O preço por miligrama, e como se faz a conta
Nenhuma loja de CBD portuguesa mostra o preço por miligrama. Mostram o preço do frasco, a percentagem, e por vezes o total em miligramas — mas nunca a divisão, que é a única forma de saber qual dos produtos é mais barato.
A conta demora trinta segundos e muda a conclusão em mais de metade dos casos. Esta página explica como se faz, onde engana, e o que ela não mede.
A fórmula
Em dois passos
1. Miligramas totais na embalagem:
mg = volume (ml) × percentagem × 10
2. Preço por miligrama:
€/mg = preço ÷ mg
Um exemplo completo
Um frasco de 10 ml a 5% por 30 €.
mg = 10 × 5 × 10 = 500 mg €/mg = 30 ÷ 500 = 0,060 €/mg
O caso que mostra porque é que a conta importa
| Frasco A | Frasco B | |
|---|---|---|
| Volume | 10 ml | 30 ml |
| Concentração | 5% | 10% |
| Preço | 30 € | 90 € |
| CBD total | 500 mg | 3000 mg |
| €/mg | 0,060 | 0,030 |
O frasco B custa o triplo na prateleira e metade por miligrama.
Qualquer comparação feita pelo preço da etiqueta chega à conclusão exactamente errada — e é assim que a maior parte das compras é feita.
De onde vêm os números
O volume
Está no rótulo, em mililitros. Se não estiver, a conta não se faz.
A percentagem
Também no rótulo. Mas há uma armadilha: confirma-a no boletim.
E porque é que se confirma
Porque o total de canabidiol calcula-se a partir das linhas individuais, com o factor de conversão:
CBD total = CBD + (CBDA × 0,877)
Muitas descrições de produto somam CBD e CBDA directamente, sem aplicar o factor. Isso sobrestima o produto — sempre para cima, sempre a favor de quem vende.
Um extracto com 7% de CBD e 3% de CBDA é frequentemente anunciado como «10%». A conta correcta dá 9,63%.
O preço
O preço final, com IVA e sem contar portes. Os portes distribuem-se por encomenda, não por produto, e distorcem a comparação quando se compara produtos de preços muito diferentes.
Onde a conta engana
Não compara espectro
Um isolado e um extracto de espectro completo com o mesmo €/mg não são o mesmo produto. O primeiro é canabidiol sozinho; o segundo tem canabinóides menores e terpenos.
Não compara portador
MCT, azeite e óleo de sementes de cânhamo têm sabor, estabilidade e prazo diferentes. E o portador é noventa por cento de um frasco a 10%.
Não compara análise
Um produto com quatro painéis de contaminantes e outro com um podem ter o mesmo €/mg. Estás a pagar o mesmo por informação muito diferente.
Não compara entre formatos
Um óleo a 10% e uma resina a 30% não se comparam por percentagem nem, com utilidade, por €/mg. São matrizes diferentes com usos diferentes.
E não conta o que se estraga
Um frasco grande é mais barato por miligrama e degrada-se durante mais tempo em casa. Se metade oxidar antes de ser usada, o €/mg efectivo — o do produto consumido em condições — é pior do que o do frasco pequeno.
O que a conta mede bem
Dentro da mesma categoria
Dois óleos, dois e-líquidos, duas cápsulas. Aí a comparação é directa e informativa.
Dentro do mesmo espectro
Dois isolados, ou dois extractos de espectro completo. Aí o €/mg isola a variável do preço.
Como primeiro filtro
Elimina os candidatos claramente piores em trinta segundos, e deixa dois ou três para comparar a sério pelos boletins.
Uma grelha para preencher
| Produto A | Produto B | Produto C | |
|---|---|---|---|
| Volume (ml) | |||
| Percentagem | |||
| mg totais | |||
| Preço | |||
| €/mg | |||
| Espectro (do boletim) | |||
| Portador | |||
| Boletim é do lote? | |||
| Quantos painéis? |
Quase sempre acontece uma de duas coisas. Ou os três empatam no €/mg e separam-se nas últimas quatro linhas — e aí sabes o que estás a pagar a mais. Ou um é muito mais barato e tem as últimas quatro linhas vazias, e aí também sabes.
