Três números incompatíveis: 2 mg, 25 mg e 300 mg
Três números governam esta pergunta. Vêm de três sítios credíveis e são mutuamente incompatíveis.
- Cerca de 2 mg por dia — a ingestão provisoriamente considerada segura para o canabidiol como alimento, publicada pela Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos
- 10 a 25 mg — uma porção típica num produto à venda
- 300 mg ou mais por dia — a partir de onde uma avaliação da Universidade de Sydney encontrou efeitos claramente evidentes na literatura
Lê-os por ordem. Os produtos da prateleira entregam cerca de dez vezes o que o regulador alimentar europeu endossa a título provisório, e entre um décimo e um trigésimo da quantidade a partir da qual a investigação começa a encontrar alguma coisa.
Tudo o que se vende nesta categoria vive na distância entre esses dois números. Esta página dá-te a aritmética, que é aritmética e pertence-te, e as três fontes, que são de acesso livre. O que fazer com elas é uma conversa com um farmacêutico ou um médico.
⚠️ Nota de enquadramento. Esta página não diz quanto tomar. Não existe na União Europeia uma única alegação de saúde autorizada para o canabidiol, e qualquer indicação de quantidade seria aconselhamento clínico — que este site não presta.
A aritmética que precisas mesmo de saber
A percentagem não é a quantidade
Um rótulo diz «10%». Isso é uma proporção do conteúdo total, não uma quantidade por gota nem por frasco.
De percentagem para miligramas totais
Multiplica a percentagem pelo volume em mililitros, e depois por dez. Um frasco de 10 ml a 10% tem aproximadamente 1000 mg no total.
De miligramas totais para miligramas por gota
Divide pelo número de gotas do frasco. Um conta-gotas produz tipicamente cerca de vinte gotas por mililitro, o que dá cerca de duzentas gotas num frasco de 10 ml.
Mil miligramas a dividir por duzentas gotas dá cerca de 5 mg por gota.
E porque é que «cerca de» é honesto
Porque o volume de uma gota varia com a viscosidade do líquido, com a temperatura e com o próprio conta-gotas. Um rótulo que anuncia um valor exacto por gota está a arredondar sem o dizer.
Três produtos, com as contas feitas
| Produto | Volume | Concentração | Total | Por gota (aprox.) |
|---|---|---|---|---|
| A | 10 ml | 5% | 500 mg | 2,5 mg |
| B | 10 ml | 10% | 1000 mg | 5 mg |
| C | 30 ml | 15% | 4500 mg | 7,5 mg |
| D | 10 ml | 20% | 2000 mg | 10 mg |
A coluna que interessa para comparar preços não é nenhuma destas: é o preço a dividir pelos miligramas totais. Está explicada na página do preço por miligrama.
O primeiro número: o que a EFSA publicou
O que é
Uma ingestão diária considerada segura a título provisório, no âmbito da avaliação do canabidiol enquanto novo alimento.
O que «provisório» quer dizer aqui
Que a avaliação identificou lacunas de dados e que o valor pode mudar quando essas lacunas forem preenchidas. Não é um valor final.
O que este número NÃO é
Não é uma quantidade eficaz. É um limite de segurança — a resposta a «até onde é que não há razão para preocupação», e não a «quanto é preciso para acontecer alguma coisa».
E porque é que ele choca com a prateleira
Porque uma porção típica de produto excede-o largamente. É a contradição central desta página e não tem resolução conhecida.
O segundo número: o que está no frasco
A porção declarada
Tipicamente entre dez e vinte e cinco miligramas por dose sugerida, dependendo da concentração e do formato.
Como se confirma
Com a aritmética das primeiras secções. O rótulo dá percentagem e volume; a quantidade por gota sai daí.
O que raramente está declarado
O número de gotas do frasco. Sem ele, a conversão de miligramas totais para miligramas por gota é uma estimativa.
E o que o boletim acrescenta
A concentração real do lote, que pode diferir da declarada. É a razão pela qual o boletim vale mais do que o rótulo.
