cbdlovers
PT

Como se perdem, e a que temperatura

Redação cbdlovers 14 min

Um terpeno não desaparece de uma só maneira: desaparece de três. Evapora, oxida, ou transforma-se noutro composto com aroma diferente. Os três caminhos acontecem em simultâneo, a velocidades diferentes, e a temperatura acelera todos.

Perceber os três explica praticamente tudo o que acontece ao aroma de um produto entre a colheita e o consumo. Esta página descreve cada um, com as ordens de grandeza que interessam.

⚠️ Nota de enquadramento. A autorização de cultura da DGAV cobre fibra e semente; a inflorescência não está lá. Esta página descreve química de compostos voláteis e destina-se a compreensão.

Os três caminhos

A evaporação

O composto passa a fase gasosa e sai. Não se transforma: parte inteiro. É o caminho dominante à temperatura ambiente e em material exposto ao ar.

A oxidação

O composto reage com o oxigénio e transforma-se noutro. O aroma muda em vez de diminuir, e é a razão pela qual material antigo cheira a outra coisa em vez de cheirar a menos.

A isomerização

O composto reorganiza-se numa forma diferente com a mesma fórmula. Acontece sobretudo com calor e com acidez, e produz notas que a planta não tinha.

E o que os três partilham

Todos aceleram com temperatura. É a variável que os une, e é a única que se controla com facilidade.

As ordens de grandeza da volatilidade

CompostoVolatilidade relativaNota associada
Alfa-pinenomuito altapinho
Limonenomuito altacitrinos
Mircenoaltaterroso, herbáceo
Terpinolenoaltafresco
Linalolmédiafloral
Cariofilenobaixapimenta
Humulenobaixaamadeirado
Bisabololmuito baixafloral suave

A regra que a tabela mostra: os monoterpenos, de cadeia curta, partem primeiro. Os sesquiterpenos, mais pesados, resistem. É por isso que o perfil se desloca com o tempo para o registo terroso e amadeirado.

Onde a perda acontece

Na secagem

A etapa de maior perda absoluta, e por larga margem. Dias de exposição ao ar a temperatura moderada removem uma fracção substancial da fracção volátil.

É também a etapa onde a decisão é mais consequente: secagem lenta e fresca preserva; secagem forçada com calor destrói.

Na maturação

Perda muito menor, porque o material está em recipiente fechado e a troca de ar é limitada e deliberada.

No armazenamento

Contínua e lenta, com velocidade a depender de temperatura, luz e vedação do recipiente. É onde a oxidação ganha peso face à evaporação.

E no consumo

Instantânea. Qualquer aplicação de calor volatiliza o que resta, e é por isso que a temperatura de utilização decide o que se sente.

O que a temperatura faz

À temperatura ambiente

A perda é lenta e sobretudo por evaporação dos compostos mais leves. Meses, não dias.

Acima da temperatura ambiente

Cada aumento acelera de forma mais do que proporcional. Um armazém quente desfaz em semanas o que uma secagem cuidada construiu.

Em aquecimento controlado

O que acontece na vaporização: os compostos libertam-se por ordem de volatilidade, e a temperatura escolhida decide quais.

E em combustão

Praticamente tudo se destrói. A temperatura de combustão está muito acima do ponto em que qualquer terpeno sobrevive.

O que a oxidação produz

Compostos com aroma diferente

Os produtos de oxidação não são inertes: têm aroma próprio, tipicamente descrito como mais pesado ou mais resinoso.

O caso do pineno

A oxidação de terpenos de conífera produz compostos com aroma bastante diferente do original. É observável em qualquer óleo essencial antigo.

O caso do limoneno

Oxida com facilidade e os produtos resultantes são conhecidos por serem sensibilizantes cutâneos — razão pela qual a legislação de cosmética exige a sua declaração no rótulo.

E o que isso implica na prática

Que material muito antigo não é apenas menos aromático: é aromaticamente diferente, e em produtos de aplicação cutânea a diferença tem consequências regulamentares.

Como se preserva

Frio

A variável dominante. Cada grau a menos abranda os três caminhos.

