Os seis terpenos que aparecem em quase todos os boletins
Duas flores com a mesma percentagem de canabidiol podem cheirar a coisas completamente diferentes. A explicação está nos terpenos — os compostos voláteis que a planta produz nas mesmas glândulas onde produz os canabinóides.
Não são exclusivos da canábis. São a mesma família de moléculas que dá cheiro aos citrinos, ao pinho e à lavanda, e é por isso que se conseguem descrever com palavras emprestadas de outras coisas.
Esta página descreve os seis que aparecem com mais frequência nos boletins, o que são quimicamente, e o que os destrói.
O que é um terpeno
A definição química
Hidrocarbonetos construídos a partir de unidades de isopreno, uma molécula de cinco carbonos. Duas unidades formam um monoterpeno (dez carbonos); três formam um sesquiterpeno (quinze).
Essa distinção não é trivial: os monoterpenos são mais leves e mais voláteis, e são os primeiros a desaparecer.
Onde a planta os produz
Nos tricomas — as mesmas glândulas onde se formam os canabinóides. É por isso que uma flor que perde tricomas perde as duas coisas ao mesmo tempo.
Quanto é que representam
Numa flor bem preservada, tipicamente entre 1% e 3% da massa seca. É pouco em peso e é a maior parte da experiência sensorial.
Os seis principais
Mirceno
Onde mais existe: manga, lúpulo, tomilho, capim-limão. Descritor: terroso, herbáceo, ligeiramente doce. Ponto de ebulição: ≈ 167 °C.
É frequentemente o terpeno mais abundante em variedades de cânhamo, e a sua proporção é uma das formas de agrupar genéticas.
Limoneno
Onde mais existe: casca de limão, laranja e outros citrinos. Descritor: cítrico, fresco, brilhante. Ponto de ebulição: ≈ 176 °C.
É o segundo terpeno mais comum na natureza. Nas variedades com nomes cítricos — Lemon Haze, Orange Bud — é ele que dá o nome.
Pineno
Onde mais existe: resina de pinheiro, alecrim, salsa. Descritor: pinho, resinoso, fresco. Ponto de ebulição: ≈ 155 °C (alfa-pineno).
Existe em duas formas, alfa e beta, com aromas ligeiramente diferentes. É dos mais voláteis dos seis, e por isso dos primeiros a perder-se.
Linalol
Onde mais existe: lavanda, coentro, manjericão. Descritor: floral, ligeiramente picante. Ponto de ebulição: ≈ 198 °C.
Aparece em concentrações mais baixas do que os anteriores, mas o limiar de percepção é baixo — pouca quantidade nota-se muito.
Beta-cariofileno
Onde mais existe: pimenta preta, cravinho, canela. Descritor: apimentado, quente, amadeirado. Ponto de ebulição: ≈ 130 °C sob pressão reduzida; bem mais alto à pressão atmosférica.
É um sesquiterpeno, mais pesado e menos volátil do que os quatro anteriores. Sobrevive melhor à secagem e ao armazenamento, e é por isso que domina o perfil de material mais velho.
Humuleno
Onde mais existe: lúpulo — de onde vem o nome, Humulus lupulus. Descritor: amadeirado, terroso, ligeiramente amargo. Ponto de ebulição: ≈ 106 °C sob pressão reduzida.
Aparece quase sempre acompanhado de cariofileno, com o qual partilha rota biossintética.
Porque é que os pontos de ebulição interessam
Não é sobre vaporizar
Ou não é só. É sobre tudo o que envolve calor: secagem, descarboxilação, extracção, e o armazenamento num sítio quente.
A ordem em que se perdem
Os monoterpenos leves — pineno, mirceno, limoneno — vão primeiro. Os sesquiterpenos — cariofileno, humuleno — ficam mais tempo.
O resultado prático é que um material mal seco ou mal guardado não perde aroma uniformemente: perde a parte fresca e brilhante e fica com a parte pesada e terrosa.
O que isso diz sobre um produto
Um extracto com perfil dominado por cariofileno e humuleno, sem monoterpenos praticamente nenhuns, passou por calor. Pode ter sido descarboxilação agressiva, extracção quente, ou tempo.
