Quanto sai de um quilo de flor, método a método
Um quilo de flor não dá um quilo de nada. Dá, consoante o método, entre algumas dezenas e algumas centenas de gramas — e a diferença entre esses extremos explica quase toda a variação de preço que se vê nas prateleiras.
O rendimento é a variável menos discutida e a que mais decide o custo. Esta página dá as ordens de grandeza, explica o que as faz variar, e mostra porque é que rendimento alto nem sempre é bom.
⚠️ Nota de enquadramento. A autorização de cultura da DGAV cobre fibra e semente; a inflorescência não está lá, e resinas e extractos seguem o mesmo enquadramento. Esta página descreve processos industriais e produtos que existem noutros mercados.
O que se está mesmo a medir
Massa de produto por massa de entrada
É a definição operacional: quantos gramas saem por cada quilo que entra. Simples de calcular e fácil de manipular.
Porque é que é fácil de manipular
Porque «produto» não é uma categoria fixa. Recolher mais massa incluindo mais tecido vegetal aumenta o rendimento e baixa a qualidade — e o número sobe na mesma.
A alternativa honesta
Rendimento de canabinóides: quantos gramas de canabinóide saem por cada grama que entrou. Elimina a manipulação por massa inerte, e quase nunca é o número que se publica.
E porque é que a distinção importa
Porque dois produtores com o mesmo rendimento declarado podem estar a descrever operações muito diferentes. Sem saber qual dos dois números está a ser reportado, a comparação não existe.
As ordens de grandeza, método a método
| Método | Rendimento em massa | O que sai |
|---|---|---|
| Peneiração a seco | 2 a 8% | pó, várias fracções |
| Separação com gelo | 2 a 6% | fracções por malha |
| Rosin a partir de flor | 10 a 20% | resina |
| Rosin a partir de bubble hash | 50 a 75% do hash | resina de topo |
| Extracção a etanol | 10 a 20% | extracto bruto |
| Extracção com CO2 | 8 a 15% | extracto bruto |
| Charas | fracções de por cento | resina, à mão |
Os intervalos são largos de propósito. Genética, qualidade da colheita, secagem e parametrização do processo movem qualquer destes números dentro do intervalo, e por vezes para fora dele.
Porque é que os intervalos são tão largos
A genética
Plantas diferentes produzem quantidades de resina muito diferentes. É o factor de maior peso, e é decidido antes de qualquer processamento.
A parte da planta
Flor de topo, flor pequena e aparas têm densidades de tricomas em ordem decrescente. Um rendimento calculado sobre aparas não é comparável a um calculado sobre flor.
A secagem e o manuseamento
Cada movimento parte tricomas e deixa-os no fundo do contentor. Material manuseado muitas vezes chega ao processamento já com parte da resina perdida.
E a parametrização
Temperatura, tempo, pressão, número de lavagens. Cada método tem uma curva de compromisso entre massa recuperada e qualidade — e o produtor escolhe um ponto nessa curva.
O compromisso que nenhum método evita
Mais massa, menos pureza
É a regra geral. Empurrar qualquer método para recuperar mais implica aceitar mais do que não interessa: tecido vegetal na separação mecânica, clorofila e ceras na extracção com solvente.
Onde está o ponto óptimo
Não existe um. Depende do que se vai fazer com o material. Quem vende fracção de topo pára cedo; quem vende matéria-prima para refinação posterior continua.
O que isso faz aos números publicados
Torna-os incomparáveis entre operações com objectivos diferentes. Um rendimento de 3% numa operação de topo pode representar mais valor do que 8% numa operação de volume.
E como se lê isso do lado de fora
Pelo produto. Fracção identificada por malha e por lavagem indica uma operação que parou cedo. Material vendido a granel sem identificação indica uma que não parou.
O caso especial do rosin
Porque é que o número parece alto
Porque o denominador é diferente. Prensar bubble hash e obter 60% não significa 60% da flor — significa 60% de um material que já custou 4% da flor.
