Como se perdem, e a que temperatura
Um terpeno não desaparece de uma só maneira: desaparece de três. Evapora, oxida, ou transforma-se noutro composto com aroma diferente. Os três caminhos acontecem em simultâneo, a velocidades diferentes, e a temperatura acelera todos.
Perceber os três explica praticamente tudo o que acontece ao aroma de um produto entre a colheita e o consumo. Esta página descreve cada um, com as ordens de grandeza que interessam.
⚠️ Nota de enquadramento. A autorização de cultura da DGAV cobre fibra e semente; a inflorescência não está lá. Esta página descreve química de compostos voláteis e destina-se a compreensão.
Os três caminhos
A evaporação
O composto passa a fase gasosa e sai. Não se transforma: parte inteiro. É o caminho dominante à temperatura ambiente e em material exposto ao ar.
A oxidação
O composto reage com o oxigénio e transforma-se noutro. O aroma muda em vez de diminuir, e é a razão pela qual material antigo cheira a outra coisa em vez de cheirar a menos.
A isomerização
O composto reorganiza-se numa forma diferente com a mesma fórmula. Acontece sobretudo com calor e com acidez, e produz notas que a planta não tinha.
E o que os três partilham
Todos aceleram com temperatura. É a variável que os une, e é a única que se controla com facilidade.
As ordens de grandeza da volatilidade
| Composto | Volatilidade relativa | Nota associada |
|---|---|---|
| Alfa-pineno | muito alta | pinho |
| Limoneno | muito alta | citrinos |
| Mirceno | alta | terroso, herbáceo |
| Terpinoleno | alta | fresco |
| Linalol | média | floral |
| Cariofileno | baixa | pimenta |
| Humuleno | baixa | amadeirado |
| Bisabolol | muito baixa | floral suave |
A regra que a tabela mostra: os monoterpenos, de cadeia curta, partem primeiro. Os sesquiterpenos, mais pesados, resistem. É por isso que o perfil se desloca com o tempo para o registo terroso e amadeirado.
Onde a perda acontece
Na secagem
A etapa de maior perda absoluta, e por larga margem. Dias de exposição ao ar a temperatura moderada removem uma fracção substancial da fracção volátil.
É também a etapa onde a decisão é mais consequente: secagem lenta e fresca preserva; secagem forçada com calor destrói.
Na maturação
Perda muito menor, porque o material está em recipiente fechado e a troca de ar é limitada e deliberada.
No armazenamento
Contínua e lenta, com velocidade a depender de temperatura, luz e vedação do recipiente. É onde a oxidação ganha peso face à evaporação.
E no consumo
Instantânea. Qualquer aplicação de calor volatiliza o que resta, e é por isso que a temperatura de utilização decide o que se sente.
O que a temperatura faz
À temperatura ambiente
A perda é lenta e sobretudo por evaporação dos compostos mais leves. Meses, não dias.
Acima da temperatura ambiente
Cada aumento acelera de forma mais do que proporcional. Um armazém quente desfaz em semanas o que uma secagem cuidada construiu.
Em aquecimento controlado
O que acontece na vaporização: os compostos libertam-se por ordem de volatilidade, e a temperatura escolhida decide quais.
E em combustão
Praticamente tudo se destrói. A temperatura de combustão está muito acima do ponto em que qualquer terpeno sobrevive.
O que a oxidação produz
Compostos com aroma diferente
Os produtos de oxidação não são inertes: têm aroma próprio, tipicamente descrito como mais pesado ou mais resinoso.
O caso do pineno
A oxidação de terpenos de conífera produz compostos com aroma bastante diferente do original. É observável em qualquer óleo essencial antigo.
O caso do limoneno
Oxida com facilidade e os produtos resultantes são conhecidos por serem sensibilizantes cutâneos — razão pela qual a legislação de cosmética exige a sua declaração no rótulo.
E o que isso implica na prática
Que material muito antigo não é apenas menos aromático: é aromaticamente diferente, e em produtos de aplicação cutânea a diferença tem consequências regulamentares.
