Porque é que o etanol se usa a menos vinte graus
O etanol dissolve quase tudo o que há numa planta. É por isso que se usa gelado. À temperatura ambiente arrasta clorofila, ceras e açúcares junto com os canabinóides; a menos vinte ou menos quarenta graus, deixa a maior parte disso para trás.
A temperatura não é um detalhe de processo. É a variável que decide se o extracto sai limpo ou se precisa de três operações de purificação a seguir. Esta página explica porquê, e o que fica por resolver mesmo quando o frio faz o seu trabalho.
⚠️ Nota de enquadramento. A autorização de cultura da DGAV cobre fibra e semente; a inflorescência não está lá, e os extractos seguem o mesmo enquadramento. Esta página descreve um processo industrial e produtos que existem noutros mercados.
Porque é que o etanol é o solvente escolhido
É polar, e isso tem duas faces
O etanol dissolve compostos polares e apolares. Serve para os canabinóides, que são apolares, e serve igualmente para açúcares e clorofila, que não são. A vantagem é a mesma coisa que o problema.
É barato e recuperável
Recupera-se por evaporação e reutiliza-se. Numa operação industrial, o custo do solvente por lote aproxima-se do custo de o recuperar, não do de o comprar.
É aceite em contextos alimentares
Ao contrário de hidrocarbonetos, tem uso estabelecido em produção alimentar. Isso simplifica o enquadramento regulamentar da instalação e reduz as exigências de segurança face a solventes inflamáveis mais voláteis.
E dispensa pressão
Trabalha à pressão atmosférica. Não exige um vaso pressurizado, o que baixa consideravelmente o custo de entrada face à extracção com dióxido de carbono supercrítico.
O que a temperatura faz
A solubilidade não é igual para todos os compostos
Cada composto tem a sua curva de solubilidade em função da temperatura. Descer a temperatura não reduz a extracção de tudo na mesma proporção — reduz muito a de uns e pouco a de outros.
O que o frio deixa para trás
Clorofila, sobretudo. É o composto que mais penaliza um extracto: dá cor escura, sabor amargo e não acrescenta nada. A frio, dissolve-se mal.
Ceras cuticulares, em parte. São a camada protectora da superfície da planta, e a frio ficam largamente insolúveis.
O que continua a dissolver-se
Canabinóides e a maior parte dos terpenos. São o objectivo, e mantêm solubilidade suficiente mesmo a temperaturas muito baixas.
E qual é o preço a pagar
Tempo e energia. Arrefecer volumes grandes de etanol e manter a temperatura durante o contacto é o custo operacional dominante do método.
O processo, passo a passo
Preparação da matéria-prima
Material seco e moído grosseiramente, ou congelado em fresco. A granulometria decide a área de contacto: fino demais dificulta a filtração, grosso demais reduz a extracção.
Arrefecimento
Etanol e matéria-prima são arrefecidos separadamente até à temperatura de trabalho. Misturar sem arrefecer os dois anula a lógica do método nos primeiros segundos de contacto.
Contacto
Curto. Minutos, não horas. Quanto mais tempo o solvente permanece em contacto, mais compostos indesejados consegue dissolver apesar do frio.
Separação e recuperação
O sólido é separado por filtração ou centrifugação, e o etanol é evaporado a baixa pressão para permitir temperaturas de evaporação baixas.
O que sobra para fazer depois
A winterização, quando é preciso
Se a extracção não foi suficientemente fria, as ceras vieram com o resto. A winterização dissolve-as de novo em etanol, arrefece, e filtra o que precipita.
Uma extracção bem feita a frio reduz a necessidade desta etapa — não a elimina sempre.
A remoção do solvente
É a etapa crítica. Evapora-se sob vácuo, e a qualidade do equipamento decide quanto fica.
A descarboxilação, se aplicável
Se o produto final tiver de estar na forma neutra, aplica-se calor controlado. A conversão segue a relação de massas conhecida:
CBD total = CBD + (CBDA × 0,877)
E a normalização da concentração
O extracto é diluído num óleo portador até à concentração de rótulo. É aqui que a escolha do portador entra, e é uma escolha que muda o produto.
A tabela dos três caminhos com solvente
| Etanol a frio | CO2 supercrítico | Hidrocarboneto | |
|---|---|---|---|
| Pressão de trabalho | atmosférica | muito alta | moderada |
| Custo do equipamento | baixo a médio | alto | médio |
| Selectividade | média, dependente da temperatura | ajustável | alta |
| Ceras extraídas | poucas, se muito frio | poucas | poucas |
| Clorofila extraída | pouca, se muito frio | muito pouca | muito pouca |
| Escala típica | alta | média a alta | média |
| Painel de solventes | indispensável | indispensável | indispensável |
O que o boletim mostra
O painel de solventes residuais
É a análise que descreve o risco específico deste método. O etanol tem limites definidos em farmacopeia como solvente de classe 3 — a classe de menor toxicidade — mas «menor» não é «nenhuma».
Como se lê a linha do etanol
Valor medido e limite. O que interessa é a margem: um valor a metade do limite descreve um processo com folga; um valor a noventa por cento descreve um processo no fio da navalha.