O terceiro número: o que a investigação usa
A avaliação de Sydney
Uma avaliação da evidência sobre quantidades orais baixas, publicada em 2022 pela Lambert Initiative da Universidade de Sydney.
O que encontrou
Que a evidência de efeito é escassa abaixo de determinado patamar, e que os estudos onde os efeitos se tornam claramente evidentes usam quantidades muito superiores às de um produto de consumo.
O que isso implica
Que citar investigação ao lado de um produto de retalho exige comparar as quantidades. Sem isso, a citação descreve outra coisa.
E o que não implica
Que quantidades baixas não façam nada. A avaliação descreve escassez de evidência, o que é diferente de evidência de ausência.
O medicamento, e porque é que não transfere
O que existe
Um medicamento com canabidiol autorizado pela Agência Europeia de Medicamentos, com indicação em formas graves e raras de epilepsia.
A posologia dele
Consta do resumo das características do medicamento, é calculada por peso corporal, é ajustada por um médico e é acompanhada por monitorização.
Porque é que não se transporta
Porque a autorização é da indicação, da população e da quantidade em conjunto. Retirar o número do contexto e aplicá-lo a um suplemento não é uma extrapolação — é outra coisa.
E porque é que os números são tão diferentes
Porque as quantidades usadas em contexto médico são de outra ordem de grandeza face às de um produto alimentar. Compará-los sem dizer isto seria enganador.
Porque é que as tabelas de dosagem que circulam não servem
Não dizem de onde vêm
Uma tabela por peso corporal sem fonte é um número inventado com aspecto de método.
Não distinguem formato
Um óleo sublingual e uma cápsula não se comportam da mesma maneira, e uma tabela única ignora isso.
Não consideram o que mais estás a tomar
É a variável com maior consequência prática, e é a que nenhuma tabela conhece.
E não podiam servir, mesmo que fossem honestas
Porque a decisão depende de informação sobre uma pessoa concreta. Uma página não tem essa informação, e uma tabela genérica finge que ela não é necessária.
A interacção que interessa mesmo
O que está documentado
O canabidiol interage com enzimas hepáticas responsáveis pelo metabolismo de muitos fármacos. Está descrito na literatura e consta da informação do medicamento autorizado.
O que isso pode provocar
Alteração das concentrações de outros medicamentos no organismo, para cima ou para baixo.
Quem tem de saber disto
Qualquer pessoa que tome medicação regular. Não é uma nota de rodapé — é a razão principal pela qual esta conversa pertence a um profissional de saúde.
E como se resolve
Levando a embalagem e o boletim a uma farmácia. É gratuito, demora minutos, e é a única via com informação suficiente para responder.
«Começar devagar» é um conselho sobre a ignorância
O que a frase quer dizer
Que ninguém sabe qual é a quantidade certa para uma pessoa concreta, e que o método na ausência de conhecimento é avançar em passos pequenos.
O que ela admite sem dizer
Que não há um número. Se houvesse, a frase não existiria.
Porque é que aparece em todo o lado
Porque é a única coisa que se pode dizer sem prescrever. É honesta na origem e usada muitas vezes como se fosse orientação.
E o que fazer com ela
Lê-la como o que é: uma descrição da incerteza, e não uma instrução.
O que a composição do frasco muda na conta
O espectro
Um isolado, um espectro largo e um espectro completo têm composições diferentes além do canabidiol. A aritmética do CBD é a mesma; o conteúdo do frasco não.
O portador
É a maior parte do frasco em massa. Não entra na conta do canabidiol e entra em tudo o resto.
O THC total
THC total = delta-9-THC + (THCA × 0,877)
Com o limite de 0,3% aplicável em Portugal ao cânhamo industrial nos termos da Portaria n.º 64/2023. É a linha que decide o enquadramento do produto.
E a divergência entre rótulo e boletim
Acontece, e é a razão pela qual a concentração usada na conta deve ser a do boletim e não a da etiqueta.