Ausência de ar

Um recipiente que veda limita a evaporação e a oxidação em simultâneo.

Ausência de luz

A radiação fornece energia às reacções de oxidação. Vidro escuro ou embalagem opaca resolvem.

E superfície mínima

Material inteiro perde muito mais devagar do que material fragmentado. É a razão pela qual não se moe antecipadamente.

O que o boletim mostra

O perfil, se existir

A lista quantificada dos terpenos identificados. É a única forma de saber o que está lá.

O total

A soma dos compostos identificados. Um valor baixo indica material com fracção volátil reduzida — por genética, por pós-colheita, ou por idade.

A data da análise

Crucial e frequentemente esquecida. Um perfil de há um ano descreve um material que já não é aquele.

E o que o boletim não mostra

THC total = delta-9-THC + (THCA × 0,877)

Esta conta e o limite de 0,3% aplicável em Portugal ao cânhamo industrial não mudam com a perda de terpenos. Os canabinóides são muito mais estáveis do que a fracção volátil.

O que a luz faz, em separado

A energia que fornece

A radiação, sobretudo na faixa ultravioleta, fornece energia suficiente para desencadear reacções que à escuridão seriam muito mais lentas.

O efeito na oxidação

Acelera-a de forma marcada. Um frasco transparente ao sol degrada-se em prazos que um frasco opaco demora meses a atingir.

O efeito nos canabinóides

Também existe, ainda que sejam muito mais estáveis. A conversão de canabinóides em formas degradadas é acelerada pela luz.

E a solução

Vidro escuro ou embalagem opaca, e um armário fechado. Custa nada e resolve a variável por completo.

A oxidação, passo a passo

O contacto com o oxigénio

Começa à superfície, onde a área exposta é maior. É por isso que um pó fino oxida muito mais depressa do que uma massa compacta.

A propagação

Avança para dentro ao longo do tempo. Num material sólido, forma um gradiente que se vê ao corte.

Os produtos formados

Compostos com aroma próprio, tipicamente mais pesados e mais resinosos do que os originais.

E porque é que não se reverte

São reacções químicas com produtos estáveis. Não há operação doméstica nem industrial que devolva o composto original.

Como isto se compara com produtos aromáticos conhecidos

Os óleos essenciais

Vendem-se em frasco escuro, com prazo de validade e recomendação de conservação a frio. É exactamente o mesmo problema, tratado com seriedade há décadas.

As especiarias moídas

Perdem aroma em meses e mantêm-se inteiras durante anos. É a mesma diferença de superfície exposta.

O café

Moído perde carácter em dias; em grão, em semanas. A analogia é directa e a solução é a mesma: moer imediatamente antes.

E o que os três ensinam

Que a fracção volátil é um bem perecível, e que qualquer sector que a valorize desenvolve práticas de conservação específicas. Este ainda está a chegar lá.

O que isto muda em cada formato

Na flor inteira

A perda é lenta se o recipiente vedar. É o formato que melhor conserva a fracção volátil.

Na flor moída

Muito mais superfície exposta. Dias em vez de meses, e é a razão para moer imediatamente antes.

Nas resinas prensadas

Bem conservadas, resistem meses. A massa compacta tem pouca superfície face ao volume.

E nos óleos

O portador protege parcialmente por diluição e por isolamento do ar. Um frasco bem fechado e ao abrigo da luz conserva durante o prazo declarado.

Um glossário curto, para não voltar atrás

Monoterpeno — terpeno de cadeia curta, volátil, responsável pelas notas frescas.

Sesquiterpeno — terpeno mais pesado, menos volátil, de nota terrosa ou amadeirada.

Isomerização — reorganização de uma molécula noutra forma com a mesma fórmula.

Volatilidade — a facilidade com que um composto passa a fase gasosa.

Factor 0,877 — a razão de massas que converte a forma ácida na neutra.

As cinco verificações que servem para tudo

  1. Há lote na embalagem, e o boletim é desse lote?
  2. O laboratório é independente e acreditado?
  3. O CBD total e o THC total estão calculados com o factor 0,877?
  4. Quantos painéis de contaminantes tem o boletim, e quais?
  5. Qual é o preço por miligrama, depois de feita a conta?