O que mais pode aparecer
Solventes de lavagem e resíduos de processo que não vieram do etanol. Um painel curto que só reporta etanol pode estar a omitir o que interessava ver.
E a cor, que não está no boletim
Um extracto muito escuro indica clorofila. Não é um contaminante perigoso, mas é um indicador directo de que o frio não foi suficiente ou o contacto foi longo demais.
Os erros de leitura mais comuns
«Etanol é natural, logo é seguro»
O solvente é o mesmo composto que existe em bebidas fermentadas, mas o que interessa é a concentração residual num produto concentrado — e isso mede-se, não se assume.
«Extracção a frio significa que não houve calor nenhum»
O frio aplica-se ao contacto. A recuperação do solvente envolve sempre calor, ainda que sob vácuo para o manter baixo.
«Extracto escuro é mais completo»
É mais rico em clorofila. Espectro completo mede-se pelo perfil de canabinóides e terpenos, não pela cor.
E «se diz full spectrum, tem tudo»
A expressão não tem definição legal. Um perfil publicado com valores por composto é a única forma de verificar o que a palavra afirma.
Do extracto ao frasco que se compra
O extracto não é o produto
O que sai da extracção é matéria-prima industrial: uma pasta concentrada, com percentagens de canabinóides muito acima de qualquer rótulo de retalho. Nunca é vendida assim.
A diluição decide o rótulo
O extracto é incorporado num óleo portador até à concentração anunciada. Um frasco de dez mililitros a 10% contém aproximadamente mil miligramas de canabidiol; o resto é portador.
Isso quer dizer que a maior parte do que está no frasco não veio da extracção — veio da diluição.
Porque é que o portador conta tanto
Porque é a fracção dominante em massa. A escolha entre triglicéridos de cadeia média, azeite ou óleo de semente de cânhamo altera sabor, viscosidade e prazo de validade do produto acabado.
E porque é que a conta se faz no fim
O preço por miligrama só é comparável depois de conhecidos volume e concentração. Dois frascos com o mesmo preço e concentrações diferentes são produtos com preços por miligrama muito diferentes, e a etiqueta não faz essa conta por ninguém.
As perguntas que valem a pena fazer a um produtor
«A que temperatura foi feita a extracção?»
Um número. Quem produz sabe-o de cor; quem revende raramente o tem.
«Qual é o valor de etanol residual no boletim, e qual é o limite?»
Dois números, e a margem entre eles. É a pergunta que separa um processo controlado de um processo que apenas passou.
«Houve winterização?»
Se houve, a extracção não foi suficientemente fria — o que não é defeito, mas é informação sobre o processo.
E «qual é o portador, e em que proporção?»
Descreve a maior parte do frasco. Uma resposta vaga aqui é uma resposta vaga sobre quase todo o produto.
Um glossário curto, para não voltar atrás
Winterização — dissolver de novo em etanol a frio e filtrar as ceras que precipitam.
Solvente de classe 3 — categoria de solventes de menor toxicidade reconhecida em farmacopeia, onde o etanol se inclui.
LOQ — limite de quantificação: a concentração mais baixa a que o método atribui um valor fiável.
Descarboxilação — a perda do grupo ácido que converte CBDA em CBD, com calor.
Factor 0,877 — a razão de massas dessa conversão.
As cinco verificações que servem para tudo
- Há lote na embalagem, e o boletim é desse lote?
- O laboratório é independente e acreditado?
- O CBD total e o THC total estão calculados com o factor 0,877?
- Quantos painéis de contaminantes tem o boletim, e quais?
- Qual é o preço por miligrama, depois de feita a conta?
Como isto se cruza com o resto do site
Os solventes residuais no boletim explicam o painel linha a linha. A extracção com CO2 supercrítico descreve o caminho alternativo com solvente. O destilado e o isolado explicam o que acontece a jusante. E o óleo portador explica a diluição final.
O que fazer com isto na prática
Se estás a comparar dois produtos
Compara os painéis de solventes, não as declarações de método. O método é uma afirmação; o painel é uma medição.
Se estás a avaliar um vendedor
Pergunta a temperatura de extracção e o limite reportado para o etanol. Quem sabe responder tem acesso à ficha de processo; quem não sabe está a revender sem informação.
Se estás só a tentar perceber
Guarda a ideia central: a temperatura é o filtro. No etanol, o que se dissolve depende do frio, e por isso o frio é o processo — não um pormenor dele.
O que este site publica, e porquê
Exigimos painel de solventes em qualquer produto obtido com solvente, seja qual for o solvente. É uma regra de dados, aplicada no build, e não depende de quem escreve a ficha.
Um resumo em cinco linhas
- O etanol dissolve quase tudo; o frio é o que o torna selectivo.
- A clorofila e as ceras são o que o frio deixa para trás, e são o que mais penaliza um extracto.
- O contacto é curto: minutos, não horas.
- O painel de solventes é indispensável, e o que interessa é a margem face ao limite.
- Um extracto herda o limite de 0,3% de THC total com a concentração multiplicada.