O que este site faz, e o que recusa fazer
Faz a aritmética
Converte percentagem e volume em miligramas totais e em preço por miligrama. É cálculo e é verificável.
Publica o que a evidência diz
Com o estudo, o ano e a instituição ao lado.
Recusa dizer quanto tomar
Porque seria aconselhamento clínico sem informação sobre a pessoa, e porque não existe alegação autorizada que o sustente.
E encaminha o que não lhe pertence
Farmacêutico ou médico. É a resposta certa e é a única com competência para o caso concreto.
Como tornar essa conversa útil
Leva a embalagem
Com a concentração, o volume e o lote visíveis.
Leva o boletim
Impresso ou no telemóvel. É o documento que descreve o que está de facto no frasco.
Leva a lista do que tomas
Medicação regular, com nomes e quantidades. É a informação que decide a resposta.
E leva a conta já feita
Miligramas totais e miligramas por gota. Poupa tempo e mostra que a pergunta é concreta.
Um glossário curto, para não voltar atrás
Ingestão diária provisória — limite de segurança estabelecido a título temporário, sujeito a revisão.
Novo alimento — categoria regulamentar europeia que exige autorização prévia à colocação no mercado.
Resumo das características do medicamento — o documento que descreve indicação, posologia e precauções de um medicamento autorizado.
Enzima hepática — proteína do fígado responsável pelo metabolismo de muitos fármacos.
Factor 0,877 — a razão de massas que converte a forma ácida na neutra.
As cinco verificações que servem para tudo
- Há lote na embalagem, e o boletim é desse lote?
- O laboratório é independente e acreditado?
- O CBD total e o THC total estão calculados com o factor 0,877?
- Quantos painéis de contaminantes tem o boletim, e quais?
- Qual é o preço por miligrama, depois de feita a conta?
Como isto se cruza com o resto do site
O preço por miligrama explica a conta que serve para comparar. Ler um rótulo de óleo explica os campos da etiqueta. O registo europeu de alegações explica porque é que não há um número autorizado. E o que se nota e o que preocupa os reguladores descreve o outro lado da avaliação.
O que fazer com isto na prática
Se estás a comparar dois produtos
Converte os dois para miligramas totais e divide pelo preço. É a única comparação que não depende de opinião.
Se um vendedor te sugerir uma quantidade
Está a dar aconselhamento clínico sem habilitação para o fazer. É um sinal sobre a loja.
Se estás só a tentar perceber
Guarda os três números: 2, 25 e 300. A distância entre eles é a resposta honesta à pergunta, e nenhuma tabela a resolve.
E se a decisão for sobre ti
Farmácia ou consulta, com a embalagem, o boletim e a lista da tua medicação.
Um resumo em cinco linhas
- Três números incompatíveis: o limite provisório do regulador, a porção da prateleira e a quantidade da investigação.
- A percentagem não é a quantidade. Percentagem vezes volume vezes dez dá os miligramas totais.
- O medicamento autorizado não transfere — a autorização é da indicação e da quantidade em conjunto.
- A interacção com medicação é a razão principal para falar com um profissional.
- «Começar devagar» descreve a incerteza, não é uma instrução.
Porque não existe uma dose de referência
O que seria uma dose de referência
Um valor estabelecido por avaliação formal, com margem de segurança e população definida.
Porque não existe aqui
Porque exigiria um processo de autorização que não foi concluído para este composto.
O que existe em vez disso
Valores que circulam por hábito comercial, sem origem identificável.
O que isso implica
Que qualquer tabela encontrada numa loja é invenção, ainda que pareça precisa.
O que a variabilidade individual faz a qualquer valor
A absorção
Varia bastante entre pessoas que receberam exactamente o mesmo.
A refeição
A presença de gordura altera de forma marcada a fracção absorvida por via oral.
O formato
Óleo, cápsula e aplicação na pele não entregam a mesma fracção nem no mesmo tempo.