Como aparecem num boletim
A análise é separada
O perfil de terpenos não faz parte do painel de canabinóides. É uma análise própria, tipicamente por cromatografia gasosa, e custa dinheiro à parte.
Poucos boletins portugueses a incluem
E quando incluem é sinal de que o produtor investiu em caracterizar o produto em vez de apenas cumprir o mínimo.
Como se apresenta
Em percentagem em massa ou em miligramas por grama, com uma linha por terpeno identificado. Um perfil completo tem entre dez e trinta linhas; um perfil resumido tem cinco ou seis.
A questão do limite de quantificação
Muitos terpenos aparecem perto dos limites do método. Um <LOQ numa linha de terpeno significa o
mesmo que em qualquer outra: detectado ou não, mas não quantificável.
Terpenos adicionados
Existe, e é legítimo se declarado
Uma parte do mercado adiciona terpenos a isolados, para lhes dar perfil. Podem ser de origem canábica ou de outras plantas — o limoneno de um citrino é quimicamente o mesmo limoneno.
Como se detecta
Um boletim que mostra uma única linha de canabinóide com valor e um perfil rico de terpenos está a descrever um isolado aromatizado. Não há genética que produza esse padrão.
O enquadramento
Os aromas em géneros alimentícios são regulados pelo Regulamento (CE) n.º 1334/2008; nos cosméticos aplicam-se as regras do Regulamento (CE) n.º 1223/2009, incluindo a declaração de alergénios de fragrância — e vários terpenos comuns constam dessas listas.
Um produto bem rotulado declara-os. Um mal rotulado não.
O vocabulário de descrição
Porque é emprestado do vinho
Porque é a área onde o léxico de prova está mais desenvolvido, e porque muitas moléculas coincidem. Descrever um aroma como «cítrico com fundo apimentado» corresponde a limoneno com cariofileno — é uma descrição verificável num boletim, não uma impressão.
Os descritores mais úteis
Cítrico, terroso, pinho, floral, especiado, doce, amadeirado, combustível, queijo, fruto vermelho.
O que não se deve descrever
Efeitos. Um aroma descreve-se; o que um produto faz a quem o usa não é matéria desta página, e não existe na União Europeia uma única alegação de saúde autorizada para o canabidiol.
O que preserva os terpenos
Por ordem de impacto:
- Secagem lenta e fresca — o calor da secagem é onde se perde mais
- Maturação em recipiente fechado, com humidade controlada
- Armazenamento ao escuro e a temperatura estável
- Recipiente proporcional ao conteúdo, para minimizar o oxigénio
- Abrir o menos possível
E o que os destrói é a lista inversa: calor, luz, oxigénio e tempo.
Como isto se cruza com o resto do site
Porque é que dois produtos iguais diferem usa os terpenos como uma das quatro variáveis. Os erros de conservação explicam como se perdem em casa. E o boletim de análise explica onde procurar o perfil, quando ele existe.
Os outros que aparecem com frequência
Além dos seis principais, há um segundo grupo que surge em boletins mais completos.
Terpinoleno
Onde mais existe: noz-moscada, maçã, cominho. Descritor: fresco, ligeiramente doce, complexo.
Aparece em quantidades pequenas e é característico de algumas linhagens sativa.
Ocimeno
Onde mais existe: manjericão, hortelã, salsa. Descritor: doce, herbáceo, ligeiramente cítrico.
É dos mais voláteis de todos, e por isso dos que mais depressa desaparece.
Bisabolol
Onde mais existe: camomila. Descritor: floral suave, ligeiramente doce.
Sesquiterpeno, e portanto mais estável do que os monoterpenos.
Nerolidol
Onde mais existe: jasmim, gengibre, casca de laranja. Descritor: amadeirado, floral.
Guaiol
Onde mais existe: madeira de guaiaco. Descritor: amadeirado, resinoso.
Como se agrupa um perfil
As proporções, não as presenças
Quase todas as variedades de cânhamo têm quase todos estes terpenos. O que as distingue são as proporções.
Um perfil dominado por mirceno lê-se de forma diferente de um dominado por limoneno, mesmo que os dois contenham ambos os compostos.
Os agrupamentos que a indústria usa
Fala-se com frequência em perfis «cítricos», «terrosos», «doces», «combustível» ou «florais». Não são categorias científicas — são atalhos de descrição que correspondem, grosso modo, a qual dos terpenos domina.