Porque é que ninguém publica isto
Porque é uma comparação que não favorece quem vende
Um catálogo ordenado por €/mg põe em cima o que dá menos margem. É a razão pela qual as lojas ordenam por «mais popular» e «recomendado», que são categorias sem definição.
Porque exige declarar o volume e a percentagem
E há produtos em que um dos dois falta, precisamente para impedir a conta.
E porque expõe as embalagens pequenas
Frascos de 10 ml a percentagens baixas têm quase sempre o pior €/mg do catálogo, e são frequentemente os produtos de entrada.
Três exemplos com números do mercado
Os valores abaixo são construídos a partir de gamas correntes no mercado europeu, e servem para mostrar como a conta muda a leitura.
Exemplo 1: a percentagem que engana
| A | B | |
|---|---|---|
| Volume | 10 ml | 10 ml |
| Percentagem | 5% | 20% |
| Preço | 20 € | 60 € |
| mg totais | 500 | 2000 |
| €/mg | 0,040 | 0,030 |
O produto de 20% parece três vezes mais caro e é 25% mais barato por miligrama. É o padrão mais comum: as concentrações altas quase sempre ganham na conta.
Exemplo 2: quando o barato é mesmo barato
| A | B | |
|---|---|---|
| Volume | 30 ml | 10 ml |
| Percentagem | 10% | 10% |
| Preço | 75 € | 30 € |
| mg totais | 3000 | 1000 |
| €/mg | 0,025 | 0,030 |
Aqui a diferença é modesta. O frasco grande ganha, e a decisão passa a depender de quanto tempo o produto vai durar em casa.
Exemplo 3: quando o €/mg não decide
| A | B | |
|---|---|---|
| €/mg | 0,040 | 0,044 |
| Espectro | isolado | completo |
| Painéis | 3 | 5 |
| Perfil de terpenos | não | sim |
| Boletim do lote | genérico | do lote |
Onze por cento de diferença no €/mg, e o produto B traz duas análises adicionais, o perfil da planta e um boletim que corresponde ao frasco.
Aqui a conta serviu para mostrar que os dois estão próximos. A decisão faz-se nas outras linhas — e é exactamente para isso que o €/mg é o primeiro filtro e não o último.
O que fazer com uma folha de cálculo
Se compras com alguma regularidade, uma tabela simples com sete colunas — produto, volume, percentagem, mg, preço, €/mg, e data — resolve a maior parte das decisões futuras.
Ao fim de meia dúzia de compras tens uma referência pessoal do que é caro e do que é barato no teu mercado, que é mais útil do que qualquer média publicada.
Um glossário curto, para não voltar atrás
€/mg — preço a dividir pelo total de miligramas de canabidiol. A comparação que é aritmética.
Factor 0,877 — a razão de massas que converte a forma ácida na neutra. Sem ele, o total está sobrestimado.
Portador — a gordura em que o extracto está dissolvido. O ingrediente maioritário.
Espectro — isolado, largo ou completo. Confirma-se na tabela de canabinóides do boletim.
LOQ — limite de quantificação. A concentração mais baixa a que o método atribui um valor fiável.
As cinco verificações que servem para tudo
- Há lote na embalagem, e o boletim é desse lote?
- O laboratório é independente e acreditado?
- O CBD total e o THC total estão calculados com o factor 0,877?
- Quantos painéis de contaminantes tem o boletim, e quais?
- Qual é o preço por miligrama, depois de feita a conta?
Como isto se cruza com o resto do site
O que o preço mede explica a estrutura de custos por trás do número. O factor 0,877 explica porque é que o total tem de ser calculado e não copiado. E porque é que dois produtos iguais diferem descreve as variáveis que o €/mg não capta.
O que fazer com isto na prática
Se estás a comparar
Faz a conta para todos os candidatos antes de olhar para qualquer outra coisa. Elimina metade.
Se estás a avaliar uma loja
Vê se o volume e a percentagem estão sempre declarados. Uma loja em que um dos dois falta com frequência está a dificultar a conta, deliberadamente ou não.
Se estás só a tentar perceber
Guarda a fórmula: volume × percentagem × 10 = miligramas. É a única aritmética que este sector exige, e resolve mais decisões do que qualquer outro conhecimento.