A conta encadeada
Um quilo de flor dá cerca de 40 gramas de bubble hash de boa qualidade. Prensar esses 40 gramas dá cerca de 25 gramas de rosin.
O rendimento real face à flor é de aproximadamente 2,5%, e é essa a conta que explica o preço.
O que a temperatura de prensagem muda
Mais calor liberta mais massa e degrada mais a fracção volátil. Menos calor dá menos produto e melhor aroma. É o compromisso da secção anterior, aplicado a uma variável só.
E porque é que o número raramente se publica
Porque a conta encadeada é pouco lisonjeira. Publicar 60% é comercialmente melhor do que publicar 2,5%, e as duas afirmações são verdadeiras sobre denominadores diferentes.
Como o rendimento chega ao preço
O custo da matéria-prima divide-se
Se um quilo de flor custa determinado valor e dá 30 gramas de produto, cada grama carrega um trigésimo desse custo antes de qualquer outra despesa.
O trabalho não escala com o rendimento
Uma lavagem com gelo demora o mesmo tempo independentemente de recuperar 2% ou 5%. O custo de mão-de-obra por grama de produto é inversamente proporcional ao rendimento.
O equipamento amortiza-se por hora, não por grama
Uma prensa ou um extractor custam o mesmo por hora de operação. Rendimento baixo significa mais horas de máquina por quilo de produto.
E é por isso que a conta final é sempre por miligrama
O preço por grama de produto não é comparável entre categorias. O preço por miligrama de canabinóide é a única comparação que sobrevive à diferença de concentração.
Os números que enganam
«Rendimento de 20%»
Sobre o quê? Flor, aparas, ou material já processado? Sem denominador, a percentagem não significa nada.
«Recuperação de 95%»
Descreve tipicamente a eficiência de uma etapa isolada — quanto do canabinóide presente foi recuperado —, não quanta massa saiu. São duas medições diferentes com o mesmo nome.
«Um quilo dá um quilo»
Aparece em contextos de reembalagem e não descreve extracção nenhuma. Se a massa não desce, não houve separação.
E as comparações entre categorias
Comparar o rendimento de uma separação mecânica com o de uma extracção com solvente é comparar processos com objectivos diferentes. Um recolhe glândulas inteiras; o outro dissolve o conteúdo.
O que isto significa para quem compra
Explica o preço, não o justifica
Rendimento baixo explica porque é que um produto custa mais. Não garante que valha mais — matéria-prima fraca processada com rendimento baixo dá produto caro e fraco.
A concentração continua a mandar
Dois produtos com o mesmo preço por grama e concentrações diferentes têm preços por miligrama muito diferentes. É a conta que resolve a comparação.
O boletim continua a mandar mais
Rendimento não é uma característica do produto que chega ao consumidor. Não está no boletim, não está no rótulo, e não é verificável a jusante.
E o que fica de pé
Lote, boletim, concentração e preço por miligrama. O rendimento explica a economia da cadeia — o que se compra continua a avaliar-se pelos mesmos quatro números.
O que sobra depois de extrair
A biomassa esgotada
O que fica depois de uma extracção continua a ser a maior parte da massa que entrou. Numa operação com enquadramento, tem destino declarado — compostagem, valorização energética ou entrega a operador de resíduos.
As fracções secundárias
Separações mecânicas produzem várias fracções de qualidade decrescente. Nem todas se vendem, e as que se vendem raramente pagam o tempo que custaram a separar.
O solvente recuperado
Reutiliza-se, com perdas em cada ciclo. A taxa de recuperação é um indicador directo da qualidade do equipamento e entra no custo por lote.
E porque é que nada disto aparece no rótulo
Porque descreve a operação, não o produto. É o mesmo motivo pelo qual o rendimento não aparece: são números da cadeia, e a cadeia não é o que se compra.