Porque é que isso não prevê nada
Um perfil cítrico não implica nada sobre o que o produto faz. A relação entre perfil de terpenos e experiência é uma área de investigação activa, com muito menos evidência estabelecida do que o marketing sugere.
O que muda entre formatos
Na flor
O perfil é o da planta, alterado pela secagem e pela maturação. É onde a fracção volátil é mais rica e mais frágil.
Nos extractos
Depende inteiramente do método. Extracção a frio preserva mais; extracção quente com descarboxilação agressiva deixa sobretudo os sesquiterpenos.
Nos isolados
Zero, por definição. Se um isolado tem perfil de terpenos, foram adicionados depois.
Nos e-líquidos
Frequentemente com terpenos adicionados, e o enquadramento aplicável exige declaração de alergénios de fragrância quando presentes acima de certos limiares.
Uma nota sobre segurança e rotulagem
Vários terpenos comuns — limoneno e linalol entre eles — constam das listas de alergénios de fragrância que têm de ser declarados em produtos cosméticos ao abrigo do Regulamento (CE) n.º 1223/2009.
Isso não significa que sejam perigosos. Significa que uma minoria de pessoas reage a eles, e que a lei exige que quem compra o possa saber.
Um cosmético com perfil de terpenos e sem declaração de alergénios está a omitir informação obrigatória — e é um dos sinais mais fáceis de verificar num rótulo.
O que fazer com isto na prática
Se estás a comparar dois produtos
Faz a conta a partir das linhas individuais do boletim, nunca a partir do total apresentado por quem vende. Leva menos de um minuto e é onde aparecem quase todas as discrepâncias.
Se estás a avaliar uma loja
A pergunta que separa quem sabe de quem não sabe é sempre a mesma: o boletim é do lote que vou receber? Uma loja que responde a isso em minutos, com o documento certo em anexo, já respondeu na prática a metade das outras perguntas.
Se estás só a tentar perceber
Guarda três números. O 0,877, que converte a fracção ácida. Os 0,3%, que é o limite português de THC total. E o preço por miligrama, que é a única comparação entre produtos que é aritmética e não opinião.
Com esses três, lê-se qualquer boletim e compara-se qualquer par de produtos sem depender do que a embalagem afirma.
O que este site publica, e porquê
Calculamos os totais a partir das linhas do boletim, mostramos o preço por miligrama, e ordenamos por esse valor — do mais barato para o mais caro. Nunca por «mais popular» nem por «recomendado», que são ordenações que servem quem vende e não quem compra.
E não listamos um produto num país onde a categoria dele não tem enquadramento legal, mesmo quando seria possível vendê-lo. Essa regra vive num ficheiro de dados, não no código, precisamente para que mudar de opinião sobre um mercado seja uma linha editada e não um pedido a um programador.
Onde estes compostos se formam
Nas glândulas resinosas
Que são estruturas da superfície da planta, visíveis com ampliação.
Ao longo da maturação
Com a composição a deslocar-se até à colheita.
Em proporções variáveis
Conforme a variedade, o ambiente e o momento.
O que isso implica
Que o perfil é o resultado de três coisas e não apenas da genética.
As famílias mais referidas
As de nota cítrica
Presentes também em cascas de fruto, e das mais reconhecíveis.
As de nota herbácea e amadeirada
Comuns em muitas plantas e responsáveis pelo fundo do perfil.
As de nota floral
Menos abundantes e mais frágeis.
O que têm em comum
Não são exclusivas desta planta, e a literatura sobre elas vem sobretudo de outras fontes.
Porque a literatura não se transfere
A matriz difere
O que acompanha o composto altera o que se observa.
As quantidades diferem
Muito, entre um estudo e um produto de mercado.
A via difere
Inalação, ingestão e aplicação não são comparáveis.
O que isso obriga
A ler qualquer afirmação com estas três perguntas.
O que se perde e quando
Na secagem
Onde a fracção mais leve sai com a água.
No armazenamento
Continuamente, mais depressa com calor, luz e ar.
No processamento
Sobretudo nas etapas com calor.
O que resta no fim
O fundo mais pesado do perfil, que resiste melhor.
O que se pode medir
Identificação
Quais compostos estão presentes.