O que este site publica, e porquê
Calculamos o €/mg a partir de volume, concentração e preço — nunca copiado do vendedor — e ordenamos por esse valor, do mais barato para o mais caro. Um €/mg introduzido à mão é o campo onde um erro de digitação vira uma comparação falsa, e por isso o valor é sempre derivado.
E quando o produto não é um óleo
Nos e-líquidos
A conta é igual, com uma diferença de unidade: a concentração vem tipicamente em mg/ml, e não em
percentagem. O total é volume × mg/ml.
Nas cápsulas
Mais simples ainda: o rótulo declara os miligramas por cápsula e o número de cápsulas. O total é a multiplicação directa.
Nas resinas e flores
A percentagem refere-se à massa, e o total é gramas × percentagem × 10. A conta funciona; a
comparação com outros formatos é que perde significado.
Nos cosméticos
Aqui o €/mg tem pouca utilidade. A quantidade de canabidiol num creme não se relaciona de forma simples com o que interessa avaliar, e o enquadramento aplicável é outro.
Um resumo em cinco linhas
- O boletim tem de ser do lote que vais receber. Sem isso, é um documento sobre outra produção.
- O CBD e o THC totais calculam-se com o factor 0,877 sobre a fracção ácida. A soma directa sobrestima sempre, e sempre a favor de quem vende.
- Os quatro painéis de contaminantes contam-se: metais, pesticidas, micotoxinas e solventes. O último só faz sentido em produtos obtidos com solvente — e é o que mais falta neles.
- O preço por miligrama é a única comparação que é aritmética e não opinião. Faz-se a partir do volume, da percentagem e do preço, nunca a partir de um número apresentado por quem vende.
- Em Portugal o limite é 0,3% de THC total para o cânhamo industrial, nos termos da Portaria n.º 64/2023. E um concentrado não herda o estatuto da matéria-prima: mede-se no produto final.
Como se calcula
Encontrar os miligramas totais
No rótulo ou no boletim. Se só houver percentagem e volume, converte-se.
Dividir o preço
Pelo total, incluindo portes quando fazem diferença.
Comparar
Ofertas de volumes e concentrações diferentes ficam na mesma escala.
O que costuma acontecer
A ordem de preferência muda, e o produto que parecia caro deixa de o ser.
Porque a percentagem confunde
Depende do volume
Uma percentagem alta num frasco pequeno pode dar menos massa do que uma baixa num grande.
Parece uma medida de qualidade
E não é. É uma proporção.
Favorece o vendedor
Porque permite apresentar um número grande sem entregar mais conteúdo.
O que resolve
Converter antes de comparar. Sempre.
O que entra no preço
A matéria-prima
Uma fracção menor do que se supõe.
O processamento
Cada passo acrescenta custo e reduz massa.
As análises
Por lote, com custo por unidade a descer com o volume.
Tudo o resto
Embalagem, transporte, plataforma, publicidade e margem.
Quando o preço alto tem explicação
Painéis completos
Que a maioria não faz.
Rastreabilidade
Que exige trabalho administrativo real.
Processo dispendioso
Com rendimento baixo por razões técnicas.
O que têm em comum
São verificáveis. Um preço alto sem nenhuma destas coisas não tem explicação.
Quando o preço baixo merece atenção
Pode ser eficiência
Volume, integração, estrutura leve.
Pode ser omissão
Análises não feitas, painéis incompletos.
Como se distingue
Pelo boletim, e não pelo preço.
O que não fazer
Assumir qualquer das leituras sem verificar.
O erro de comparar formatos
Óleo e cápsulas
Comparam-se por miligrama, com a ressalva da absorção.
Flor e extractos
Idem, com a ressalva do modo de uso.
O que a divisão capta
O custo do conteúdo.
O que não capta
Diferenças de absorção e de perfil, que devem ser ditas quando se compara.
O papel dos portes
Invertem comparações
Com frequência, sobretudo em compras pequenas.
Devem entrar na conta
Porque fazem parte do que se paga.
O que muitos comparadores ignoram
Justamente isso.
Como se resolve
Somando antes de dividir.