Como isto se cruza com o resto do site

Os terpenos principais identificam os compostos um a um. As variedades cítricas descrevem o composto mais frágil de todos. A secagem lenta explica a etapa de maior perda. E as temperaturas de vaporização explicam o que se liberta a cada patamar.

O que fazer com isto na prática

Se estás a comparar dois produtos

Olha a data do perfil, não só os valores. Um perfil antigo descreve um material que já mudou.

Se estás a avaliar um vendedor

Pergunta a data de embalagem. Um produto com muitos meses perdeu a fracção que o distinguia, mesmo que o boletim de origem diga o contrário.

Se estás só a tentar perceber

Guarda os três caminhos: evapora, oxida, transforma-se. Os três acontecem ao mesmo tempo e os três aceleram com temperatura.

O que este site publica, e porquê

Registamos o perfil com a data da análise, sempre. Um perfil sem data descreve um momento que ninguém consegue situar.

O que se pergunta a um vendedor

«Qual é a data do perfil de terpenos?»

Sem data, o perfil descreve um momento que ninguém consegue situar.

«Qual é a data de embalagem?»

O número que permite estimar quanto da fracção volátil já se perdeu.

«Como foi guardado desde então?»

Temperatura, luz e tipo de recipiente. Três respostas que descrevem a exposição acumulada.

E «o material é vendido inteiro ou moído?»

Material moído perde em dias o que inteiro demora meses a perder. É a diferença de superfície exposta.

Um resumo em cinco linhas

  1. Três caminhos: evaporação, oxidação e isomerização, em simultâneo.
  2. Os monoterpenos partem primeiro; os sesquiterpenos resistem.
  3. A secagem é a etapa de maior perda, e a decisão mais consequente.
  4. A oxidação não remove: transforma. Material antigo cheira a outra coisa.
  5. Os canabinóides são muito mais estáveis — a conta do THC total não muda com a perda de aroma.

O que faz estes compostos desaparecerem

A volatilidade

Evaporam à temperatura ambiente. Não é preciso calor nenhum para que a perda comece.

A luz

Degrada as moléculas, sobretudo nos comprimentos de onda curtos.

O oxigénio

Oxida-as, e a reacção continua enquanto houver ar em contacto.

O tempo

Sozinho basta. Mesmo em condições ideais, a perda é contínua e não reverte.

A ordem por que se perdem

Os mais leves primeiro

Os que dão as notas frescas e cítricas são os primeiros a sair. É a mudança mais fácil de notar.

Os intermédios depois

Notas herbáceas e florais, com meses de por meio.

Os mais pesados por último

Notas terrosas e amadeiradas, que resistem muito mais.

O que isso produz

Um deslocamento progressivo do perfil, não um desaparecimento uniforme. Material antigo não cheira a menos, cheira a outra coisa.

O que a temperatura faz

Cada grau conta

A velocidade de evaporação sobe com a temperatura de forma acentuada.

O frio abranda tudo

É a intervenção com melhor relação entre esforço e resultado.

Os ciclos são piores do que a média

Aquecer e arrefecer repetidamente faz mais estrago do que uma temperatura constante ligeiramente mais alta.

Onde isto acontece sem se notar

No transporte, e numa prateleira exposta ao sol de tarde.

O que a superfície exposta faz

Material inteiro

Menor superfície por unidade de massa, perda mais lenta.

Material fragmentado

Muito mais superfície, perda em horas em vez de semanas.

Material processado

Depende da forma. Blocos compactos perdem devagar; material solto perde depressa.

A regra prática

Fragmentar imediatamente antes de usar, nunca com antecedência.

O que se pode medir

Análise do perfil volátil

Identifica e quantifica os compostos presentes. Existe e faz-se por encomenda.

Quanto custa

Mais do que a análise de teor, e por isso quase ninguém a pede.

O que permitiria

Comparar duas ofertas em unidades, e verificar se o aroma anunciado corresponde ao medido.

