia média» ou «óleo de coco fraccionado». Um rótulo que diz só «óleo de coco» está a descrever outra coisa — o óleo de coco integral é sólido abaixo de cerca de 24 °C.
Azeite
O que é: azeite virgem ou refinado, consoante o produtor.
Características: sabor pronunciado, mais viscoso do que o MCT, cor esverdeada a dourada.
Estabilidade: razoável. Contém ácidos gordos monoinsaturados, mais sujeitos a oxidação do que os saturados do MCT, mas também polifenóis com acção antioxidante própria.
O que traz de bom: os seus próprios compostos. Um azeite virgem não é um veículo inerte — tem perfil.
O que traz de mau: o sabor sobrepõe-se ao do extracto, e a viscosidade dificulta a dosagem precisa.
Óleo de sementes de cânhamo
O que é: óleo prensado das sementes da mesma planta. Não contém canabidiol — as sementes não têm tricomas.
Características: sabor a noz, cor verde-escura, viscosidade média.
Estabilidade: a mais fraca dos três. É rico em ácidos gordos poli-insaturados, que oxidam com facilidade. Isso encurta o prazo de validade e torna o armazenamento mais crítico.
Porque é escolhido: coerência de marca, sobretudo. É a mesma planta, e isso conta como argumento comercial.
A confusão que gera: «óleo de cânhamo» e «óleo de CBD» são coisas diferentes, e o mercado troca-as com frequência. O primeiro é um óleo alimentar de sementes; o segundo é um extracto dissolvido num portador — que pode até ser o primeiro.
A tabela comparativa
| MCT de coco | Azeite | Sementes de cânhamo | |
|---|---|---|---|
| Sabor | praticamente nenhum | pronunciado | a noz, marcado |
| Viscosidade | muito fluido | média-alta | média |
| Estabilidade à oxidação | alta | média | baixa |
| Prazo típico | mais longo | médio | mais curto |
| Facilidade de dosagem | alta | média | média |
| Traz compostos próprios | não | sim | sim |
O que muda na prática
O sabor
É a diferença mais imediata. Um extracto de espectro completo já tem sabor vegetal pronunciado; em azeite ou em óleo de cânhamo, esse sabor soma-se ao do portador.
Num isolado, o portador é praticamente todo o sabor que existe.
A validade
Um óleo com portador poli-insaturado degrada-se mais depressa. Não é o canabidiol que se estraga primeiro — é a gordura.
Isso importa mais do que parece: um óleo rançoso é desagradável muito antes de o teor de canabidiol ter mudado de forma mensurável.
A viscosidade
Afecta a dosagem. Um óleo viscoso forma gotas maiores e menos consistentes, e a diferença entre duas gotas pode ser significativa.
E a temperatura
O MCT mantém-se fluido no frigorífico. O azeite solidifica parcialmente abaixo de cerca de 7 °C, e volta ao normal à temperatura ambiente — não é defeito, mas assusta quem não conta com isso.
Como verificar o que está no frasco
No rótulo
O portador deve constar da lista de ingredientes. Num produto enquadrado como alimento, o Regulamento (UE) n.º 1169/2011 exige lista de ingredientes por ordem decrescente de peso — o que significa que o portador aparece em primeiro lugar, por ser maioritário.
Num cosmético, o Regulamento (CE) n.º 1223/2009 exige nomenclatura INCI: Cocos Nucifera Oil,
Olea Europaea Fruit Oil, Cannabis Sativa Seed Oil.
No aspecto
Um óleo em MCT é incolor a ligeiramente dourado. Um em azeite é claramente esverdeado. Um em óleo de cânhamo é verde-escuro.
A cor do extracto sobrepõe-se a isto, e por isso não é conclusiva — mas é uma primeira indicação.
Na pergunta à loja
Se não estiver declarado, é uma pergunta legítima antes de comprar. Uma loja que não sabe responder está a revender sem ter perguntado ao fornecedor.
Uma nota sobre a absorção
Existe literatura sobre a influência do veículo lipídico na absorção de compostos lipossolúveis, e é uma área activa de investigação.
O que não se pode dizer: que um portador específico produz melhor efeito. Não existe na União Europeia uma única alegação de saúde autorizada para o canabidiol, e comparações de biodisponibilidade entre portadores comerciais não são matéria que este site afirme.
O que se pode dizer, e é o que interessa a quem compra, é o que está descrito acima: sabor, viscosidade, estabilidade e prazo.
Uma nota sobre os aditivos
Além do extracto e do portador, alguns óleos levam mais coisas.
Aromatizantes
Hortelã, limão, baunilha. Servem para mascarar o sabor vegetal do extracto, e são declarados como aroma.
Num produto enquadrado como alimento, os aromas são regulados por legislação própria e têm de constar da lista de ingredientes.
Vitamina E
Adicionada como antioxidante, para prolongar a validade. É legítimo e é comum, sobretudo em portadores mais sujeitos a oxidação.
⚠️ Atenção ao contexto: o acetato de vitamina E teve um papel documentado em problemas associados a produtos de vaporização. Isso diz respeito a e-líquidos, não a óleos sublinguais, e é uma das razões pelas quais nunca se deve usar um óleo num vaporizador.