O que a divisão revela sobre uma loja
Se o preço por miligrama é constante
Entre produtos da mesma casa, há coerência.
Se varia muito
Há posicionamento, e vale a pena perceber porquê.
Se o teor não está em miligramas
A loja não quer que se divida.
O que isso significa
Que a facilidade de calcular é, em si, um sinal.
Como registar a comparação
Numa folha simples
Produto, volume, teor total, preço, portes, preço por miligrama.
Ao longo do tempo
Para ver como cada casa evolui.
Com o boletim ao lado
Porque o teor declarado e o medido podem divergir.
Para que serve
Para que a segunda compra seja melhor informada do que a primeira.
O que fica por dizer
Qual o preço justo
Não existe referência publicada, e a comparação relativa é tudo o que há.
Se o mais caro é melhor
Não há correlação demonstrada.
O que o produto faz
Não existe alegação autorizada na União que o permita descrever.
O que recomendamos
Dividir sempre, incluir portes, e comparar com o boletim ao lado.
O caso das promoções
Descontos por quantidade
Que mudam o preço por miligrama e devem entrar na conta.
Ofertas de portes
Que também mudam.
Pacotes
Onde o preço por miligrama pode ser pior do que a soma das partes.
O que fazer
Calcular com os valores efectivos, e não com os anunciados.
O que a divisão não mede
A qualidade
Que se mede no boletim.
A absorção
Que difere entre formatos.
A constância
Que só se vê comparando lotes ao longo do tempo.
Porque ainda assim vale a pena
Porque elimina de imediato as ofertas desproporcionadas, que são muitas.
Como se compara o custo real
Somar tudo
Preço, portes e qualquer taxa aplicável.
Dividir pelos miligramas
Totais, medidos e não declarados, quando houver boletim.
Comparar na mesma escala
Ofertas de formatos diferentes ficam comparáveis.
O que a conta revela
Frequentemente, que o produto anunciado como económico não o é.
O que a conta revela sobre uma casa
Coerência interna
Se o preço por miligrama é semelhante entre produtos da mesma casa.
Posicionamento
Se varia muito, há uma decisão comercial por trás que vale a pena perceber.
Transparência
Se o teor está em miligramas, a casa não teme a divisão.
O que isso permite
Escolher entre casas antes de escolher entre produtos.
Onde a conta muda de resultado
Em embalagens grandes
Onde a percentagem baixa esconde uma massa total superior.
Em promoções por quantidade
Que alteram o preço efectivo por miligrama.
Com portes incluídos
Que em compras pequenas podem dominar a comparação.
O que isso significa
Que a mesma oferta pode ser a melhor ou a pior conforme o que se some antes de dividir.
O que a conta não decide
Se o produto serve
Que depende do formato e de outras considerações.
Se o teor é real
Que depende do boletim.
Se a casa é constante
Que só um histórico de lotes revela.
Para que serve então
Para eliminar de imediato as ofertas desproporcionadas, que são muitas.
Um exemplo aritmético
Duas ofertas
Uma a dez por cento em dez mililitros; outra a cinco por cento em trinta.
A massa total
A primeira dá mil miligramas; a segunda dá mil e quinhentos.
O preço por miligrama
Inverte-se face à impressão que a percentagem dava.
O que isto mostra
Que a percentagem sozinha ordena mal as ofertas, e que a divisão as reordena.
Perguntas frequentes
Devo incluir os portes?
Não, ao comparar produtos. Os portes distribuem-se por encomenda e distorcem a comparação. Inclui-os ao decidir a compra final.
E se o produto não declarar a percentagem?
Declarará os miligramas totais, provavelmente. Se não declarar nenhum dos dois, não é comparável e essa é a informação relevante.
O mais barato por miligrama é o melhor?
É o mais barato. Se é o melhor depende do espectro, do portador, dos painéis e da data — que o €/mg não mede.
Porque é que os frascos grandes são sempre mais baratos por mg?
Porque o custo da embalagem, do rótulo e da expedição se dilui. É real, e só compensa se o produto for consumido dentro da validade.
Isto aplica-se a resinas e flores?
A aritmética aplica-se; a utilidade é menor, porque a comparação entre matrizes diferentes tem menos significado. Dentro da mesma categoria, funciona.