Um glossário curto, para não voltar atrás
Rendimento em massa — gramas de produto por cada quilo de matéria-prima.
Rendimento de canabinóides — fracção do canabinóide presente que foi efectivamente recuperada.
Denominador — a base sobre a qual a percentagem é calculada. Sem ele, a percentagem não informa.
Conta encadeada — o rendimento real de um processo com várias etapas, obtido multiplicando os rendimentos parciais.
Factor 0,877 — a razão de massas que converte a forma ácida na neutra.
As cinco verificações que servem para tudo
- Há lote na embalagem, e o boletim é desse lote?
- O laboratório é independente e acreditado?
- O CBD total e o THC total estão calculados com o factor 0,877?
- Quantos painéis de contaminantes tem o boletim, e quais?
- Qual é o preço por miligrama, depois de feita a conta?
Como isto se cruza com o resto do site
O ar ou a água compara as duas separações mecânicas. O rosin e o que a prensa faz explica a etapa da conta encadeada. O preço por miligrama explica a única comparação que é aritmética. E a extracção a etanol a frio descreve o método de rendimento mais alto.
O que fazer com isto na prática
Se estás a comparar dois produtos
Ignora o rendimento. Não é uma característica do produto — é uma característica da operação que o fez, e não te chega às mãos.
Se estás a avaliar um vendedor
Pergunta o denominador quando alguém cita um rendimento. É a pergunta que distingue quem produz de quem repete números de catálogo.
Se estás só a tentar perceber
Guarda a conta encadeada: um rosin de bubble hash a 60% é 2,5% da flor de partida. É a aritmética que explica o preço da categoria inteira.
O que este site publica, e porquê
Não usamos rendimento como critério de listagem, porque não é verificável a jusante. Usamos concentração declarada e preço, e calculamos o preço por miligrama a partir dos dois.
Um resumo em cinco linhas
- Rendimento em massa e rendimento de canabinóides são números diferentes com o mesmo nome.
- Mais massa significa quase sempre menos pureza. É o compromisso que nenhum método evita.
- A conta encadeada é a que conta: 60% de um material que era 4% da flor dá 2,5%.
- O rendimento explica o preço, mas não garante qualidade.
- Não está no boletim nem no rótulo — o que se avalia continua a ser lote, análise e preço por miligrama.
O que se mede afinal
Massa obtida
Do produto final, pesada.
Massa de partida
Do material vegetal, também pesada.
Teor de partida
Que exige análise do material antes de processar.
Teor final
Que exige análise do produto.
Os dois cálculos que circulam
Rendimento em massa
Massa obtida sobre massa de partida. Simples e pouco informativo.
Rendimento em composto
Quantidade do composto obtida sobre a que existia no material.
A diferença
Grande, porque o produto não é composto puro.
O que se anuncia normalmente
O primeiro, que dá números maiores.
Porque o segundo é o que interessa
Mede a eficiência real
Do processo em recuperar o que interessa.
Não depende da pureza
Do produto final.
Permite comparar processos
Entre si, de forma justa.
Porque não se usa
Porque exige duas análises e dá números menos favoráveis.
Onde o material se perde
No material vegetal esgotado
Que nunca fica completamente esgotado.
No equipamento
Paredes, filtros, tubagens.
Nos passos de limpeza
Cada um retém uma fracção.
Na manipulação
Entre recipientes e na embalagem.
Quanto se perde em cada passo
Na extracção
Depende do método e do tempo de contacto.
Na remoção de ceras
Uma fracção, com parte do que interessa.
Na descoloração
Mais, porque o material de contacto retém.
Na destilação e cristalização
Muito, sobretudo na segunda.
Porque as perdas se multiplicam
Cada passo trabalha com o que sobrou
E não com o material original.
Três passos a noventa por cento
Não dão noventa, dão menos.
O efeito acumula-se depressa
Com o número de operações.
