Temperaturas de vaporização, terpeno a terpeno
Cada composto tem uma temperatura a partir da qual passa a fase gasosa em quantidade apreciável. Aquecer devagar liberta-os por ordem: primeiro os mais leves, depois os intermédios, e por fim os canabinóides.
É essa a lógica de escolher uma temperatura em vez de aceitar a que o aparelho traz por defeito. Esta página dá a escala, explica o que cada patamar liberta, e desmonta a diferença entre o número que se lê e o que acontece dentro da câmara.
⚠️ Nota de enquadramento. A autorização de cultura da DGAV cobre fibra e semente; a inflorescência não está lá. Esta página descreve física de volatilização e destina-se a compreensão. Não descreve efeitos, e não existe na União Europeia qualquer alegação de saúde autorizada para o canabidiol.
A escala, composto a composto
| Composto | Início de volatilização apreciável | Nota |
|---|---|---|
| Alfa-pineno | ~155 °C | pinho |
| Beta-cariofileno | ~160 °C | pimenta |
| Mirceno | ~167 °C | terroso |
| Limoneno | ~176 °C | citrinos |
| CBD | ~180 °C | — |
| Terpinoleno | ~186 °C | fresco |
| Linalol | ~198 °C | floral |
| Humuleno | ~198 °C | amadeirado |
| CBN | ~185 °C | — |
| Bisabolol | ~153 °C | floral suave |
Os valores são pontos de ebulição de referência à pressão atmosférica, e servem de ordenação. Numa matriz vegetal, a libertação começa antes e é gradual.
Porque é que a escala é uma ordenação e não uma receita
O ponto de ebulição não é um interruptor
Um composto começa a volatilizar bastante antes de atingir o ponto de ebulição. O valor da tabela marca onde a libertação se torna rápida, não onde começa.
A matriz vegetal complica
Os compostos não estão puros: estão dentro de uma estrutura, misturados uns com os outros. A libertação real desvia-se do comportamento de composto isolado.
A pressão importa
Os valores de referência são à pressão atmosférica. Qualquer variação desloca-os.
E a mistura desloca tudo
Numa mistura, cada composto influencia a volatilidade dos outros. É química de soluções, e não aritmética de tabelas.
Os patamares, na prática
Abaixo dos 170 graus
Liberta-se sobretudo a fracção volátil mais leve. O vapor é fino, o aroma é máximo, e a extracção de canabinóides é parcial.
Entre 175 e 190 graus
O intervalo mais usado. Compromisso entre aroma preservado e libertação de canabinóides.
Entre 190 e 210 graus
Extracção mais completa, vapor mais denso, aroma perceptivelmente reduzido — a fracção leve já saiu.
E acima dos 220 graus
Aproxima-se do ponto onde o material vegetal começa a degradar-se de forma visível. O vapor ganha carácter de queimado e deixa de ser vaporização no sentido pretendido.
A diferença entre o número no ecrã e a realidade
O que o ecrã mostra
A temperatura medida por um sensor, tipicamente junto ao elemento de aquecimento e não no meio do material.
O que acontece na câmara
Um gradiente. O material junto à fonte de calor está mais quente do que o do centro, por vezes com diferença de dezenas de graus.
O efeito da inalação
Ar frio a passar pela câmara arrefece o material. A temperatura durante a passagem é inferior à indicada.
E o que isso implica
Que o número no ecrã é uma referência do aparelho e não uma medição do que o material experimenta. Dois aparelhos com o mesmo valor produzem resultados diferentes.
Condução e convecção
O aquecimento por condução
O material está em contacto com uma superfície quente. Simples, barato, e com gradiente térmico acentuado.
O aquecimento por convecção
O ar quente atravessa o material. Distribuição muito mais uniforme e sem contacto directo com a superfície de aquecimento.
O que isso muda
Em condução, o material junto à parede degrada-se antes de o resto aquecer. Em convecção, a libertação é mais homogénea.