Como se preserva
Frio
A variável dominante. Cada grau a menos abranda os três caminhos.
Ausência de ar
Um recipiente que veda limita a evaporação e a oxidação em simultâneo.
Ausência de luz
A radiação fornece energia às reacções de oxidação. Vidro escuro ou embalagem opaca resolvem.
E superfície mínima
Material inteiro perde muito mais devagar do que material fragmentado. É a razão pela qual não se moe antecipadamente.
O que o boletim mostra
O perfil, se existir
A lista quantificada dos terpenos identificados. É a única forma de saber o que está lá.
O total
A soma dos compostos identificados. Um valor baixo indica material com fracção volátil reduzida — por genética, por pós-colheita, ou por idade.
A data da análise
Crucial e frequentemente esquecida. Um perfil de há um ano descreve um material que já não é aquele.
E o que o boletim não mostra
THC total = delta-9-THC + (THCA × 0,877)
Esta conta e o limite de 0,3% aplicável em Portugal ao cânhamo industrial não mudam com a perda de terpenos. Os canabinóides são muito mais estáveis do que a fracção volátil.
O que a luz faz, em separado
A energia que fornece
A radiação, sobretudo na faixa ultravioleta, fornece energia suficiente para desencadear reacções que à escuridão seriam muito mais lentas.
O efeito na oxidação
Acelera-a de forma marcada. Um frasco transparente ao sol degrada-se em prazos que um frasco opaco demora meses a atingir.
O efeito nos canabinóides
Também existe, ainda que sejam muito mais estáveis. A conversão de canabinóides em formas degradadas é acelerada pela luz.
E a solução
Vidro escuro ou embalagem opaca, e um armário fechado. Custa nada e resolve a variável por completo.
A oxidação, passo a passo
O contacto com o oxigénio
Começa à superfície, onde a área exposta é maior. É por isso que um pó fino oxida muito mais depressa do que uma massa compacta.
A propagação
Avança para dentro ao longo do tempo. Num material sólido, forma um gradiente que se vê ao corte.
Os produtos formados
Compostos com aroma próprio, tipicamente mais pesados e mais resinosos do que os originais.
E porque é que não se reverte
São reacções químicas com produtos estáveis. Não há operação doméstica nem industrial que devolva o composto original.
Como isto se compara com produtos aromáticos conhecidos
Os óleos essenciais
Vendem-se em frasco escuro, com prazo de validade e recomendação de conservação a frio. É exactamente o mesmo problema, tratado com seriedade há décadas.
As especiarias moídas
Perdem aroma em meses e mantêm-se inteiras durante anos. É a mesma diferença de superfície exposta.
O café
Moído perde carácter em dias; em grão, em semanas. A analogia é directa e a solução é a mesma: moer imediatamente antes.
E o que os três ensinam
Que a fracção volátil é um bem perecível, e que qualquer sector que a valorize desenvolve práticas de conservação específicas. Este ainda está a chegar lá.
O que isto muda em cada formato
Na flor inteira
A perda é lenta se o recipiente vedar. É o formato que melhor conserva a fracção volátil.
Na flor moída
Muito mais superfície exposta. Dias em vez de meses, e é a razão para moer imediatamente antes.
Nas resinas prensadas
Bem conservadas, resistem meses. A massa compacta tem pouca superfície face ao volume.
E nos óleos
O portador protege parcialmente por diluição e por isolamento do ar. Um frasco bem fechado e ao abrigo da luz conserva durante o prazo declarado.
Um glossário curto, para não voltar atrás
Monoterpeno — terpeno de cadeia curta, volátil, responsável pelas notas frescas.
Sesquiterpeno — terpeno mais pesado, menos volátil, de nota terrosa ou amadeirada.
Isomerização — reorganização de uma molécula noutra forma com a mesma fórmula.
Volatilidade — a facilidade com que um composto passa a fase gasosa.
Factor 0,877 — a razão de massas que converte a forma ácida na neutra.
As cinco verificações que servem para tudo
- Há lote na embalagem, e o boletim é desse lote?
- O laboratório é independente e acreditado?