Porque não se faz

Porque não é exigida e porque o comprador decide pelo cheiro, que é grátis.

A reposição depois da perda

Como se faz

Acrescentando compostos voláteis a material que os perdeu, de origem vegetal ou não.

Se é legítimo

É, desde que declarado. O problema é a omissão, não a prática.

Como se desconfia

Aroma intenso em material de aspecto envelhecido, ou cheiro que não muda ao partir.

O que se perde na mesma

A correspondência entre o que se cheira e o que o material tem. Passam a ser duas coisas distintas.

O que isto muda no produto processado

Nos extractos

A perda ocorre durante a remoção do solvente, e é grande se o processo for conduzido a quente.

A recuperação

Alguns processos captam a fracção volátil em separado e devolvem-na no fim.

O que isso permite

Um resultado com perfil próprio em vez de perfil acrescentado.

Como se sabe qual foi

Perguntando. Não consta de nenhum rótulo europeu.

A conservação que resolve a maior parte

Frio

Frigorífico ou congelador, conforme o formato e o prazo.

Escuro

Recipiente opaco, ou dentro de um armário.

Fechado

Com o mínimo de ar possível, em recipientes ajustados à quantidade.

Dividido

Doses pequenas para não abrir sempre o mesmo recipiente grande.

O que perguntar antes de comprar

A data de colheita

Porque a perda começa aí e não na data de embalamento.

As condições de armazenamento

Do vendedor, que costumam ser a parte não documentada da cadeia.

Se houve reposição

Pergunta directa. A resposta, ou a ausência dela, informa.

O boletim e o lote

Como sempre, porque é o que liga o documento ao objecto.

O que fica por resolver

A ausência de análise de rotina

A tecnologia existe, o custo é conhecido e ninguém a pede.

A ausência de data

Que impede interpretar qualquer observação sobre aroma.

A confusão entre aroma e qualidade

Um material pode cheirar bem e ter teor baixo, e o contrário também.

O que o produto faz

Não existe alegação autorizada na União que o permita descrever.

O que muda entre formatos quanto a esta perda

Flor inteira

Superfície pequena face à massa. É o formato que retém melhor, desde que não se fragmente.

Material peneirado

Superfície enorme. Perde depressa e exige recipiente fechado desde o primeiro dia.

Blocos compactos

A camada exterior protege o interior. Perde de fora para dentro e o contraste ao corte mostra-o.

Extractos

Depende da consistência e do recipiente. Os mais fluidos perdem mais depressa por terem mais superfície em contacto com o ar.

Como se nota a perda sem instrumentos

Ao partir

O interior liberta o que a superfície já perdeu. A diferença entre os dois é a medida caseira da idade.

Ao aquecer na mão

Alguns segundos chegam para libertar mais. Comparar duas amostras exige que ambas estejam à mesma temperatura.

Com intervalo entre amostras

O olfacto satura depressa. Duas comparações seguidas prejudicam sempre a segunda.

O que a comparação decide

Qual está mais fresca. Não decide teor, nem pureza, nem origem.

Perguntas frequentes

Quanto tempo dura o aroma?

Meses em material bem guardado e inteiro. Semanas em material moído ou exposto a luz e calor.

Guardar no frio ajuda?

Ajuda, e a condensação ao abrir é o contrapeso. Um sítio fresco e estável é preferível a um frigorífico aberto todos os dias.

Um material sem aroma perdeu potência?

Perdeu a fracção volátil. A concentração de canabinóides mantém-se aproximadamente, porque são muito mais estáveis.

Porque é que material antigo cheira diferente em vez de cheirar menos?

Por oxidação. Os produtos de oxidação têm aroma próprio, e substituem o original em vez de o diluírem.

Um perfil de terpenos tem prazo de validade?

Na prática, sim. Descreve o material no momento da análise, e a fracção volátil muda a partir daí. Sem data, o perfil não se interpreta.

Isto aplica-se a extractos?

Aplica-se, e por vezes com mais força: um extracto com fracção volátil alta perde-a pelas mesmas vias, e mais depressa se for manipulado com calor.