E os sistemas híbridos
Combinam os dois, com o objectivo de reduzir o gradiente sem o custo de uma convecção pura.
O que a moagem muda
A superfície exposta
Material mais fino tem mais superfície e liberta mais depressa. É a variável com maior efeito depois da temperatura.
A homogeneidade
Uma moagem uniforme aquece de forma uniforme. Fragmentos de tamanhos muito diferentes produzem extracção desigual.
A compactação
Material demasiado comprimido restringe a passagem de ar e prejudica a convecção. Demasiado solto deixa o ar passar sem contactar.
E o efeito no aroma
Material moído perde fracção volátil enquanto espera. Moer imediatamente antes preserva; moer com antecedência não.
Como escolher uma temperatura
Se a prioridade é o aroma
Começar baixo. A fracção volátil sai primeiro e é onde o carácter está.
Se a prioridade é a eficiência
Subir. Mais temperatura extrai mais do material disponível.
A abordagem em escada
Começar baixo e subir progressivamente ao longo da sessão. Aproveita as duas coisas em vez de escolher uma.
E o que evitar
Temperatura máxima desde o início. Volatiliza tudo de uma vez, perde o aroma imediatamente e aproxima-se do ponto de degradação.
O que se verifica no material
O aspecto depois
Material bem vaporizado fica castanho uniforme. Preto indica degradação; verde indica extracção incompleta.
O aroma residual
Deve estar praticamente ausente se a extracção foi completa. Aroma residual forte indica que sobrou fracção volátil.
O que sobra tem uso
Material já vaporizado mantém compostos não volatilizados. É frequentemente aproveitado para infusão.
E o que isso confirma
Que a vaporização é uma extracção parcial e selectiva, e não uma destruição total. É a diferença essencial face à combustão.
O que o material deixa no aparelho
Resíduo na câmara
Acumula-se com o uso e altera a transferência de calor. Uma câmara suja aquece de forma diferente da de fábrica.
O efeito no sabor
Resíduo antigo aquecido acrescenta carácter que não vem do material que se está a usar.
A limpeza
Regular, com o método que o fabricante indicar. É manutenção banal com efeito directo no resultado.
E o que uma câmara limpa garante
Que a temperatura indicada corresponde ao que a concepção do aparelho previu. É o mínimo para que a escala desta página signifique alguma coisa.
O que muda entre flor e concentrado
A matriz
Um concentrado não tem estrutura vegetal. A libertação é mais directa e a temperatura pedida é tipicamente diferente.
A necessidade de suporte
Concentrados exigem acessório próprio — um recipiente ou uma malha —, porque escorrem quando liquefazem.
A ordem de libertação
A mesma lógica: os leves primeiro. O que muda é a rapidez, porque não há tecido vegetal a atrasar.
E o risco de degradação
Maior. Sem matriz vegetal a distribuir o calor, um ponto quente degrada o material com facilidade.
O que distingue vaporização de combustão
A temperatura
A combustão acontece muito acima do intervalo desta página. É outra ordem de grandeza.
O que se forma
A combustão gera produtos de pirólise que a vaporização não gera. É a diferença estrutural entre as duas.
O que sobra
Vaporização deixa material castanho com compostos por extrair. Combustão deixa cinza.
E o que isso implica na escolha da temperatura
O limite superior útil está bastante abaixo do ponto de combustão. Passar dele não acrescenta extracção — muda o processo.
Um glossário curto, para não voltar atrás
Ponto de ebulição — a temperatura à qual um líquido passa a gás em quantidade rápida, a uma dada pressão.
Condução — transferência de calor por contacto directo.
Convecção — transferência de calor por movimento de um fluido, neste caso ar.
Gradiente térmico — a diferença de temperatura entre pontos de um mesmo espaço.
Factor 0,877 — a razão de massas que converte a forma ácida na neutra.
As cinco verificações que servem para tudo
- Há lote na embalagem, e o boletim é desse lote?
- O laboratório é independente e acreditado?