Porque o frio importa neste processo
O solvente dissolve quase tudo
Incluindo clorofila, ceras e açúcares, que depois é preciso remover.
O frio reduz a solubilidade
Sobretudo dos compostos que não se querem.
O que isso poupa
Passos de limpeza posteriores, cada um dos quais custa massa e perfil.
Onde está o limite
O frio também reduz o rendimento. É o compromisso central do processo.
Como se mantém o frio
Pré-arrefecendo o solvente
Durante tempo suficiente para que todo o volume atinja a temperatura.
Pré-arrefecendo o material
Que de outro modo aquece o solvente ao entrar em contacto.
Trabalhando depressa
Contacto curto, para que a temperatura não suba durante a operação.
O erro mais comum
Material à temperatura ambiente colocado em solvente frio, o que anula o efeito.
O tempo de contacto
Curto
Dissolve o que se dissolve mais depressa, que é sobretudo o que interessa.
Longo
Dissolve também o que se dissolve devagar, que é sobretudo o que não interessa.
A ordem de grandeza
Minutos, e não horas.
O que isso implica
Que o tempo é tão determinante como a temperatura, e é a variável mais fácil de errar.
A separação do material vegetal
Por filtração
Em volumes pequenos.
Por centrifugação
Em volumes maiores, por ser mais rápida e mais completa.
Porque a rapidez importa
Porque enquanto houver contacto, continua a dissolver-se o que não se quer.
O que fica
Material vegetal com solvente residual, que também tem de ser removido antes de descartar.
A remoção do solvente
Por evaporação
A pressão reduzida, para que baste temperatura baixa.
Quanto tempo
Horas a dias, conforme o volume.
O que se perde
Parte da fracção volátil, que sai com o solvente.
Como se atenua
Captando essa fracção em separado e devolvendo-a no fim.
O painel de solventes
É obrigatório aqui
Porque foi usado solvente e é preciso demonstrar que foi removido.
O que deve conter
O solvente efectivamente usado, com valor medido, limite aplicável e método.
O que não serve
Um painel genérico que não inclua o solvente do processo.
Porque isto falha tanto
Porque o processo raramente é declarado, e sem ele não se sabe que painel exigir.
O que os limites dependem
Da classificação da substância
Que decorre de avaliação e não de hábito comercial.
Da classe em que se insere
Cada uma com limites próprios, que diferem por ordens de grandeza.
Do que consta do certificado
Valor e limite ao lado, sem o que o número não se interpreta.
O que se deve exigir
O par valor-limite, sempre.
O que este processo não resolve
Contaminantes do material
Que se concentram, como em qualquer extracção.
Qualidade da matéria-prima
Que atravessa qualquer processo.
A necessidade dos outros painéis
Que se mantêm todos.
O que resolve
Um rendimento alto com equipamento comparativamente acessível.
Como se compara com outros processos
Rendimento
Alto, dos mais altos disponíveis.
Selectividade
Baixa por natureza, compensada pelo frio.
Painéis
Exige o de solventes, ao contrário dos processos mecânicos e do fluido pressurizado.
Custo
Inferior ao do equipamento de pressão, superior ao dos métodos mecânicos.
O que fica por dizer
Se é o melhor processo
Depende do que se procura e da escala. É o mais usado por razões económicas.
Quanto frio é preciso
Circulam valores sem medição publicada que os sustente.
O que o produto faz
Não existe alegação autorizada na União que o permita descrever.
O que recomendamos
Verificar que o painel de solventes cobre o solvente efectivamente usado.
A humidade do material de partida
Porque vale a pena secar antes
A água dissolve-se no solvente e altera as suas propriedades, reduzindo a selectividade.
O que a água provoca depois
Complica a evaporação, porque sai a ritmo diferente do solvente.
A alternativa
Material congelado, onde a água está retida em gelo e não passa para o solvente.
O que isso permite
Trabalhar material fresco sem o secar, preservando a fracção volátil.
O que se faz ao material vegetal que sobra
Seca-se
Para que o solvente residual saia.
Mede-se
Para saber quanto obsteve por extrair, se o processo o justificar.
Descarta-se ou reprocessa-se
Conforme o teor que ainda contenha.
Porque se menciona
Porque também carrega solvente e não pode ser descartado sem esse cuidado.
Perguntas frequentes
Porque é que se usa etanol e não outro solvente?
Custo, recuperabilidade e aceitação em contexto alimentar. Não é o mais selectivo — é o mais praticável à escala.
Menos vinte ou menos quarenta graus?
Ambos aparecem. Mais frio dá extracto mais limpo e custa mais em energia e em tempo de arrefecimento.
A winterização é sempre necessária?
Não. Uma extracção suficientemente fria reduz muito a fracção de ceras, e há processos que a dispensam.
O etanol residual é perigoso?
É um solvente de classe 3, a categoria de menor toxicidade, com limites definidos. O que interessa é o valor medido e a margem face a esse limite.
Um extracto claro é sempre melhor?
Indica menos clorofila, o que é bom para o sabor. Não diz nada sobre contaminantes nem sobre o perfil de canabinóides.