A conclusão
Que um número único não descreveria a realidade mesmo que existisse autoridade para o fixar.
O que o teor declarado vale
O que devia ser
Uma medição do lote, publicada em miligramas totais e por unidade.
O que por vezes é
Um valor de formulação, não verificado no produto acabado.
O que controlos independentes encontraram
Diferenças entre declarado e medido, em ambos os sentidos e com magnitude relevante.
O que isso obriga
A ler o boletim do lote e não o rótulo, quando os dois existem.
Como se lê um rótulo em termos de quantidade
A percentagem
Não informa sozinha. Depende do volume total da embalagem.
O volume
Necessário para converter percentagem em massa.
Os miligramas totais
O número que interessa, e o que permite dividir o preço.
Os miligramas por unidade
Gota, cápsula ou porção. É o que torna qualquer conversa concreta.
A conversão que quase ninguém faz
De percentagem para miligramas
Multiplicar a percentagem pelo volume, com atenção às unidades.
De total para unidade
Dividir pelo número de gotas ou de cápsulas, quando indicado.
Porque isto é preciso
Porque sem estes dois passos não há comparação possível entre produtos.
Porque não vem feito
Porque a percentagem favorece embalagens pequenas e ninguém tem interesse em desfazer isso.
O que a lei permite dizer
Sobre quantidade
Nada que sugira efeito, porque isso constituiria alegação.
Sobre composição
Tudo o que for factual: teor, ingredientes, origem.
Sobre uso
Modo de conservação e de manuseamento, sem indicação de finalidade.
Onde a fronteira se atravessa
Quando a indicação de quantidade vem acompanhada de uma finalidade, ainda que implícita.
Como se contorna a regra
Pela tabela
Uma tabela por peso corporal afirma uma finalidade sem escrever uma frase.
Pelo testemunho
Que descreve quantidade e resultado, e assina em nome de terceiro.
Pela pergunta frequente
Formulada de modo a permitir uma resposta que a loja não podia escrever por iniciativa própria.
Porque isto é relevante
Porque são as formas mais comuns, e passam despercebidas por não usarem o verbo proibido.
O que perguntar a um profissional
Se faz sentido no caso concreto
Que é a única pergunta que importa e a única que a loja não pode responder.
As interacções
Com o que já se toma. É a parte com base documental mais sólida.
O que observar
E em que prazo, se a decisão for de experimentar.
Porque levar a embalagem e o boletim
Porque permitem falar em miligramas em vez de em percentagens.
O que verificar antes de comprar
Os miligramas totais
E por unidade.
O boletim
Com lote e data coincidentes com a embalagem.
A composição completa
Incluindo o óleo veiculante.
O preço por miligrama
Que é a comparação que remove o efeito do formato.
O que fica por dizer
Qual a quantidade adequada
Não existe valor estabelecido, e nenhuma página comercial tem autoridade para o fixar.
Se mais é melhor
Não há base para afirmar nem para negar em nenhum sentido.
O que o produto faz
Não existe alegação autorizada na União que o permita descrever.
O que recomendamos
Falar com quem tem competência clínica, levando números em vez de percentagens.
Perguntas frequentes
Quanto devo então tomar?
Esta página não responde a isso, de propósito. A resposta depende de informação sobre ti que um site não tem, e a conversa é com um farmacêutico ou um médico.
Quantos miligramas tem uma gota?
Depende da concentração e do frasco. A conta está na secção da aritmética: total a dividir pelo número de gotas, com cerca de vinte gotas por mililitro como aproximação.
Porque é que o limite da EFSA é tão baixo?
É um limite de segurança provisório, com lacunas de dados assinaladas, e não uma quantidade eficaz. São perguntas diferentes.
As tabelas por peso corporal servem?
Não têm fonte, não distinguem formato e não conhecem a tua medicação. Parecem método e não são.
Devo dizer ao meu médico?
Sim, e sobretudo se tomas medicação regular. A interacção com enzimas hepáticas está documentada e é o motivo prático mais importante desta página.