O que isso explica
Porque produtos mais puros custam desproporcionadamente mais.
O que a escala muda
Operações grandes
Perdem proporcionalmente menos no equipamento.
Operações pequenas
Perdem mais, pela mesma superfície com menos material.
O efeito no custo
Directo, e é uma das razões da diferença de preço.
O que isso não altera
A necessidade dos mesmos painéis.
O que o rendimento diz a quem compra
Sobre a qualidade
Nada.
Sobre o preço
Muito, porque explica a estrutura de custo.
Sobre o processo
Alguma coisa, se o processo for conhecido.
O que isso significa
Que é um dado de contexto e não um critério de decisão.
O que se anuncia e o que se verifica
Anuncia-se raramente
Porque é informação interna.
Verifica-se nunca
Porque exigiria acesso aos dados de produção.
O que se pode fazer
Usar o processo declarado para estimar a ordem de grandeza.
O que decide de facto
O boletim, o teor e o preço por miligrama.
O que fica por dizer
Qual o rendimento normal
Varia demasiado com método, material e escala para haver referência.
Se rendimento alto é bom sinal
Não é sinal de nada quanto ao produto.
O que o produto faz
Não existe alegação autorizada na União que o permita descrever.
O que recomendamos
Usar o rendimento para entender o preço, e o boletim para decidir a compra.
Como se estima sem dados de produção
Pelo processo declarado
Métodos com solvente rendem mais do que métodos mecânicos, e a ordem de grandeza é conhecida no sector.
Pelo tipo de produto
Um isolado passou por mais passos do que um extracto simples, e cada passo custa massa.
Pelo preço
Que reflecte a estrutura de custo e permite inferir onde o rendimento se situa.
O que a estimativa vale
Serve para perceber a formação do preço, e não substitui qualquer dado medido sobre o produto.
O que fica no material esgotado
Uma fracção sempre
Nenhum processo esgota completamente o material vegetal, e essa fracção é a maior perda isolada.
Mais em processos rápidos
Porque o contacto curto não permite que tudo o que é acessível passe para o solvente.
Menos em processos repetidos
À custa de mais tempo, mais solvente e mais material indesejado arrastado no segundo passo.
O que se faz com ele
Descarta-se, ou reprocessa-se se o teor residual justificar o custo de o voltar a processar.
Como isto se relaciona com o preço final
Rendimento baixo
Significa mais material de partida por unidade de produto, e o material de partida custa dinheiro.
Muitos passos
Cada um acrescenta custo de operação e retira massa, o que empurra o preço nas duas direcções.
Escala pequena
Perde proporcionalmente mais em equipamento e dilui pior o custo das análises.
O que isso permite concluir
Que a maior parte da diferença de preço entre produtos se explica por processo, e não por qualidade.
O que não entra nesta conta
A qualidade da matéria-prima
Que se mede no boletim e não no rendimento do processo.
A existência de painéis
Que custa e que muitos produtores simplesmente não fazem.
A margem comercial
Que varia enormemente e não tem relação com nada do que aqui se descreve.
O que isso obriga
A separar a conta do processo da conta do vendedor, que são coisas diferentes.
Perguntas frequentes
Qual é o método de maior rendimento?
A extracção com solvente, tipicamente etanol. Dissolve o que consegue alcançar, incluindo o que a separação mecânica deixa para trás.
Porque é que o rosin de hash tem números tão altos?
Porque o denominador é o hash, não a flor. Face à flor de partida, o rendimento real anda perto de 2,5%.
Rendimento baixo significa qualidade alta?
Não necessariamente. Significa que se recolheu menos massa, o que é frequentemente sinal de selecção — e por vezes apenas sinal de processo ineficiente.
Isto está no boletim de análise?
Não. O boletim descreve o produto, não o processo que o produziu.
Então para que serve saber isto?
Para perceber a estrutura de custos por trás dos preços, e para reconhecer quando um número citado não tem denominador.