Terpenos adicionados
Descritos noutra página. Quando presentes num cosmético, vários constam das listas de alergénios de fragrância e têm de ser declarados.
O que procurar
Uma lista de ingredientes curta e completa. Num óleo simples devia ler-se algo como: portador, extracto de cânhamo. Duas linhas.
Se a lista for longa, vale a pena perceber o que cada coisa lá faz.
Como o portador muda a conta do preço por miligrama
Não muda o numerador
A quantidade de canabidiol depende da percentagem e do volume, não da gordura em que está dissolvido. Um frasco de 10 ml a 10% tem cerca de 1000 mg, seja em MCT, azeite ou óleo de cânhamo.
Muda o custo da matéria-prima
O MCT fraccionado e o azeite têm preços de mercado diferentes, e o óleo de sementes de cânhamo de boa qualidade não é barato. A diferença chega ao preço final, mas é pequena face ao custo do extracto.
E muda o que se aproveita
Aqui está o ponto que a aritmética simples não apanha: um óleo com portador que oxida depressa, guardado num sítio quente, pode ficar desagradável muito antes de o frasco acabar.
O €/mg que interessa não é o do produto comprado — é o do produto consumido em condições. Um portador estável protege esse número.
Um cenário concreto
Dois óleos a 10%, ambos 10 ml, ambos 40 €.
Óleo A: MCT declarado, boletim de lote com quatro painéis, validade de dois anos. Óleo B: portador não declarado, boletim genérico, validade de um ano.
O €/mg é o mesmo: 0,040. Mas no A sabes o que é o ingrediente maioritário, tens o boletim do teu frasco, e o portador é o mais estável dos três. No B não sabes nenhuma dessas coisas.
Não é uma questão de o B ser mau produto — é uma questão de estares a pagar o mesmo por muito menos informação.
Um glossário curto, para não voltar atrás
Portador — a gordura em que o extracto está dissolvido. É o ingrediente maioritário do frasco.
MCT — triglicéridos de cadeia média, fraccionados do óleo de coco. Saturados e estáveis.
Óleo de sementes de cânhamo — óleo alimentar prensado das sementes. Não contém canabidiol.
INCI — a nomenclatura internacional obrigatória para ingredientes de cosméticos.
Factor 0,877 — a razão de massas que converte a forma ácida na neutra.
LOQ — limite de quantificação. A concentração mais baixa a que o método atribui um valor fiável.
As cinco verificações que servem para tudo
- Há lote na embalagem, e o boletim é desse lote?
- O laboratório é independente e acreditado?
- O CBD total e o THC total estão calculados com o factor 0,877?
- Quantos painéis de contaminantes tem o boletim, e quais?
- Qual é o preço por miligrama, depois de feita a conta?
E, neste caso, uma sexta: o portador está declarado?
Como isto se cruza com o resto do site
Porque é que dois produtos iguais diferem inclui o portador entre as quatro variáveis que separam duas embalagens com a mesma percentagem. As três definições de espectro explicam o que está dissolvido nele. E os erros de conservação explicam porque é que a escolha do portador muda a forma como o produto deve ser guardado.
O que fazer com isto na prática
Se estás a comparar dois óleos
Verifica o portador dos dois antes de comparar preço. Um óleo em MCT e um em óleo de cânhamo com o mesmo €/mg não são o mesmo produto: têm sabor, validade e estabilidade diferentes.
Se estás a avaliar uma loja
O portador é a informação mais fácil de dar e das mais frequentemente omitidas. Uma loja que o declara em todos os produtos organizou a informação; uma que não o declara em nenhum, não.
Se estás só a tentar perceber
Guarda a proporção: num óleo a 10%, o portador é 90% do frasco. Não é um detalhe de formulação — é a maior parte do que estás a comprar.
O que este site publica, e porquê
Declaramos o portador na ficha de cada produto, e quando não o conseguimos apurar dizemo-lo. Um campo vazio é informação: significa que perguntámos e não obtivemos resposta verificável.
Porque o veículo importa
É a maior parte do produto
Num óleo, o extracto é uma fracção pequena e o resto é veículo.
Tem propriedades próprias
Sabor, comportamento ao calor e efeitos digestivos em quantidades altas.
Influencia a absorção
Pela composição em ácidos gordos, que difere entre óleos.
O que isso implica
Que escolher o veículo é escolher a maior parte do que se ingere.
Os veículos mais usados
Triglicéridos de cadeia média
Extraídos de fontes vegetais, com sabor neutro e boa estabilidade.
Azeite
Com sabor próprio marcado e composição bem documentada.
Óleo de semente de cânhamo
Com perfil de ácidos gordos particular e sabor herbáceo.
Outros óleos vegetais
Usados por custo, com estabilidades muito diferentes entre si.
O que muda no sabor
Neutro
Facilita o uso e não interfere com nada.
Marcado
Pode ser preferível para quem o aprecia, e um obstáculo para quem não.
O que isso decide
A tolerância ao uso repetido, que é uma consideração prática real.
O que não decide
Nada sobre o conteúdo, que se mede à parte.