- O CBD total e o THC total estão calculados com o factor 0,877?
- Quantos painéis de contaminantes tem o boletim, e quais?
- Qual é o preço por miligrama, depois de feita a conta?
Como isto se cruza com o resto do site
Como os terpenos se perdem explica o que a temperatura faz fora do aparelho. Os terpenos principais identificam os compostos da tabela. O moinho explica a variável da moagem. E o factor 0,877 explica a conversão que o calor provoca.
O que fazer com isto na prática
Se estás a comparar dois aparelhos
Pergunta o método de aquecimento antes do intervalo de temperaturas. Convecção e condução produzem resultados diferentes ao mesmo número.
Se estás a avaliar um produto
Um material com perfil de terpenos publicado permite escolher a temperatura em função do que lá está. Sem perfil, é adivinhar.
Se estás só a tentar perceber
Guarda a ordem: os leves saem primeiro, os canabinóides depois. Toda a lógica de escolher temperatura decorre daí.
O que este site publica, e porquê
Registamos perfis de terpenos quando existem. São o que torna a escolha de temperatura uma decisão informada em vez de uma preferência.
O que a temperatura faz aos canabinóides
A descarboxilação
Calor converte a forma ácida na neutra, segundo a relação de massas conhecida:
CBD total = CBD + (CBDA × 0,877)
É a conversão que qualquer aquecimento provoca, e é gradual com a temperatura e o tempo.
O que isso muda no que se liberta
Um material aquecido devagar converte progressivamente. Um aquecimento brusco converte menos e volatiliza mais depressa.
A degradação a temperaturas altas
Acima de determinado ponto, os canabinóides degradam-se em vez de se converterem. É o limite superior prático da escala desta página.
E o que continua fixo
O limite de 0,3% de THC total aplicável em Portugal ao cânhamo industrial nos termos da Portaria n.º 64/2023 mede-se no produto, não no que se liberta ao aquecer.
Um resumo em cinco linhas
- Cada composto tem um ponto de volatilização — a escala é uma ordenação, não uma receita.
- Os leves saem primeiro; os canabinóides depois.
- O número no ecrã não é o da câmara. Há gradiente, e a inalação arrefece.
- Convecção distribui melhor do que condução ao mesmo valor indicado.
- A abordagem em escada aproveita o aroma primeiro e a eficiência depois.
O que a temperatura decide
Abaixo de certo valor
Pouco se liberta, e o vapor produzido tem pouca substância.
Num intervalo intermédio
Liberta-se progressivamente mais, com o perfil a deslocar-se conforme os compostos vão saindo.
Acima de certo valor
Começa a haver degradação e formação de produtos que não se pretendem.
O que isso implica
Que existe um intervalo útil, e que as extremidades dele têm inconvenientes diferentes.
Porque os compostos saem por ordem
Volatilidade diferente
Cada composto evapora a partir de uma temperatura própria, o que cria uma sequência.
Os voláteis primeiro
As notas mais leves libertam-se em primeiro lugar, a temperaturas mais baixas.
Os menos voláteis depois
Incluindo o composto principal, que exige temperatura superior.
O que isso permite
Extrair fracções diferentes do mesmo material variando a temperatura ao longo do uso.
O que se perde a temperatura baixa
Parte do composto principal
Que não se liberta em quantidade apreciável abaixo de certo valor.
Eficiência
Porque fica material por aproveitar quando se termina.
O que se ganha
Perfil mais completo e ausência de produtos de degradação.
O compromisso
Que é o mesmo de sempre entre quantidade e preservação.
O que se perde a temperatura alta
O perfil
Que já se libertou e se perdeu antes de se atingir essa temperatura.
A qualidade do vapor
Que passa a conter produtos de decomposição do material vegetal.
O que se ganha
Mais material libertado por sessão, o que é a razão pela qual se usa.
O que não se recupera
Os compostos degradados, que não voltam.