Quantificação
Em unidades comparáveis.
Por lote
Que é o que permitiria comparar ofertas.
Porque não se faz
Custa à parte e ninguém a pede. É a lacuna que percorre este site inteiro.
O que a adição posterior muda
O perfil passa a ser escolhido
Em vez de derivado do material.
É legítimo
Se declarado, o que raramente acontece.
Como se desconfia
Aroma intenso em material de aspecto envelhecido, ou que não muda ao partir.
O que se perde
A correspondência entre o que se cheira e o que o material tem.
O que a descrição comercial vale
Como orientação
Dentro de um catálogo.
Como comparação entre casas
Nada, porque não há vocabulário comum.
Como prova
Nenhuma, sem análise.
O que a substituiria
Um perfil analítico por lote, que existe tecnicamente.
Como avaliar por conta própria
Ao corte
Onde o interior representa melhor o material.
À temperatura ambiente
Para que as amostras estejam em condições iguais.
Uma de cada vez
Porque o olfacto satura depressa.
O que a avaliação decide
Frescura relativa. Não decide composição.
O que perguntar
Se existe análise de perfil
A resposta é quase sempre não, e a pergunta é útil na mesma.
A data de colheita
Que explica boa parte do que se cheira.
Se houve adição
Pergunta directa, resposta directa.
O boletim
Com lote e data, como sempre.
O que fica por dizer
O que cada composto faz
Não existe alegação autorizada na União que o permita descrever.
Quanto está presente
Não se mede, e por isso não se sabe.
Se o perfil influencia o resultado
É a hipótese da sinergia, que não está demonstrada em pessoas.
O que recomendamos
Ler descrições de aroma como descrições, e pedir análise quando o argumento for esse.
Como um perfil se descreve sem vocabulário comum
Por analogia
Comparando com frutos, especiarias ou madeiras conhecidas.
Por famílias
Agrupando notas em categorias amplas.
Por intensidade
Que é subjectiva e não se compara entre pessoas.
O que faltaria para comparar
Uma análise em unidades, que existe e não se pede.
Como se treina a descrição
Cheirando com referências
Materiais conhecidos, para fixar associações.
Anotando antes de comparar
Para que a segunda amostra não seja lida à luz da primeira.
Repetindo
Porque a consistência de quem descreve importa mais do que o vocabulário usado.
O que isso não resolve
A ausência de escala comum, que continua a impedir comparações entre pessoas.
O que a análise de perfil mostraria
Composição
Quais compostos e em que proporção.
Comparabilidade
Entre lotes e entre casas, que hoje não existe.
Verificação
Do que a descrição comercial afirma.
Porque não se faz
Custa à parte, e o comprador decide pelo cheiro, que é grátis.
Como se descreve um perfil sem escala comum
Por analogia com o conhecido
Frutos, especiarias e madeiras funcionam como referência partilhada, ainda que aproximada.
Por intensidade relativa
Comparando duas amostras entre si em vez de as classificar em absoluto.
Por persistência
Quanto tempo a nota se mantém depois de o material ser exposto.
O que falta a tudo isto
Uma escala que permita comparar descrições feitas por pessoas diferentes.
Perguntas frequentes
Um perfil de terpenos rico indica melhor qualidade?
Indica que a fracção volátil foi preservada, o que é um sinal de processo cuidadoso. Não diz nada sobre potência nem sobre segurança.
Os terpenos da canábis são diferentes dos de outras plantas?
Não. O limoneno de uma flor de cânhamo e o de uma casca de limão são a mesma molécula. O que é específico é a combinação e as proporções.
Porque é que o mesmo produto cheira diferente entre lotes?
Porque o perfil de terpenos é a parte que mais varia entre colheitas. É normal, e é um dos sinais de que se está perante matéria vegetal e não perante um isolado padronizado.
Vale a pena pagar mais por um produto com análise de terpenos?
Pagas por informação. Se essa informação te interessa — porque procuras um perfil específico —, vale. Se não, é uma linha a mais no boletim.
O aroma desapareceu. O canabidiol também?
Não necessariamente. Os canabinóides são muito menos voláteis do que os monoterpenos e degradam-se bastante mais devagar. Um produto sem aroma pode ter o teor praticamente intacto.