O que muda na estabilidade
Óleos com mais insaturações
Oxidam mais depressa e exigem mais cuidado no armazenamento.
Óleos mais saturados
Resistem melhor, com prazos mais longos.
O que isso implica
Que a data de durabilidade não é comparável entre veículos diferentes.
O que verificar
O nome do óleo e a data, em conjunto.
O que muda na absorção
A presença de gordura aumenta a fracção absorvida
Documentado, com magnitude apreciável.
A composição em ácidos gordos
Pode influenciar, e é onde as afirmações comerciais se multiplicam.
O que está demonstrado
O efeito geral da gordura. As diferenças entre óleos específicos, não.
O que isso obriga
A ler qualquer afirmação sobre superioridade de um veículo como não demonstrada.
Os efeitos próprios do veículo
Digestivos
Alguns óleos provocam desconforto em quantidades altas, independentemente do resto.
Alergénicos
Conforme a origem do óleo, o que deve constar do rótulo.
Interacção com o sabor de outros ingredientes
Que pode mascarar ou realçar.
Porque isto raramente se discute
Porque a atenção vai toda para o extracto, que é a fracção menor.
O que o rótulo deve indicar
O nome do óleo
Não uma categoria genérica.
A quantidade
Ou pelo menos a ordem na lista de ingredientes.
Alergénios
Quando aplicável, com destaque.
O que costuma faltar
O nome específico, substituído por designações vagas.
Como comparar dois produtos com veículos diferentes
Pelo teor em miligramas
Que é a base comum.
Pelo preço por miligrama
Que remove o efeito do formato.
Pela estabilidade
Comparando datas de durabilidade com o veículo em mente.
Pelo que não se compara
A absorção, que difere e não está quantificada por veículo.
O que perguntar
O nome do óleo
Se não constar do rótulo.
A origem
Que determina alergénios e perfil.
A data
De produção e de durabilidade.
O boletim
Que mede o extracto e não o veículo, o que também é uma limitação.
O que fica por dizer
Qual o melhor veículo
Depende do sabor, da estabilidade e da tolerância individual.
Se algum absorve melhor
Não está demonstrado entre veículos específicos.
O que o produto faz
Não existe alegação autorizada na União que o permita descrever.
O que recomendamos
Ler o nome do óleo antes de olhar para a percentagem. É a maior parte do que se compra.
O que o veículo não faz
Não altera o teor
Que é medido no produto acabado e não depende do óleo.
Não corrige contaminantes
Que vêm do extracto e do próprio óleo, e se somam.
Não substitui o boletim
Que continua a ser o único documento que descreve o produto.
O que isso implica
Que a escolha do veículo é uma preferência informada, e não um critério de qualidade.
O óleo como fonte própria de contaminantes
Também tem origem agrícola
E pode trazer resíduos e metais.
Raramente é analisado
Porque o painel se faz ao produto acabado e não a cada ingrediente.
O que o painel do produto acabado cobre
O conjunto, o que é suficiente para decidir.
O que não permite
Saber de onde veio o que foi encontrado, o que interessa ao fabricante e não a quem compra.
O que se lê num rótulo sobre o veículo
O nome específico
E não apenas óleo vegetal, que não identifica nada.
A origem
Que determina alergénios possíveis.
A posição na lista
Que indica se é o ingrediente maioritário, o que normalmente é.
O que a ausência do nome significa
Que falta a informação sobre a maior parte do que se compra.
O que uma análise ao veículo mostraria
O perfil de ácidos gordos
Que difere entre óleos e é o que distingue uns dos outros.
O estado de oxidação
Que indica se o óleo já se degradou antes de entrar no produto.
Contaminantes próprios
Que o óleo traz da sua própria origem agrícola.
Porque não se faz
Porque o painel se aplica ao produto acabado e ninguém pede o do ingrediente.
O que muda com o tempo em frasco
O óleo oxida
A ritmo que depende da sua composição.
O sabor altera-se
E é o primeiro sinal perceptível.
O extracto degrada-se
Em paralelo, por mecanismo próprio.
O que isso implica
Que a durabilidade do produto é a do componente que se degrada primeiro, e nem sempre é o extracto.
Perguntas frequentes
Qual é o melhor portador?
Depende do que valorizas. MCT para neutralidade e estabilidade; azeite se preferires um veículo com perfil próprio; óleo de cânhamo por coerência de marca, aceitando validade mais curta.
«Óleo de cânhamo» é o mesmo que «óleo de CBD»?
Não. O primeiro é prensado das sementes e não contém canabidiol. O segundo é um extracto dissolvido num portador — que pode ser o primeiro.
Porque é que o meu óleo solidificou no frigorífico?
Provavelmente é azeite, ou óleo de coco não fraccionado. Volta ao normal à temperatura ambiente.
Um óleo sem portador declarado é mau?
É um óleo sobre o qual sabes menos. Conforme a categoria em que o produto é enquadrado, pode também ser incumprimento de rotulagem.
O portador afecta a percentagem declarada?
Não. A percentagem é a proporção de canabidiol na mistura, seja qual for a gordura. O que muda é tudo o resto.