- O CBD total e o THC total estão calculados com o factor 0,877?
- Quantos painéis de contaminantes tem o boletim, e quais?
- Qual é o preço por miligrama, depois de feita a conta?
Como isto se cruza com o resto do site
Os terpenos principais identificam os compostos um a um. As variedades cítricas descrevem o composto mais frágil de todos. A secagem lenta explica a etapa de maior perda. E as temperaturas de vaporização explicam o que se liberta a cada patamar.
O que fazer com isto na prática
Se estás a comparar dois produtos
Olha a data do perfil, não só os valores. Um perfil antigo descreve um material que já mudou.
Se estás a avaliar um vendedor
Pergunta a data de embalagem. Um produto com muitos meses perdeu a fracção que o distinguia, mesmo que o boletim de origem diga o contrário.
Se estás só a tentar perceber
Guarda os três caminhos: evapora, oxida, transforma-se. Os três acontecem ao mesmo tempo e os três aceleram com temperatura.
O que este site publica, e porquê
Registamos o perfil com a data da análise, sempre. Um perfil sem data descreve um momento que ninguém consegue situar.
O que se pergunta a um vendedor
«Qual é a data do perfil de terpenos?»
Sem data, o perfil descreve um momento que ninguém consegue situar.
«Qual é a data de embalagem?»
O número que permite estimar quanto da fracção volátil já se perdeu.
«Como foi guardado desde então?»
Temperatura, luz e tipo de recipiente. Três respostas que descrevem a exposição acumulada.
E «o material é vendido inteiro ou moído?»
Material moído perde em dias o que inteiro demora meses a perder. É a diferença de superfície exposta.
Um resumo em cinco linhas
- Três caminhos: evaporação, oxidação e isomerização, em simultâneo.
- Os monoterpenos partem primeiro; os sesquiterpenos resistem.
- A secagem é a etapa de maior perda, e a decisão mais consequente.
- A oxidação não remove: transforma. Material antigo cheira a outra coisa.
- Os canabinóides são muito mais estáveis — a conta do THC total não muda com a perda de aroma.
O que faz estes compostos desaparecerem
A volatilidade
Evaporam à temperatura ambiente. Não é preciso calor nenhum para que a perda comece.
A luz
Degrada as moléculas, sobretudo nos comprimentos de onda curtos.
O oxigénio
Oxida-as, e a reacção continua enquanto houver ar em contacto.
O tempo
Sozinho basta. Mesmo em condições ideais, a perda é contínua e não reverte.
A ordem por que se perdem
Os mais leves primeiro
Os que dão as notas frescas e cítricas são os primeiros a sair. É a mudança mais fácil de notar.
Os intermédios depois
Notas herbáceas e florais, com meses de por meio.
Os mais pesados por último
Notas terrosas e amadeiradas, que resistem muito mais.
O que isso produz
Um deslocamento progressivo do perfil, não um desaparecimento uniforme. Material antigo não cheira a menos, cheira a outra coisa.
O que a temperatura faz
Cada grau conta
A velocidade de evaporação sobe com a temperatura de forma acentuada.
O frio abranda tudo
É a intervenção com melhor relação entre esforço e resultado.
Os ciclos são piores do que a média
Aquecer e arrefecer repetidamente faz mais estrago do que uma temperatura constante ligeiramente mais alta.
Onde isto acontece sem se notar
No transporte, e numa prateleira exposta ao sol de tarde.
O que a superfície exposta faz
Material inteiro
Menor superfície por unidade de massa, perda mais lenta.
Material fragmentado
Muito mais superfície, perda em horas em vez de semanas.
Material processado
Depende da forma. Blocos compactos perdem devagar; material solto perde depressa.
A regra prática
Fragmentar imediatamente antes de usar, nunca com antecedência.
O que se pode medir
Análise do perfil volátil
Identifica e quantifica os compostos presentes. Existe e faz-se por encomenda.
Quanto custa
Mais do que a análise de teor, e por isso quase ninguém a pede.
O que permitiria
Comparar duas ofertas em unidades, e verificar se o aroma anunciado corresponde ao medido.