O que acontece acima do intervalo útil
Combustão
Que é um processo diferente e produz um conjunto de compostos que se pretendia evitar.
Sabor característico
Que é o sinal mais imediato de que se passou o limite.
Perda do propósito
Porque a razão de usar temperatura controlada era justamente não chegar aí.
Como se evita
Com equipamento que meça e regule, e não apenas que aqueça.
O que o equipamento decide
A precisão
Da temperatura efectivamente atingida, que pode diferir muito da indicada.
A uniformidade
Do aquecimento, que evita pontos quentes onde há degradação local.
O tipo de contacto
Por condução ou por convecção, com resultados diferentes.
O que isso implica
Que o mesmo valor indicado em dois aparelhos não corresponde à mesma temperatura real.
O que se observa no material usado
Cor alterada
Que passa de verde a castanho conforme a temperatura e o tempo.
Cor muito escura
Que indica temperatura excessiva ou uso prolongado.
Material praticamente inalterado
Que indica temperatura insuficiente e material por aproveitar.
O que isso permite
Ajustar, com base numa observação simples e imediata.
A moagem e a densidade de enchimento
Moagem uniforme
Que permite aquecimento homogéneo em todo o volume.
Moagem demasiado fina
Que compacta e impede a passagem do ar, com aquecimento desigual.
Enchimento demasiado apertado
Que produz o mesmo problema por outra via.
O que resolve
Moagem média e enchimento sem compressão, que é a recomendação corrente.
O que não está documentado
A composição do vapor
Que se forma e que ninguém analisa em produtos correntes.
As diferenças entre equipamentos
Que existem e não são comparadas de forma sistemática.
O efeito da temperatura no que se liberta
Descrito qualitativamente, raramente quantificado.
O que isso deixa
Recomendações que circulam sem base publicada e que se repetem entre sítios.
O que fica por dizer
Qual a temperatura ideal
Depende do material, do equipamento e do que se procura, e não há valor universal.
Se a diferença se mede
Mede-se, com análise do vapor, que praticamente não se faz.
O que o produto faz
Não existe alegação autorizada na União que o permita descrever.
O que recomendamos
Começar em baixo e subir, observando o material, em vez de partir de um número lido algures.
O que se ajusta durante o uso
A temperatura ao longo da sessão
Subindo gradualmente, para aproveitar fracções sucessivas em vez de as perder de uma vez.
O tempo de cada patamar
Que determina quanto de cada fracção se liberta antes de subir.
A quantidade de material
Que condiciona a uniformidade do aquecimento.
O que se observa para decidir
A cor do material, que indica quanto já foi aproveitado.
O que o material usado revela sobre a sessão
Cor uniforme
Indica aquecimento homogéneo em todo o volume, que é o objectivo.
Zonas escuras isoladas
Indicam pontos quentes, geralmente por enchimento demasiado apertado.
Material praticamente verde
Indica temperatura insuficiente e material por aproveitar.
O que isso permite
Corrigir a sessão seguinte com base numa observação que leva segundos.
Perguntas frequentes
Qual é a temperatura certa?
Não há uma. Baixo preserva aroma e extrai menos; alto extrai mais e perde aroma. A escada aproveita os dois.
Porque é que dois aparelhos com o mesmo valor dão resultados diferentes?
Método de aquecimento, posição do sensor e desenho da câmara. O número indicado é uma referência do aparelho, não uma medição do material.
O material castanho no fim é normal?
É o esperado numa extracção completa. Preto indica degradação; verde indica que sobrou muito por extrair.
Vale a pena guardar o material já vaporizado?
Mantém compostos não volatilizados e é frequentemente aproveitado para infusão, que exige gordura.
Porque é que o mesmo material sabe diferente em sessões seguidas?
Porque a primeira passagem leva a fracção leve. O que fica é o registo mais pesado, e é isso que a segunda passagem liberta.
A moagem importa assim tanto?
É a variável com maior efeito depois da temperatura. Uniformidade e compactação decidem se o calor chega a todo o material.