Porque não se faz
Porque não é exigida e porque o comprador decide pelo cheiro, que é grátis.
A reposição depois da perda
Como se faz
Acrescentando compostos voláteis a material que os perdeu, de origem vegetal ou não.
Se é legítimo
É, desde que declarado. O problema é a omissão, não a prática.
Como se desconfia
Aroma intenso em material de aspecto envelhecido, ou cheiro que não muda ao partir.
O que se perde na mesma
A correspondência entre o que se cheira e o que o material tem. Passam a ser duas coisas distintas.
O que isto muda no produto processado
Nos extractos
A perda ocorre durante a remoção do solvente, e é grande se o processo for conduzido a quente.
A recuperação
Alguns processos captam a fracção volátil em separado e devolvem-na no fim.
O que isso permite
Um resultado com perfil próprio em vez de perfil acrescentado.
Como se sabe qual foi
Perguntando. Não consta de nenhum rótulo europeu.
A conservação que resolve a maior parte
Frio
Frigorífico ou congelador, conforme o formato e o prazo.
Escuro
Recipiente opaco, ou dentro de um armário.
Fechado
Com o mínimo de ar possível, em recipientes ajustados à quantidade.
Dividido
Doses pequenas para não abrir sempre o mesmo recipiente grande.
O que perguntar antes de comprar
A data de colheita
Porque a perda começa aí e não na data de embalamento.
As condições de armazenamento
Do vendedor, que costumam ser a parte não documentada da cadeia.
Se houve reposição
Pergunta directa. A resposta, ou a ausência dela, informa.
O boletim e o lote
Como sempre, porque é o que liga o documento ao objecto.
O que fica por resolver
A ausência de análise de rotina
A tecnologia existe, o custo é conhecido e ninguém a pede.
A ausência de data
Que impede interpretar qualquer observação sobre aroma.
A confusão entre aroma e qualidade
Um material pode cheirar bem e ter teor baixo, e o contrário também.
O que o produto faz
Não existe alegação autorizada na União que o permita descrever.
O que muda entre formatos quanto a esta perda
Flor inteira
Superfície pequena face à massa. É o formato que retém melhor, desde que não se fragmente.
Material peneirado
Superfície enorme. Perde depressa e exige recipiente fechado desde o primeiro dia.
Blocos compactos
A camada exterior protege o interior. Perde de fora para dentro e o contraste ao corte mostra-o.
Extractos
Depende da consistência e do recipiente. Os mais fluidos perdem mais depressa por terem mais superfície em contacto com o ar.
Como se nota a perda sem instrumentos
Ao partir
O interior liberta o que a superfície já perdeu. A diferença entre os dois é a medida caseira da idade.
Ao aquecer na mão
Alguns segundos chegam para libertar mais. Comparar duas amostras exige que ambas estejam à mesma temperatura.
Com intervalo entre amostras
O olfacto satura depressa. Duas comparações seguidas prejudicam sempre a segunda.
O que a comparação decide
Qual está mais fresca. Não decide teor, nem pureza, nem origem.
Perguntas frequentes
Quanto tempo dura o aroma?
Meses em material bem guardado e inteiro. Semanas em material moído ou exposto a luz e calor.
Guardar no frio ajuda?
Ajuda, e a condensação ao abrir é o contrapeso. Um sítio fresco e estável é preferível a um frigorífico aberto todos os dias.
Um material sem aroma perdeu potência?
Perdeu a fracção volátil. A concentração de canabinóides mantém-se aproximadamente, porque são muito mais estáveis.
Porque é que material antigo cheira diferente em vez de cheirar menos?
Por oxidação. Os produtos de oxidação têm aroma próprio, e substituem o original em vez de o diluírem.
Um perfil de terpenos tem prazo de validade?
Na prática, sim. Descreve o material no momento da análise, e a fracção volátil muda a partir daí. Sem data, o perfil não se interpreta.
Isto aplica-se a extractos?
Aplica-se, e por vezes com mais força: um extracto com fracção volátil alta perde-a pelas mesmas vias, e mais depressa se for manipulado com calor.